É Necessário Desmitificar 1

Carlos Mauro

Antes de avançarmos alguma explicação mais directa acerca da filosofia experimental, é preciso dizer, para uma imediata “desmitificação”, que a x-phi não é um movimento que prescreve a solução de problemas filosóficos através da estatística, do cálculo matemático ou das pesquisas/experiências científico-sociais, assim como, não defende que o único e exclusivo caminho da filosofia é perguntar às pessoas comuns o que elas pensam acerca desse ou daquele conceito, ou dessa ou daquela intuição.

Há muitos filósofos que ainda pensam que a x-phi é uma forma de fazer filosofia que se resume a perguntar às pessoas o que elas pensam, ou que os filósofos experimentais prescrevem a utilização dos métodos experimentais e quantitativos para resolver/solucionar problemas filosóficos. Curiosamente, acreditam em mitos como esses acerca da X-Phi, sem aparente justificação – uma vez que os autores e os artigos centrais da x-phi não defendem tais ideias. Basta o interessado ler, com alguma atenção e algum desprendimento, meia dúzia de artigos centrais para perceber do que se trata a x-phi. Por conta dessa atitude, de certa forma, imprudente e obviamente conservadora tem havido alguma precipitação e confusão acerca da x-phi.

Algumas das reacções mais inflamadas contra a x-phi parecem ser o resultado de alguma confusão entre as questões filosóficas inerentes à x-phi e elementos extra/não-filosóficos, que envolvem logótipos, vídeo clipes, t-shirts, entre outras coisas que têm surgido de maneira espontânea e supostamente a favor da filosofia experimental – “supostamente” porque em alguns casos parece atrapalhar.

O logótipo mais conhecido da x-phi é um cadeirão incendiando como uma alusão ao suposto declínio da chamada “filosofia de cadeirão” – como veremos à frente, identificada com uma filosofia que prescreve o conhecimento a priori como o único a ser produzido pela “verdadeira filosofia”.

A x-phi tem conquistado adeptos por todos os lados e especialmente entre os jovens alunos de licenciatura, mestrado e doutoramento. Alguns parecem mesmo adeptos, no sentido futebolístico da palavra. Como ilustração desse tipo de coisas sugiro que entre na página da filosofia experimental no myspace (http://www.myspace.com/experimentalphilosophy), que assista ao clipe do “hino” da x-phi (http://www.youtube.com/watch?v=tt5Kxv8eCTA), que veja as t-shirts à venda (http://www.cafepress.com/xphi), assim como a selecção de músicas x-phi (http://www.mixtapecollective.org/mixtape/?mix=2740).

As reacções teóricas acesas, inflamadas e polarizadas, parecem ocorrer, como já foi dito, por causa do ataque que os filósofos experimentais fazem ao método que foi predominante na filosofia analítica durante o século XX. Isto é, a X-Phi ataca frontalmente a ideia de que cabe ao filósofo realizar exclusivamente trabalhos metodologicamente apriorísticos – a esse modo de fazer filosofia, chamam “Filosofia de Cadeirão”. Como foi dito, a partir disso alguns adeptos da x-phi passaram a actuar fora da filosofia, talvez numa estratégia inocente, e isso tem provocado algum desconforto em alguns filósofos experimentais. O logótipo mais conhecido da x-phi, acima referido, (o cadeirão incendiando, em alusão à ideia de que essa filosofia de cadeirão está, em muitos casos, com os dias contados) tem provocado reacções polarizadas e completamente afastadas do debate filosófico mais importante. Isso tem, para alguns, desviado o debate para questões absolutamente inúteis e que provocam muita incompreensão acerca de x-phi. Porém, o debate central permanece, em princípio, imune a essa distorção. Têm sido publicados artigos, respostas, críticas e experimentos sem estarem contaminados por essa discussão extra/não-filosófica. Isso tudo acontece principalmente nos Estados Unidos, onde se baseia grande parte do conjunto de filósofos experimentais que tem realizado experiências e publicado artigos sob a denominação de filosofia experimental.

É importante ressaltar que em nenhuma das três referência centrais da x-phi: (1) o x-phi-blog, (2) a Experimental Philosophy Society (XPS), e o livro Experimental Philosophy (Knobe e Nichols), há alguma referência a cadeirões incendiados, ou coisas desse género. Não é uma marca através da qual os filósofos experimentais querem conquistar terreno dentro da filosofia. Essas coisas surgiram espontaneamente e não fazem parte, ao que parece, de uma política deliberada de combate filosófico. Mesmo porque esse seria um enorme erro estratégico.

O x-phi blog, por exemplo, é uma excelente fonte de informação e é, principalmente, um grande fórum de debate acerca da x-phi. Em 2009 foi criada a “Experimental Philosophy Society”, que tem em seu comité executivo investigadores, por exemplo, como: Stephen Stich (filosofia e ciência cognitiva: Rutgers), Shaun Nichols (filosofia: Arizona), Joshua Knobe (filosofia e ciência cognitiva: Yale), Joshua Greene (psicologia: Harvard), Jonathan Weinberg (ciência cognitiva: Indiana). Em 2008 foi publicado o primeiro livro dedicado à X-Phi, com o título “Experimental Philosophy”, editado pelos filósofos Joshua Knobe e Shaun Nichols. Muitos artigos têm sido publicados sob a denominação X-Phi nos últimos 10 anos, mas só em 2008 foi publicado esse livro dedicado exclusivamente à explicação do que é a X-Phi, através de um “Manifesto” e de exemplos de investigações/ experimentos levados a cabo por filósofos experimentais, como: Stephen Stich, Edouard Machery, Shaun Nichols, Joshua Knobe, Jesse Prinz, entre outros.

A ligação entre a filosofia e a ciência cognitiva está na base desse movimento. Um dos representantes/fundadores desse movimento é o filósofo Stephen Stich que tem uma história vasta de investigações na filosofia e na ciência cognitiva. Muitos filósofos experimentais têm ligações teóricas e experimentais directas com outras áreas e com outros investigadores como, por exemplo, com a psicologia, com a antropologia, com a neurociência, etc. Essas ligações serão exemplificadas em posts futuros.

4 comentários

  1. Olá. Ótima a proposta do blog. Mas li a postagem atrás da desmistificação, e só encontrei relatos anedóticos. Indo direto ao ponto: qual a proposta da filosofia experimental? (Talvez a resposta esteja em outra postagem – se for isso, desculpe minha precipitação, pois acabei de chegar, e cliquei direto no título que parecia mais introdutório.)

    1. César, obrigado!

      Sobre a proposta da x-phi, sugiro que veja a página do blog intitulada “o que é a x-phi” (lá você vai encontrar uma resposta muito superficial) e que leia os três artigos traduzidos no blog (ver “traduções”) – desses, o “Manifesto” é o mais completo. Não há, ainda, nenhum texto da x-phi que possa ser considerado o texto “definidor”, mas acho que o Manifesto é um texto útil. Eu espero poder discutir sobre isso aqui no blog. Fico à espera da sua reacção aos textos. Abraço.

  2. Olá, venho parabenizá-los pela iniciativa de difundirem a proposta da “filosofia experiemtal”. Sou mestranda em filosofia e muitas vezes me questionei sobre o abismo que há entre a filosofia e as demais ciências, penso que estamos no caminho de uma nova virada intelectual.

    1. Debora, obrigado! Espero que possa participar nos debates promovidos nesse blog.

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