A X-PHI e os Experimentos 1

Carlos Mauro

Alguns filósofos e alguns simpatizantes da filosofia têm considerado abusivo, para não dizer inadequado, o uso de métodos empíricos standard na filosofia. Dizem que existem áreas de especialização razoavelmente bem definidas e que os filósofos, por norma, não seriam bons experimentadores, não realizariam bons cálculos e que, portanto, deveríamos deixar a realização de experiências e de cálculos para os psicólogos, físicos, químicos, neurocientistas etc.. Caberia, então, ao filósofo a utilização dos dados produzidos pelos cientistas como fonte para os seus insights. Obviamente, como pensam alguns, o filósofo não deveria sujar as mãos e preferencialmente não deveria sair do seu cadeirão, a não ser, é claro, para buscar o seu bom copo de vinho, para buscar alguns cafés, ou para comprar algo para fumar (nada contra essas acções). Não sair da cadeira faz parte do tipo filósofo-intelectual-inspirado, ou do tipo filósofo-genial-intuitivo. As pessoas que, de algum modo, depositam esperança na Filosofia Experimental pensam bem diferente – como obviamente é o meu caso.

Como é possível dizer que um filósofo não é capaz de estruturar uma boa experiência e que a estatística é um “bicho-de-sete-cabeças”? Um filósofo deve ser capaz de compreender coisas muito mais complexas e abstractas do que os métodos experimentais e estatísticos em questão. Deve ser capaz de em alguns dias, ou, no máximo, em poucos meses, ser capaz de conhecer determinados métodos estatísticos como conhecem os economistas, os psicólogos, os sociólogos etc.. Além disso, na filosofia experimental é comum a parceria entre investigadores (coisa que os filósofos de cadeirão não gostam muito) de áreas diferentes, como filósofos e psicólogos, filósofos e antropólogos, economistas, etc., como jná foi dito acima.

Dada a natureza e o objectivo desse texto posso deixar aqui o meu testemunho. A minha primeira formação é em Economia, passei quatro anos estudando matemática, matemática aplicada, estatística, estatística aplicada e econometria, além, é claro, do uso analítico que fazíamos do cálculo em outras disciplinas, como a microeconomia, por exemplo. Posso dizer com toda a segurança que um bom filósofo é capaz de aprender estatística o suficiente para realizar excelentes experiências em muito pouco tempo. Posso dizer também, com certa segurança, que a lógica pode ser mais árida em alguns sentidos do que os métodos quantitativos. Não vejo realmente nada que possa ser objectável no que diz respeito à capacidade do filósofo de realizar experiências utilizando métodos quantitativos e experimentais. O que disse acerca da estatística serve também aos métodos experimentais.

Além disso, não lhes parece extremamente imobilizador e frustrante querer saber algo acerca de uma intuição que está disponível “a uma experiência de distância”, isto é, a um pequeno passo, e nós, como filósofos, não podemos querer (o que é pior do que “não poder saber”) porque “não devemos fazer isso”? Não me parece que os filósofos dispõem de dados científicos suficientes que abarquem as suas necessidades. Daí a importância de colocarem a mão na massa e produzirem os dados que para eles fazem mais sentido – dados que estejam directamente ligados às perguntas que fazem e que realmente querem tentar responder.

Não quis aqui dizer que esses dados vão responder às perguntas filosóficas, nem dizer que passaremos a validar sistematicamente as respostas filosóficas a partir de experiências. No entanto, uma filosofia ligada directamente ao laboratório e ao campo parece ser uma filosofia extremamente interessante e excitante. Esses dados poderão, muitas vezes, criar mais e maiores problemas filosóficos do que o simples apelo às intuições dos filósofos acerca do que as pessoas pensam.

2 comentários

  1. De novo, o que temos aqui é uma postagem “negativa”, sobre os “nãos” que se aplicam, aparentemente de maneira inapropriada, à filosofia experimental. Mas ainda busco a caracterização positiva: o que é a filosofia experimental? qual sua proposta?

    (Essas são dicas de um leitor que está fruindo e gostando do blog, não são críticas à filosofia experimental, até porque o leitor em questão ainda desconhece-a.)

  2. César, acho que a minha resposta ao seu comentário ao post “É necessário desmitificar” aplica-se também aqui. A Susana, nos posts sobre os casos em filosofia moral, trata de alguns exemplos interessantes e que podem ser úteis.
    (os seus comentários são muito importantes para que possamos melhorar o blog)

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