Um Caso em Filosofia Moral 1

Susana Cadilha

Em filosofia moral, o dilema do trólei é sobejamente conhecido. Trata-se de uma experiência de pensamento primeiramente apresentada por Philippa Foot, que foi objecto de sucessivas análises por vários filósofos, como Judith Jarvis Thomson, ou Frances Kamm, entre outros. Na sua forma mais simples, coloca-nos no papel de alguém que, perante um trólei desgovernado que se prepara para atropelar cinco pessoas, tem nas suas mãos a possibilidade de salvar essas pessoas, caso accione um manípulo por meio do qual pode desviar a direcção do veículo para outra linha. Acontece que na outra linha está uma outra pessoa, que também não terá tempo suficiente para fugir e se salvar. O que é eticamente correcto fazer?

O caso pode apresentar múltiplas variantes, com cenários ligeiramente diferentes, e o objectivo é precisamente testar intuições, ver em que sentido é que estas mudam caso algum detalhe se altere e, mais importante, ser capaz de explicar porquê, de justificar essa decisão, ainda que virtual.

O mais comum é comparar esse caso com um outro – que ficou conhecido como o dilema da ponte pedonal – em que a situação é a mesma só que desta vez a única forma de impedir a morte das mesmas cinco pessoas é se o agente empurrar uma outra pessoa para cima dos carris, por forma a fazer parar o veículo. Se, no primeiro caso, a intuição comum é a de que é permissível mudar a direcção do trólei, evitando assim a morte de cinco pessoas, neste último caso, a mesma intuição comum de que se socorrem estes filósofos vai no sentido oposto, apesar de estar em causa a mesma decisão acerca da vida (ou morte) de cinco pessoas vs uma. No dilema do trólei, seria permissível desviar a direcção do veículo provocando a morte de uma pessoa, mas no segundo caso não seria permissível empurrar uma pessoa para os carris como forma de fazer parar o trólei.

Qual é a diferença, moralmente relevante, entre um caso e outro?

As respostas divergem: J. J. Thomson sugere que o que explica a diferença é o princípio do duplo efeito, de acordo com o qual é permissível provocar algum dano (neste caso, matar uma pessoa) se isso ocorrer como um efeito colateral da acção principal (que é salvar cinco pessoas), mas não é permissível se o mal causado constituir o próprio meio de realizar a acção, mesmo que o resultado seja o mesmo.

Já o psicólogo neurocognitivo Joshua Greene tem uma leitura diferente: num caso a violação moral é mais pessoal do que noutro (“matamos pelas próprias mãos”), e, portanto, “emocionalmente mais saliente”, daí que se desencadeie em nós uma resposta emocional mais forte que origina um juízo negativo.

Subjacentes às duas interpretações estão leituras divergentes acerca do que está na base dos nossos juízos morais – um princípio racional, a que chegamos depois de avaliados os factos e as razões que temos para agir, ou uma intuição de carácter emocional?

O ponto que aqui me interessa salientar, no entanto, é a questão das intuições. É que tanto os filósofos como os psicólogos ou neurocientistas se servem delas, mas com uma diferença: no segundo caso, testam-se, de facto, as intuições das pessoas comuns, no primeiro caso apenas estão sob análise as intuições dos filósofos. Em qual dos casos se pode dizer que se fala com mais propriedade sobre o assunto?

Referências:

Frances Myrna Kamm, “Harming Some to Save Others”, Philosophical Studies, 57, 227-60, 1989.

Greene, J., Sommerville, R., Nystrom, L., Darley, J. and Cohen, J. (2001), “An fMRI investigation of emotional engagement in moral judgment”. Science, 293, 21.

Judith Jarvis Thomson, “Killing, Letting Die, and the Trolley Problem”, The Monist, 59, 204-17, 1976.

Judith Jarvis Thomson, “The Trolley Problem”, Yale Law Journal, 94, 1395-1415, 1985.

Philippa Foot, “The Problem of Abortion and the Doctrine of the Double Effect”, in Virtues and Vices, Oxford: Basil Blackwell, 1978.

4 comentários

  1. Susana, você poderia descrever o experimento (em termos básicos) do Joshua Greene e dizer-nos quais foram os resultados específicos? Por outro lado, as intuições da Judith Thomson são justificadas por qual estratégia? O que você propõe é que sejam testadas as intuições da JT através de algum experimento?

  2. Olá. Quanto ao ponto apresentado no final, não vejo porque as intuições filosóficas e as intuições psicológicas precisariam ser mutuamente excludentes. Creio que uma boa avaliação do problema precisa considerar tanto as primeiras quanto as segundas.

    1. susanacadilha · · Responder

      A questão é mesmo essa, César – é que a maioria dos filósofos não leva em consideração as intuições comuns, nem pensa que isso seja necessário.

  3. About Trolley (and other moral) problems see our experimental work with their computer modelling:

    L. M. Pereira, Ari Saptawijaya, Computational Modelling of Morality, The Association for Logic Programming Newsletter, Vol. 22, No. 1, February/March 2009. Download from here:
    http://centria.di.fct.unl.pt/~lmp/publications/online-papers/Computational_Modelling_of_Morality.pdf

    L. M. Pereira, A. Saptawijaya, Modelling Morality with Prospective Logic, in: International Journal of Reasoning-based Intelligent Systems (IJRIS), to appear in 2009. Download from here:
    http://centria.di.fct.unl.pt/~lmp/publications/online-papers/ijris09-moral.pdf

    L. M. Pereira, H. T. Anh, Evolution Prospection in Decision Making in: Intelligent Decision Technologies (IDT), to appear in 2009. Download from here:
    http://centria.di.fct.unl.pt/~lmp/publications/online-papers/IDT%20evolution.pdf

    About the use of AI for epistemology see our:
    G. Wheeler, L. M. Pereira, Methodological Naturalism and Epistemic Internalism, Synthèse, 163(3):315–328, 2008. Downloadable from here:
    http://centria.di.fct.unl.pt/~lmp/publications/online-papers/synthese07.pdf

    And more in my home page: http://centria.di.fct.unl.pt/~lmp/

    Comments welcome.

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