Pergunta X: Filosofia Experimental x Filosofia Analítica do séc XX (?)

Há alguma diferença entre a Filosofia Experimental e a Filosofia chamada “de Cadeirão” (filosofia analítica do século XX)? Se há, qual é a principal diferença? Se não há, qual é o erro dos filósofos experimentais ao defenderem que a x-phi é substancialmente diferente da filosofia analítica do séc. XX?

Nesse blog os comentários são centrais. Por isso, criamos uma secção chamada “Perguntas X” para debater questões centrais da x-phi. (o nome da secção é um pouco óbvio e provavelmente pouco criativo, por isso, aqueles que quiserem sugerir nomes, por favor, fiquem à vontade…..)

Começamos essa secção com uma pergunta aparentemente simples e ingênua, mas que é essencial para o desenvolvimento da x-phi.

38 comentários

  1. Rodrigo Cid · · Responder

    Não sei se compreendi perfeitamente o funcionamento da filosofia experimental, mas comparada à filosofia analítica atual, creio que ela difere no objeto de estudo: enquanto a filosofia analítica preocupa-se apenas com problemas filosóficos, parece que a filosofia experimental preocupa-se primeiro com algumas experiências psicológicas para depois, então, passar aos problemas filosóficos. Quando a filosofia experimental passa a tratar de problemas filosóficos, então não vejo diferença entre ela e a filosofia analítica, a não ser o fato de a filosofia experimental ter dados mais concretos para afirmar coisas sobre as nossas intuições. Mas creio que as experiências psicológicas não sejam do campo da filosofia. Creio que a filosofia experimental, em sua parte experimental e quando retira conclusões abstratas sobre os processos internos a partir de seus resultados experimentais, é psicologia; e quando utiliza tais conclusões em argumentos que intentam responder problemas filosóficos, é filosofia analítica.

    Joshua Knobe & Shaun Nichols no Manifesto da Filosofia Experimental dizem: “O que realmente queremos saber é o porquê das pessoas terem as intuições que têm.”

    Isso parece uma pergunta que só poderá ser respondida pela psicologia. Pois é uma pergunta sobre os processos causais que formam as intuições.

  2. Existe unha cuestión previa antes de defender a filosofía analítica ou a experimental: ¿que é a filosofía?

    A filosofía analítica acerta cando opta por métodos rigurosos frente a filosofía continental (hermeneutica, fenomenoloxía, estructuralismo, etc.), pero falla completamente cando se restrinxe á disolución dos problemas filosóficas a través do análise conceptual.

    A filosofía experimental pretende incorporar acertadamente o experimento para validar opinións acerca do que opina a xente, pero falla dado que ese aspecto é so algo periférico á filosofía.

    Se qeremos que a filosofía sexa unha ciencia, ¿por qué non tratala como tal? Chamemoslle filosofía científica e actuemos como en calquera outra ciencia.

    Podedes ler máis sobre este enfoque en

    http://filosofia-cientifica.blogspot.com/

    Un cordial saúdo,
    Luis Ledo.

  3. Rodrigo Cid · · Responder

    Creio que não devemos caracterizar a filosofia analítica apenas em termo de análise conceitual e de dissolução de problemas filosóficos. Mas penso, realmente, que devemos começar com uma pergunta mais fundamental “o que é filosofia?” ou “o que é a filosofia analítica?”. Devemos todos concordar que a filosofia analítica possui métodos rigorosos para o “teste” dos argumentos, geralmente possui clareza de discurso, e trata intimamente de problemas filosóficos, de problemas metafísicos sobre a natureza da realidade, como de problemas linguístico-filosóficos sobre aplicações (e critérios) de conceitos. Mas o que seriam problemas filosóficos? Respondo que são problemas que só podem ser resolvidos por meio da argumentação. Daí, eu falaria que a filosofia é a tentativa de responder argumentativamente problemas que só podem ser resolvidos argumentativamente. Não tenho agora em mente bons argumentos a favor dessa definição, a não ser a indução histórica de que a grande maioria dos filósofos da história da filosofia – da antiguidade à contemporaniedade – faziam isso quando estavam fazendo filosofia. Atualmente, é isso que os filósofos analíticos fazem: tentam responder argumentativamente problemas filosóficos. No entanto, saber qual é o processo interno por trás da expressão de uma intuição, embora seja um problema que tem como ser resolvido por meio de argumentação (mostrando possibilidades e impossibilidades da relação entre expressão da intuição e processo interno), ele pode também ser resolvido por experiências e generalizações. Então, não é o caso que tal problema só possa ser resolvido por argumentação; o pode também por experiência; e a ciência que trata de experimentos e generalizações com relação a comportamentos (a expressão da intuição, por exemplo) e processos internos é a psicologia. Mas a filosofia experimental trata tanto dessas generalizações a partir de experimentos, quanto depois usa tais generalizações para tratar problemas filosóficos. Usar as generalizações para tratar problemas filosóficos não é algo que tornaria a filosofia menos filosofia. Muitos autores de diversas áreas da filosofia analítica tomam como certas muitas descobertas científicas (como Kripke com o “água é H2O” ou como Frege com o “Vésper é Fósforo”). A filosofia analítica já é científica nesse sentido; mas ser científica no sentido de generalizar coisas sobre os processos internos geradores das expressões de intuições a partir de experimentos e fazer tais experimentos, isso a psicologia já é científica nesse sentido. A filosofia experimental, como já disse, parece-me um ramo da psicologia ainda se descolando da filosofia, ou uma ciência que mistura psicologia e filosofia (mas que não é filosofia da psicologia).

    Então vejo diferença entre filosofia analítica contemporânea e parte da filosofia experimental – a parte que eu creio ser psicologia. Entretanto, sobre a parte filosófica da filosofia experimental, não vejo diferenças.

  4. Non comparto a definición de que o obxecto de estudio da filosofía sexan os problemas que so poden ser resoltos argumentativamente. A argumentación é utilizada por tódalas ciencias e non so pola filosofía.

    Se tomamos o método hipotético-deductivo como paradigma do método científico, podemos ver que a filosofía cabe perfectamente dentro de el.

    a) A observación do problema, da que parten as demáis ciencias, tamén é o punto de partida da filosofía. Da igual o problema filosófico do que se trate: a linguaxe, a mente, a ontoloxía, etc., todo filósofo empeza por observar cales son os datos do problema, da realidade que pretende explicar.

    b) A construcción da hipótese tamén é común á filosofía coas demáis ciencias. É o segundo paso do método hipotético-deductivo.

    c) A deducción das consecuencias da hipótese tamén é común. Despois de construir unha hipótese de traballo, compróbase que non sexa contradictoria: nin internamente nin con outras teorías aceptadas. Dedúcense tamén as consecuencias observables da hipótese para utilizalas no seguinte punto.

    d) A contrastación das consecuencias observables da hipótese de traballo con observacións novas leva á falsación ou á superación da proba.

    ¿Que é o que se fai co método hipotético-deductivo tanto na filosofía como nas demáis ciencias? Construese unha hipótese que sirve de modelo da realidade que se pretende explicar. Por un lado temos a realidade e polo outra un modelo que pretendemos sexa todo o isomórfico que sexa posible coa realidade.

    Da o mesmo se se trata de ontoloxía, de lóxica, de epistemoloxía ou de ética: o que se busca é construir un modelo que represente e explique unha realidade concreta, sexa esta de tipo máis material ou máis abstracta.

    Se a metodoloxía da filosofía é o método científico, ¿cal é o seu obxecto de estudio, o que a fai diferente as outras ciencias? O obxecto de estudio da filosofía é a realidade como un todo e o lugar que ocupa o ser humano nela. Construe un modelo da realidade na que se fixan uns puntos cardinais de orientación. Podedes ler unha explicación máis detallada en

    http://filosofia-cientifica.blogspot.com/

    Un cordial saúdo,
    Luis Ledo.

  5. Rodrigo Cid · · Responder

    O problema, Luís, é que a caracterização da filosofia da forma como você a fez, ela parece não ser diferente de uma reunião de outras ciências. Não conseguimos saber do que trata a filosofia ao pensarmos que ela é uma disciplina que estuda a realidade como um todo e o lugar que o ser humano ocupa nela dentro do método hipotético-dedutivo. Por exemplo, quando os economistas se perguntam qual concepção de igualdade (entre pessoas) a ciência econômica deve seguir para conseguir apreender a desigualdade, isso não é uma discussão sobre a realidade como um todo e nem sobre o lugar do ser humano na realidade, embora seja uma discussão filosófica, de filosofia da economia. Mas por que esse é um assunto da filosofia da economia, e não da economia? Porque se dermos uma reposta para qual deve ser a noção de igualdade, só poderemos defendê-la por meio de argumentos.

    A concepção de filosofia que estou indicando não nega as ciências; e, na verdade, participa ativamente do processo científico. Ela permeia todas as ciências e trata de seus problemas que não podem ser resolvidos pelos seus métodos rotineiros. Por exemplo, se temos duas interpretações divergentes dos experimentos quânticos (uma determinista e outra indeterminista), como poderemos fazer, com os mesmos métodos usados pelas ciências, para decidir entre as duas. É justamente por não conseguirmos responder tal questão por meio do método científico (que é utilizado pela física, pela química, pela biologia etc), ou “de algum método científico” se você preferir, que passamos à filosofia da física. Só por meio da argumentação, e não por nenhum método científico (não filosófico), que consiguiremos responder qual interpretação devemos aceitar para os fenômenos quânticos.

    Há uma diferença entre problemas que só podem ser resolvidos pela argumentação e problemas que podem ser resolvidos pela argumentação e por observação-teoria-experimento-confirmação. Por exemplo, em psicologia (aliada à neurociência), há problemas como “como tratar um assassino serial?”. Podemos tentar resolvê-lo por meio apenas de argumentação, falando como supor certos tipos de caráter é inconsistente com supor certos sistemas de tratamento, mas isso nos daria parcos resultados. Entretanto, esse problema também pode ser resolvido por meio de observação-teoria-experimento-confirmação, com resultados muito melhores [a questão dos resultados melhores ou piores não está com peso aqui; só estou falando disso como um adendo]. Se a psicologia pode resolver isso com seus métodos, por mais que isso também possa ser resolvido por argumentação, isso não será filosofia.

    Mas se fosse o caso de estarmos nos perguntando algo como “a mente é distinta do corpo?”; isso não poderá ser algo que a psicologia poderá resolver, pois é algo que só pode ser resolvido por argumentação; isso será resolvido pela filosofia da mente.

    Posso compartilhar da sua visão de que a filosofia segue o método hipotético-dedutivo, mas não há experimentos possíveis que comprovem as respostas para os problemas filosóficos (embora utilizemos o que observamos para construir nossas teorias); pois esses são justamente os problemas que só podem ser resolvidos por argumentação.

    Tente pensar num problema filosófico. Agora tente pensar num experimento possível para comprovar uma resposta a tal problema. Não parece haver alguma. E se houver, então parece que não faz sentido continuar mantendo tal problema como um problema filosófico; é melhor que ele seja um problema de alguma ciência.

  6. Podemos distinguir no traballo filosófico dúas areas ben diferenciadas: 1) unha area descriptiva e 2) unha area prescriptiva.

    A primeira presenta como son as cousas. Non importa ó ambito de estudio, sexa este a ontoloxía, a linguaxe, a lóxica, a epistemoloxía, etc., sempre é parte do traballo do filósofo construir unha teoría que describa como é ese ámbito. Neste caso parece moi aceptable que se utilice o método científico dado que a finalidade é a mesma que no resto das ciencias: construir un modelo que represente e explique o problema tratado.

    A segunda area, a prescriptiva, é máis problemática e cubre principalmente a ética e a política en canto pretende decir como debemos actuar. Podemos utilizar o concepto de xustiza para entendelo. Nunha interpretación clásica a xustiza responde á concepción argumentativa da filosofía tendo en conta que pretende prescribir como debemos actuar. Sen embargo, cabe unha interpretación descriptiva do que é a xustiza. Podemos entender un reparto xusto como aquel que lle da a cada un en función do que fixo para lograr o que se reparte. Este é un enfoque descriptivo e non prescriptivo da xustiza: di o que é un reparto xusto. Se se fixo un traballo que deu beneficios, non sería racional darlle parte dos beneficios a alguén que non fixo nada ou darlle menos a quen participou máis.
    Pero nesta consideración descriptiva dos conceptos considerados tradicionalmente como prescriptivos, podese utilizar de novo o método científico para construir un modelo correcto do problema.

    Non estou de acordo en que a cuestión de se a mente é parte do corpo sexa argumentativa e non científica. O primeiro que hai que saber é que significan os conceptos utilizados para pasar a realizar algún experimento que responda á pregunta plantexada. Por exemplo, se a mente non é parte do corpo, poderían existir espíritus sen corpo, cousa que, de observarse, sería unha boa proba dado que a concepción contraria, a que defende que a mente é parte do corpo, non acepta mentes sen corpo.

    Se o experimento non é posible, entón o que sucede non é que a filosofía non sexa unha ciencia, senón que poden pasar dúas cousas: 1) que o experimento non sexa ainda posible, co que o método hipotético-deductivo queda parado á espera de que sexa posible dalgún xeito ou 2) que o experimento non é posible nin vai selo nunca, polo que debe descartarse a hipótese nun sentido parecido ó que facía o positivismo lóxico. Para decilo con palabras modernas: o que non é falsable non ten sentido ou é inutil porque non aporta coñecemento.
    A mente é algo corporal ou non, e ambas posicións teñen consecuencias prácticas observables. Se non hai consecuencias prácticas observables, a distinción entre ambas concepcións é completamente inútil.

    Penso que o centro deste debate reside en concretar claramente cal é o obxecto de estudio da filosofía. Decir que trata problemas que so se poden resolver de forma argumentativa resulta problemático porque a argumentación é algo instrumental, pero non fixa un obxecto de estudio. Desde o meu punto de vista, o obxecto de estudio da filosofía é a realidade como un todo para construir un modelo que sirva de marco de referencia global. Resulta importante para a filosofía saber que o ser humano é o resultado da evolución e non creación dun deus, ainda que os mecanismos concretos da evolución non lle interesan, deixándoos para a bioloxía. Resulta importante para a filosofía saber que a naturaleza funciona por causas e consecuencias, ainda que cales son esas causas concretas é algo que deixa para a física.
    Un exemplo claro é o da ontoloxía, que pretende construir un modelo que represente que tipo de obxectos existen, aínda que o estudio de cada tipo o deixa para as ciencias concretas correspondientes. Espacio, tempo, materia, forzas, números, conceptos, pensamentos, etc. teñen cada un unha ciencia para estudialos; pero todos eles importan para construir unha teoría ontolóxica da realidade como un todo tratada de forma xeral e abstracta.

    Un cordial saúdo,
    Luis Ledo.

  7. Rodrigo e Luis,
    A filosofia experimental continua a ser filosofia mesmo quando utiliza os métodos experimentais/quantitativos. O J.Knobe no artigo “…Side Effects..” utiliza uma metodologia chamada “experiência simples” que é utilizada na medicina, na bioquímica, na psicologia e agora na filosofia. Quando um psicólogo utiliza esse método não deixa de ser psicólogo só porque utiliza um método que é mais usual na distinção que se faz entre o efeito placebo (grupo de controle) e o efeito esperado (grupo experimental) em pesquisas laboratoriais (farmácia-bioquímica). Da mesma forma, o filósofo continua a ser filósofo quando utiliza esse método. Isso ocorre porque o problema, a abordagem, a análise e o debate são, em grande parte, fruto do trabalho filosófico. Quando o Josh fez a experiência e escreveu o artigo, tinha, certamente, em mente as abordagens filosófica e psicológica ao tema. O problema é que a psicologia e a filosofia, em algumas áreas, estão tão próximas (com limites quase inexistentes), que o filósofo pode dar a impressão de que não se está a fazer filosofia.

    Uma maneira simples (fraca) de ver o papel da filosofia experimental é pensar no aspecto central da filosofia, o “argumento”.

    Um argumento pode ser visto como uma sequência de proposições (premissas e conclusão)- frases que têm valor de verdade. Um argumento será bom se for válido e se tiver premissas verdadeiras. Para produzir um bom argumento, o filósofo terá que encontrar/produzir boas justificativas (justificações) que nos levem a aceitar, de alguma forma, a verdade das premissas. Se as aceitarmos e se o argumento for válido, a conclusão será logicamente verdadeira.

    Acho que a filosofia experimental pode auxiliar o pesquisador a produzir as tais justificações de maneira mais promissora, pois muitas vezes essas justificações contém fortes apelos às intuições sobre as intuições das pessoas comuns – sem que ninguém se pergunte acerca da formação dessas crenças. Acho que só isso já seria suficiente para dar à filosofia experimental algum crédito. No entanto, há muitas outras posições acerca disso e espero poder tratar dessas outras possibilidades com vocês, ao longo do tempo.

  8. Rodrigo Cid · · Responder

    Luis,

    Você falou que a filosofia possui duas áreas, uma prescritiva e uma descritiva. E falou também que na parte descritiva, devíamos também utilizar os métodos científicos. Que método poderíamos usar para confirmar ou refutar a tese de que a lei da causalidade só se mantém num sistema determinístico? Que experiência científico poderíamos fazer para descobrirmos se os juízos morais podem ser verdadeiros ou falsos? E ainda: qual experimento nos daria a resposta de se existem ou não existem números, e qual sua natureza, se existirem?

    O que me parece é que tanto as áreas descritivas, quanto as áreas prescritivas, formulam teorias, e essas teorias deixam de ser simples opiniões e passam a ser de fato teorias filosóficas quando tentam se sustentar com argumentos. Se eu apenas descrevo ou prescrevo algo, sem nenhuma argumentação que sustente a minha descrição ou prescrição, isso não é filosofia; é apenas a expressão de alguma opinião, percepção ou avaliação de algo. É por isso que defendo que uma característica essencial da filosofia é ela argumentativamente tentar resolver problemas filosóficos (tais como defini).

    Reparamos, dentro da filosofia, que pelo menos até agora não conseguimos criar experimentos para confirmar ou refutar teses filosóficas. E acredito que não conseguiremos criar tais experimentos, pois penso que tais experimentos sejam impossíveis. E penso assim porque dada a natureza do que é ser um experimento, não há como ele prover respostas para as questões filosóficas. A natureza do experimento é tal que pode nos fornecer pesquisas de opinião, dados mensuráveis de ocorrências, proposições de observação, efeitos de exposições a certos objetos ou substâncias, e coisas semelhantes. O que um experimento pode nos fornecer não é suficiente para responder um problema filosófico; ele serve apenas para se inserir como alguma premissa de um argumento filosófico.

    O resultado de um experimento científico confiável ser usado num argumento filosófico, como premissa, não é um problema tão grande, quanto querer que o experimento confirme ou refute uma tese filosófica. Esta é a minha principal objeção. Podemos aceitar que a filosofia segue o método hipotético-dedutivo (embora eu não esteja certo disso), mas temos que fazer a ressalva de que o que refuta ou confirma uma tese filosófica são os argumentos, e não nenhum experimento.

    Assim, se descobrimos que nenhum experimento nunca poderá confirmar ou refutar uma tese filosófica, não é o caso que temos que descartá-lo – como o queria o positivismo lógico – pois nenhum problema filosófico pode ser resolvido por meio de experimento [você consegue exemplificar um?], dado que a natureza de um experimento não o permite confirmar ou refutar teses filosóficas. [Se o ponto é se as cores são atributos primários ou secundários… Só se confirma ou refuta tal hipótese com muito argumento – que podem até ter premissas científicas dentro – e não com nenhum experimento]

    Mas do fato de que não são possíveis experimentos para as hipóteses filosóficas, não se segue que não é possível falsear os argumentos e as teses em filosofia. Pois a argumentação bem feita é capaz de falsear um argumento e mostrar que uma tese, se sustentar naquele argumento, não se sustenta. Assim, tal como as hipótese científicas, as teses filosóficas estão sempre abertas a serem refutadas; portanto, são falsificáveis. Argumentos que não são falsificáveis ocorrem geralmente por causa de manobras ad hoc numa teoria filosófica, como dizer que na verdade a lua é uma perfeita esfera e nós vemos buracos porque não somos capazes de enxergar a substância invisível que recobre tais buracos. Isso não é falsificável. Mas argumentos como “toda coisa tem uma causa; logo há uma causa para todas as coisas” são falsificáveis. E o são porque argumentativamente podemos mostrar que a conclusão não se segue da premissa.

    As teses ou hipóteses filosóficas são falsificadas por argumentos. A falsificação é possível de muitas maneiras, e não apenas por meio de experimentos empíricos. E, de certo, a tese de que as teorias são inúteis se não forem falsificáveis por experimentos não pode ela mesma ser falsificada por experimentos.

    Você disse: “Resulta importante para a filosofía saber que o ser humano é o resultado da evolución e non creación dun deus, ainda que os mecanismos concretos da evolución non lle interesan, deixándoos para a bioloxía. Resulta importante para a filosofía saber que a naturaleza funciona por causas e consecuencias, ainda que cales son esas causas concretas é algo que deixa para a física.”

    Que experimentos poderíamos fazer para saber se há ou não deus (ou ainda: para saber se a evolução é causada por algum deus) ou para saber se há causas para qualquer ocorrência?

    Se não houver consequências comportamentais para a mente ser o cérebro nem para a mente ser algo distinto do cérebro, isso não significa que nossa discussão é inútil nem que o nosso problema é ilsório e nem que ele não é falsificável. Podemos falsificar uma dessas teses ao mostrar que todos os argumentos possíveis por ela estarão sempre equivocados.

    O objeto de estudo é fixado ao dizermos que o objeto de estudo da filosofia são os problemas que só podem ser tratados argumentativamente, pois dizemos que tal objeto são os problemas. Todo problema para o qual vemos que a natureza de um experimento possível não será capaz de respondê-lo, esse será um problema filosófico. É claro que isso deixa aberto os sub-tipos (dentro do tipo “argumentativo”) que se inserirão dentro do domínio da filosofia. Mas creio que isso não seja algo de ruim para a filosofia, mas algo de engrandecedor, pois assim a filosofia perpassaria – como já o faz – todas as ciências, além de continuar com seus problemas específicos. Eu nunca diria que a filosofia não é uma ciência; é claro que ela é: ela possui rigor, técnicas, especialistas, problemas (isso é só para citar; não pretendo que essas tenham que ser condições necessárias ou suficientes para uma ciência, embora talvez o possam ser). Mas tanto quanto as ciências não possuem todas 1 método em comum de investigação científica (dado que as observações e experimentos são diferentes), não há motivo para querermos que a filosofia utilize experimentos (se entendidos como algo diferente da argumentação) para que seja considerada uma ciência.

    Colocar o experimento dentro da filosofia, como me parece fazer a filosofia experimental, é também algo engrandecedor para a filosofia. Mas parece-me que é engrandecedor ao mesmo tempo que “furta” uma área de outra ciência, a saber, a psicologia. É uma tarefa da psicologia saber quais são os processos internos que fazem as pessoas se comportarem e pensarem da forma que o fazem. Os psicólogos deveriam estar fazendo tais experimentos, enquanto nós devíamos apenas estar os utilizando para falar das intuições.

    Eu admito que pode parecer um pouco arbitrário dizer que essa deve ser tarefa da psicologia, e não da filosofia. Mas por que uma disciplina que o que falsifica ou confirma suas teses são os argumentos deveria se preocupar com fazer experimentos? É claro que a biologia usará proposições advindas da química em suas teorias (ou pelo menos tais proposições serão pressupostas), mas isso não significa que a biologia deva fazer experimentos químicos.

    Mas, voltando ao tópico postado, dado que eu acredito que em certos casos a filosofia pode se utilizar de conhecimentos advindos de experimentos para manter a verdade de algumas premissas asseridas por suas teses, e creio que você também acredite, você vê diferenças entre a filosofia experimental e a filosofia analítica tal como é hoje em dia?

    Minha resposta a isso – só para relembrar – é que parte da filosofia experimental é filosofia analítica, e outra parte advém de uma apropriação de um domínio da psicologia. Penso isso porque querer saber quais são os processos internos que promovem as intuições das pessoas é um campo psicológico. Assim, penso que se a filosofia experimental for definidas nesses termos, parecerá que ela se apropria indevidamente de um campo da psicologia. O que você pensa sobre isso?

  9. Rodrigo Cid · · Responder

    Carlos Mauro,

    O meu problema não é apenas com o método do experimento simples. Concordo com você que um psicólogo não deixa de ser médico por utilizar um procedimento usado rotineiramente por médicos. O que faz dele um psicólogo é a tese que ele quer confirmar, refutar, ou descobrir através do experimento. Se ele quer saber algo, por meio do experimento, para saber como um certo químico reage a outro, então ele é um químico (ou um farmacêutico); se ele quer saber como o organismo humano reage a certos medicamentos, ele é um médico; mas se ele quer saber das causas internas dos comportamentos, então ele é um psicólogo. E isso é assim, ainda que os três utilizem o mesmo método com grupos teste e controle. O que importa é a finalidade com qual é feita o experimento; o que importa é o tipo de tese que está por trás do experimento. O que me parece é que as teses da filosofia experimental são de fato teses psicológicas. Saber se costumamos reagir de uma forma ou de outra frente a certas situações parece ser um problema psicológico ou estatístico apenas, e não filosófico. Mas como a filosofia experimental estaria tratando de intuições, seus experimentos, por mais que psicológicos, teriam muita serventia na filosofia, já que a filosofia utiliza bastante as intuições das pessoas para argumentar a favor ou contra teses filosóficas.

    Você disse: “Para produzir um bom argumento, o filósofo terá que encontrar/produzir boas justificativas (justificações) que nos levem a aceitar, de alguma forma, a verdade das premissas. Se as aceitarmos e se o argumento for válido, a conclusão será logicamente verdadeira.”

    Isso é verdade. Por exemplo, uma proposição que Kripke utiliza bastante é a de que “a água é H2O”. A verdade dessa premissa depende de experimentos químicos. E a justificação dessa proposição é que a química diz isso e que os experimentos da química que comprovam isso são confiáveis. Mas, repara, embora tenhamos uma premissa dada por experimento, não precisamos fazer experimentos. O mesmo poderíamos falar para uma proposição tal qual “as intuições das pessoas são de 78% para X e 22% para não-X” ou “as pessoas tendem mais a X quando estão sob situação Z”. Poderíamos falar que aceitamos a verdade de tais proposições porque a psicologia disse isso e porque ela fez tais experimentos com métodos confiáveis. Mas por que deveríamos dizer que tais experimentos são da área da filosofia?

    Você disse: “Acho que a filosofia experimental pode auxiliar o pesquisador a produzir as tais justificações de maneira mais promissora, pois muitas vezes essas justificações contém fortes apelos às intuições sobre as intuições das pessoas comuns – sem que ninguém se pergunte acerca da formação dessas crenças. Acho que só isso já seria suficiente para dar à filosofia experimental algum crédito.”

    Eu concordo com você inteiramente. A filosofia experimental ajuda o filósofo a ter justificações para dizer que as intuições das pessoas são assim e assado. E ela merece muito crédito, porque pela primeira vez teremos as intuições das pessoas quantificadas. Eu acredito que a filosofia experimental é muito digna de crédito; ela só não me parece filosofia.

    Como as crenças das pessoas se formam? Isso não lhe parece uma pergunta que um psicólogo deveria responder? Eu concordo que um filósofo pode tentar responder uma tal questão, mas os métodos filosóficos só nos permitiriam falar de possibilidades e impossibilidades entre ter uma certa crença e ela ter sido formada de um certo modo. Por exemplo, podemos especular filosoficamente se os objetos de tamanho médio devem ou não ser formados de partes menores; mas se passamos a fazer experimentos para saber se eles são de fato compostos por partículas menores não estamos mais a fazer filosofia: simplesmente tornamo-nos físicos.

    Citar experimentos, falar sobre os métodos utilizados nos experimentos, falar da inconsistência lógica de certas interpretações de experimentos são coisas possíveis de serem feitas pela filosofia sem que ela deixe de ser filosofia. Mas fazer os experimentos não é algo que a filosofia possa fazer sem deixar de ser ela mesma (ou seja, sem se tornar outra ciência). Mas mesmo que ela se torne outra ciência, isso não tirará seu crédito, se o método do experimento tiver crédito.

  10. Rodrigo,
    Não me parece que os experimentos da x-phi são realizados para medir as reações das pessoas a determinados estímulos de maneira tão simples. Quando se tenta descobrir quais são os conceitos populares (folk concepts) não se procura medir a reação das pessoas e sim descobrir qual o uso que fazem de um conceito na linguagem ordinária. Isso me parece claramente uma questão filosófica. Não será assim, apenas, se aceitarmos que o uso comum dos conceitos não é algo com que o filósofo deve se preocupar. Isso me parece suspeito, pois, afinal, de qual uso da linguagem estamos falando quando apelamos às intuições, sejam as dos filósofos, sejam as das pessoas comuns? Além disso, será que a Filosofia pode dar-se ao luxo de dizer que as intuições/conceitos comuns não têm importância na pesquisa filosófica?

    A distância entre a filosofia e a folk psychology (como teoria) é realmente muito tênue. Veja o caso das explicações da ação que em ambos os casos lidam com crenças, desejos, intenções. Não me parece que para o desenvolvimento da filosofia essa separação seja imprescindível/ necessária, nem produtiva.

    No caso do “side-effects” do Joshua Knobe, por exemplo, o problema parece-me claramente filosófico, ligado à filosofia moral. É preciso lembrar que essa área há muito tempo tem ligações diretas e “íntimas” com a psicologia moral. Muitos dos pesquisadores (americanos e ingleses) da filosofia moral, ligados aos departamentos/institutos de filosofia, realizam pesquisas em psicologia moral também.

    Quando, no post anterior, eu falava das crenças, referia-me às crenças dos filósofos acerca das intuições das pessoas comuns e não de “como as crenças das pessoas comuns se formam”. Acho importante que a investigação filosófica leve em consideração a fonte das crenças dos filósofos, como faz a ciência. O filósofo não pode ser um tipo de pesquisador que não precisa lidar/justificar as suas próprias crenças (tb a formação das suas crenças)…..isso nos levaria, no limite, a uma filosofia literária absolutamente desinteressante do ponto de vista das respostas que pode dar aos problemas mais gerais que a filosofia experimental procura colocar alguma luz. Não digo que seria má filosofia, apenas seria uma filosofia com objetivos e resultados diferentes daqueles esperados por uma parte importante dos filósofos. Não concordo, por outro lado, que a formação das crenças seja do âmbito estrito da psicologia. Na filosofia da ação e mesmo na epistemologia a formação das crenças é um tema central, não só como algo que deve se levar em conta, mas também como um tema a ser investigado. Bem, sobre isso podemos ir conversando…

    Por fim, gostaria que você explicasse melhor a seguinte afirmação: “Citar experimentos, falar sobre os métodos utilizados nos experimentos, falar da inconsistência lógica de certas interpretações de experimentos são coisas possíveis de serem feitas pela filosofia sem que ela deixe de ser filosofia. Mas fazer os experimentos não é algo que a filosofia possa fazer sem deixar de ser ela mesma (ou seja, sem se tornar outra ciência) ”.

    Não consigo perceber porque no instante em que um filósofo faz um experimento deixa de fazer filosofia…..isso é algum tipo de cartilha a ser seguida sem muitos argumentos, como parece ser o caso de muitos filósofos de cadeirão, ou é algo mais profundo e que merece ser discutido, como acho que é o seu caso? É só por isso que vou por esse caminho…

    Queria perceber o fator psicológico e sociológico que a palavra “experimental” e outras como “estatística” têm sobre os filósofos (será essa uma pergunta psicológica, ou filosófica?). Parece-me (essa é uma intuição de cadeirão) que muitos filósofos desconhecem o papel dos experimentos e da estatística na própria ciência e, por isso, acham que a filosofia deveria afastar-se “dessas coisas” – como se os experimentos e a estatística dessem “respostas definitivas”…

    Uma coisa importante, esses dois últimos parágrafos não estão endereçados a você, Rodrigo. É que as suas afirmações, que são pertinentes, podem ser lidas por muitos de forma ingênua e podem, de alguma forma, corroborar idéias com as quais você, nem de longe, concorda. É por isso que faço esse esforço para clarificar aquilo que você disse.

  11. Á guisa do pergunta inicial, acerca das perguntas sobra a diferença entre filosofia analítica e filosofia experimental: existe um problema central à filosofia analítica? É este um problema estritamente filosófico? Qual é o problema central da filosofia experimental? è este um problema filosófico?
    Bem, pode-se dizer que a filosofia analítica tenha um problema central, do qual partem os demais problemas. Este problema pode ser resumido pela pergunta “O que é o significado?”. Deste problema surgiram as diferenciações entre sentido e referência de um termo, entre extensão e intensão, linguagem e meta-linguagem, surgindo também a tese da complementaridade, a de que a estrutura proposicional deve ser entendida como uma estrutura funcional, etc. Parece que tão somente a gramática não daria conta de toda esta problemática, e nem mesmo tão somente a lógica. É claro que os filósofos analíticos inseriram fortemente tanto a gramática como a lógica na sua argumentação. Mas a própria argumentação era filosófica.
    Mas o que isso quer dizer? Digamos que as leis da lógica sejam válidas para toda e qualquer ciência,como também para a filosofia e para o conhecimento ordinário. Então, dizer que a filosofia analítica é como uma ciência por seguir as leis da lógica, é inválido. Acontece que as ciências seguem outras tantas leis além das leis lógicas. E estas leis científicas, leis naturais, são a axiomática da ciência. Quando a filosofia analítica pergunta pelo significado, ela possui tal axiomática? Não, claramente não possui, ela conta tão somente com as leis lógicas, e não com leis naturais (no seu ‘corpus’ teórico).
    O que acontece com uma filosofia que incorpora leis naturais e métodos empíricos? Bom, pelo menos ela claramente não mantém qualquer relação de similaridade com filosofia analítica além de se valer das mesmas leis lógicas.
    Parece que o cerne da discussão aqui está no seguinte: i) pergunta-se pela diferença entre filosofia analítica e filosofia experimental (uma pergunta que já pressupõe a diferença, ou seja, trata-se de um pedido de clarificação); ii)assente-se que a filosofia experimental aceita métodos empíricos de investigação, e não somente argumentativos; iii) isso leva a uma discussão sobre os limites entre filosofia e ciência. De forma talvez surpreendente, a questão presente em iii) é uma questão básica para o restante da discussão.
    Podemos dizer que há, fatualmente, uma distinção de natureza entre filosofia e ciência. Dessa forma, a filosofia será sempre distinta da ciência: elas terão características essenciais que lhes são próprias. Isso não quer dizer que elas não terão algo em comum. As próprias leis lógicas e o método dedutivo é quase uma condição necessária para fazer filosofia ou ciência. Mas quais são as condições, além das necessárias, que são suficientes para haver ciência? E filosofia? E o que se dirá de uma área do conhecimento que assume aspectos propriamente essenciais ou da ciência ou da filosofia, e além disso, assume algo comum entre elas? Qual o problema nisso? Há uma anomalia? Boas chances de se denominar tal área de forma errada (‘isso não é filosofia’, ‘isso não é ciência’).

    Luis Rosa

  12. Luis Ledo · · Responder

    Filosofía: experimentos, argumentos, ciencia

    Non comparto a posición de Luis Rosa cando escribe:

    “Podemos dizer que há, fatualmente, uma distinção de natureza entre filosofia e ciência. Dessa forma, a filosofia será sempre distinta da ciência: elas terão características essenciais que lhes são próprias.”

    1) A concepción científica da filosofía e a concepción argumentativa
    A tese que defendo é que o obxecto de estudio da filosofía e a realidade como un todo e que o seu obxectivo é construír unha cosmovisión do mundo. O método da filosofía é o que sexa o método científico en cada momento. Pódese aceptar que, agora mesmo, o método científico é o método hipotético-deductivo.

    Unha concepción argumentativa da filosofía defendería que o ámbito da filosofía son os problemas que so se poden resolver con argumentos e non con experimentos ou demais ferramentas científicas.

    2) ¿É filosófica calquera problema con tratamento argumentativo?
    Existen problemas que son inherentemente argumentativos, pero non se consideran filosóficos porque son so técnicos e non teñen consecuencias na construción dunha cosmovisión. O importante non é que se traten de forma máis ou menos argumentativa senón se teñen consecuencias ontolóxicas, epistemolóxicas, éticas, etc. A resolución dun problema matemático ten tratamento argumentativo altamente formal como, por exemplo, a demostración dun teorema; pero isto non o convirte en filosófico.

    Polo outro lado, existen cuestións empíricas non argumentativas que sí son inherentemente filosóficas porque pasan a formar parte da cosmovisión polas súas consecuencias ontolóxicas, epistemolóxicas, éticas, etc. O caso da teoría da evolución das especies por selección natural é paradigmática: é un problema científico, pero ten consecuencias filosóficas ó pasar a formar parte da nosa cosmovisión do mundo.

    3) Dous exemplos comparativos
    Pensemos no problema de se a percepción é directa ou é algo construído fenomenicamente, dentro do ámbito da filosofía da mente. Por outro lado pensemos no problema da orixe do universo dentro da física cosmolóxica.
    Parece fora de toda dúbida que o primeiro problema, a pesar de ser completamente filosófico, é algo moito máis científico, con base na neurofisioloxía, e menos especulativo que o segundo, no que resulta imposible realizar experimentos e so cabe recorrer a especulacións e argumentacións con papel e lapis

    4) Método científico, experimentos e argumentación
    O método científico non se reduce ós experimentos. Se aceptamos que o método científico é o método hipotético-deductivo, os experimentos forman parte del, pero non o reducen a so iso. A observación do problema, a construción da hipótese, a dedución das consecuencias da hipótese e a contrastación da hipótese con novas observacións é moito máis que so experimentación. E nestas fases, a argumentación tamén ten o seu lugar. Se os datos observacionais son difíciles de obter, isto aumenta o traballo argumentativo. Pero isto é así tanto nun problema filosófico como nun físico como no exemplo da orixe do universo.

    Se pensamos so en experimentos cando falamos de ciencia, estamos deixando de lado unha visión moito máis completa do que é a ciencia.

    5) Acercando a ciencia á filosofía
    En primeiro lugar, podemos ter en conta que non existen experimentos cruciais. Calquera resultado dun experimento pode ser manexado con hipóteses ad hoc, sexan estas lexítimas ou dexenerativas.

    En segundo lugar, hai que ter en conta tamén que non existen observacións puras dado que calquera observación vai acompañada dunha carga teórica, a da teoría que se utiliza para realizar a medición.

    Tamén cabe recordar a cuestión da subdeterminación da teoría a partir da observación: unha mesma evidencia observacional pode ser recollida en hipóteses alternativas incompatibles.

    Finalmente temos que ter en conta tamén a cuestión do holismo epistémico, que defende que o que se pon a proba nun experimento non é unha hipótese concreta senón todo o conxunto de teorías que participan no experimento, desde a teoría da medición ata a lóxica.

    Todo isto leva a que a ciencia se parece moito máis á filosofía do que se pensa: non existe un chan sólido sobre o cal levantar o edificio do coñecemento científico, senón que a ciencia padece moitos dos problemas que se lle achacan á filosofía.

    6) Contido empírico dos argumentos
    Un argumento consiste nun razoamento correcto que parte de premisas verdadeiras. Podemos distinguir dous tipos: a) se as premisas son empíricas, b) se as premisas son verdades autoevidentes ou tautoloxías.

    Se estamos no primeiro caso, deberíamos aplicar o método científico dado que partimos de contidos empíricos.

    Se estamos no segundo caso, non parece posible que se consiga unha conclusión informativa acerca do mundo partindo de premisas sen contido empírico: so estamos realizando un traballo de aclaración conceptual acerca de que ferramentas formais e conceptuais vamos a utilizar.

    7) O experimento filosófico preso da concepción argumentativa da filosofía
    Se seguimos presos da concepción argumentativa da filosofía, resulta que os experimentos que podemos facer son, case exclusivamente, experimentos psicosociolóxicos acerca das nosas intuicións. Pero isto é moi pouco útil se o que buscamos é a verdade das cousas e non as crencias das persoas sobre as cousas. Cando Einstein elabora a teoría da relatividade, non lle pregunta á xente que cree que é o espazo, o tempo, a simultaneidade, etc. Do mesmo xeito, se un quere construír unha teoría ética non debería preguntarlle á xente se cree que determinada acción é boa ou mala, salvo que o que estea en discusión sexa o que pensan as persoas sobre o tema. O que debe facer é construír unha hipótese que diga por que unha acción é boa ou mala, independentemente do que pense a xente.

    So rompendo coa concepción argumentativo da filosofía, imos poder utilizar todas as vantaxes dos experimentos e do método científico.

    Un cordial saúdo,
    Luis Ledo.

  13. cleuza fiorin · · Responder

    OLá adorei o blog e a discusão realizada, gostaria de saber se posso escrever comentários e o meu ponto de vista sobre o trabalhos escritos.

    1. Cleuza,
      Claro! A “alma” de um blog como esse é constituída, essencialmente, pelo conjunto de comentários/debates que consegue promover. Por isso, por favor, escreva os seus comentários!

  14. Oi, Carlos.

    Eu não consideraria que “qual uso as pessoas fazem dos conceitos?” seja uma questão filosófica, embora por vezes saber como as pessoas utilizam certos conceitos mostra-se importante para respondermos certas questões filosóficas. Então, é claro que o filósofo por vezes irá se preocupar com o uso dos conceitos, mas isso não faz a questão anterior tornar-se filosófica. Da mesma maneira, por vezes mostra-se importante para algumas teses filosóficas – um exemplo seria o essencialismo de Kripke – saber que a água é H2O, mas isso não faria da questão “qual a composição química da água?” uma questão filosófica. Assim, a medição das intuições das pessoas por vezes mostra-se importante na defesa de uma tese filosófica, mas isso não faz de “quais as intuições das pessoas sobre x?” uma questão filosófica.

    Você, então, poderia querer me dizer que as questões importantes da x-phi não são apenas questões de medições de intuições, mas que são questões sobre como esses processos intuitivos são influenciados (por exemplo: as intuições sobre intencionalidade são influenciadas por juízos morais). Mas isso ainda não parece um problema filosófico. E não é um problema filosófico, pois não é um problema que pode apenas ser resolvido por argumentação. Nenhum filósofo, apenas com as técnicas que aprende na universidade ou observando outros filósofos, conseguirá responder tal questão (de quais são as intuições das pessoas sobre x). Embora um psicólogo, saído da universidade, é capaz de, com os métodos aprendidos, realizar alguns experimentos de modo a dar a resposta dessa questão.

    Mas isso não significa que eu queira estabelecer uma separação total entre filosofia e psicologia popular. Na verdade, penso que é muito saudável filósofos começarem a realizar testes psicológicos, já que algumas teses usam intuições a seu favor. O meu ponto é apenas que não devemos confundir filosofia com psicologia. Quando os filósofos fazem tais testes e falam das influências nas intuições, eles estão fazendo psicologia, e não filosofia, já que é a psicologia que se pergunta e testa coisas como “o que as pessoas pensam sobre x?”, “o que causa/influencia tal tipo de pensamento?”, “como se pode modificar essa causa/influência?” etc. No “Side-Effects”, Joshua parece apenas mostrar como uma tese psicológica, baseada em seus experimentos, influencia o modo como devemos falar/perguntar coisas sobre a intencionalidade. Assim como saber que a água é H2O e que tais letras correspondem a átomos (teses químicas) influencia o modo como fazemos perguntas e falamos sobre a composição da água (quando, por exemplo, em mereologia, nos perguntamos sobre as partes próprias dos objetos de tamanho médio).

    Acho também importante que saibamos qual a fonte das crenças dos filósofos sobre as crenças das pessoas e se elas correspondem ao que as pessoas realmente pensam. Mas isso também se dá com o psicólogo e com o físico. Digamos que mostre-se importante para uma teoria psicológica ou física que tais profissionais saibam se o que eles pensam sobre as intuições das pessoas corresponde às intuições das pessoas ou que eles saibam quais as influências das intuições das pessoas. Tanto o físico, quanto o psicólogo, poderiam fazer os experimentos adequados para saber quais são essas intuições e poderia discutir sobre como essas intuições são influenciadas. Mas não diríamos de um físico que ele está fazendo física ao fazer tais experimentos, enquanto diríamos tal coisa de um psicólogo. Na verdade, isso seria um experimento muito interessante de ser feito pela x-phi: saber o que as pessoas pensam que um físico está fazendo quando faz pesquisas do tipo da x-phi (precisamos apenas encontrar um bom exemplo de caso onde um físico realizaria tal pesquisa). Quanto a um filósofo, penso que as pessoas teriam mais dificuldade para diferenciá-lo do psicólogo, já que a filosofia por vezes se utiliza de muitas teses científicas e já que as pessoas comuns têm muito pouco conhecimento do que é filosofia.

    Na filosofia da ação e na epistemologia, você disse, os filósofos estudam a formação da crença como um tema a ser investigado. Mas há uma diferença entre o estudo desses filósofos e dos psicólogos, não? Será que você pode dar um exemplo de questão epistemológica ou da filosofia da ação sobre a formação das crenças? Poderíamos, daí, discutir o motivo de ela ser filosófica, e não psicológica.

    Alguns filósofos postulam certas faculdades mentais porque elas são implicações necessárias de suas teses ou condições necessárias para que suas teses sejam verdadeiras. Mas o trabalho científico sobre que faculdades há, como elas estão distribuídas pelo cérebro, como elas afetam as respostas das pessoas etc. deve ser um trabalho realizado pela neurociência, pela psicologia etc. Mas por que? Por que não seria um trabalho filosófico? Por que a psicologia já saiu da filosofia e tem por objetivo estudar tais tipos de questões de forma científica, ou seja, por meio de experimentos e generalizações (sendo eu bem simplista no modo de falar); assim como a física saiu da filosofia, para tentar, através de experimentos e generalizações, responder questões mereológicas e cosmológicas. A filosofia, como entendida tradicionalmente, poderia tentar responder tais questões (dos físicos e dos psicólogos), tanto que no passado o fez. Mas criamos ciências para estudar tais questões porque pensamos que as respostas filosóficas para elas são por demais abrangentes, pois trabalhamos com possibilidades, impossibilidades, inconsistências, entre outras coisas, que não respondem satisfatoriamente as questões físicas ou psicológicas. Ao fazer um experimento um filósofo deixa de fazer filosofia, pois para cada experimento que ele realiza sobre um objeto X, há uma ciência que trata daquele objeto X com experimentos. E, se não há tal ciência e começa-se a fazer experimentos para responder um certo grupo de questões (agrupáveis em um tipo), logo logo surgirá uma ciência específica para tratar de tais questões, assim como ocorreu com a física e a psicologia (que saíram da filosofia) e com genética (advinda de questões de dentro da biologia).

    Cada disciplina cuida de seus próprios problemas, e não há problemas em comum e tratados da mesma maneira por disciplinas diferentes. Se a filosofia pudesse realizar experimentos sobre as intuições das pessoas e continuar sendo filosofia, então teríamos duas ciências que tratariam dos mesmos problemas da mesma forma, a filosofia e a psicologia. Suponha que se mostrou importante para a psicologia saber quais são as intuições das pessoas sobre certos conceitos utilizados na psicologia (tais como ação intencional, ação livre, entre outros). Para responder tal questão importante, a psicologia fará os mesmos experimentos que estão realizando os filósofos experimentais. Não sentiríamos um estranhamento de ver um psicólogo trabalhando em tais questões e fazendo tais experimentos. Se um filósofo e um psicólogo pudessem realizar as mesmas questões do mesmo modo, não saberíamos como distinguir a psicologia da filosofia, e no entanto parece haver uma distinção. O mesmo ocorreria com a física e com a química. Se um físico se perguntasse as mesmas questões que um químico e realizasse experimentos da mesma forma que um químico faria, não pensaríamos que o físico está fazendo física de modo parecido com o químico, pensaríamos que tal físico está fazendo química. Se há uma questão que é tratada por mais de uma ciência (ou disciplina) da mesma maneira, então cabe sempre se perguntar de quem realmente pertence aquela questão daquela forma. Se é o caso que tanto a filosofia como a psicologia poderia responder a mesma questão da mesma forma, então cabe perguntar a quem a questão e o método realmente pertencem. E, sem apelar para a definição de filosofia que defendo, parece que, por semelhança de família, as questões trabalhadas pelos filósofos experimentais se assemelham mais a questões psicológicas do que a questões filosóficas.

    Na verdade, como você percebeu, eu não defendo que a filosofia deve se afastar dessas experiências. Principalmente porque muitas vezes utilizamos resultados de experimentos científicos em nossas teses. Mas defendo que há uma diferença entre a filosofia e as outras ciências, justamente no método de trabalho e nos problemas dentro dela inseridos. Não devemos esquecer que volta e meia surge uma área científica a partir de problemas filosóficos que tentam ser resolvidos por experimentos; parece-me que é isso que está ocorrendo com a x-phi.

    De qualquer maneira, não parece que sou eu tenho o fardo da prova com relação a x-phi ser filosofia. Parece que a própria x-phi deve provar sua legitimidade como filosofia. É ela afinal que está contra as intuições dos filósofos não experimentais e tentando se estabelecer como filosofia. Para que algo seja filosofia, não basta que queiramos dizer que é filosofia. Há problemas paradigmaticamente filosóficos, e a x-phi não trata desses problemas; então, ela deve dizer por que a devemos considerar filosofia, já que há uma ciência responsável por tratar dos problemas tratados pela x-phi (a saber, a psicologia)? Embora eu tenha dado uma abordagem a favor da x-phi, quando faz seus experimentos não ser filosofia, o fardo da prova está (e sempre esteve) do lado do filósofo experimental. Por isso, te pergunto: por que deveríamos considerar a x-phi como filosofia?

  15. Oi, Luis Rosa.

    Discordo de você quando você fala que há um problema central na filosofia analítica, que seria a busca de uma teoria do significado. Talvez isso fosse o caso de alguns filósofos analíticos do início do século XX, mas esse não continua sendo o caso. Pois a filosofia analítica encontra-se em todas as áreas da filosofia (metafísica, epistemologia etc), e não precisa pressupor uma teoria do significado para responder questões de outras áreas. A filosofia da linguagem é apenas uma das muitas áreas dentro da filosofia analítica. Estabelecê-la como contendo o problema central da filosofia analítica seria um erro. Não há problemas centrais na filosofia analítica.

    Mas concordo com você que há características essenciais (o que é essencial para algo ser ele mesmo) e que há uma essência (o que é essencial para diferenciar um objeto dos outros) para a filosofia, tanto como para as outras ciências. Concordo também que indicar uma característica em comum entre elas e necessária a cada uma delas não é a maneira correta de distinguirmos uma da outra. O que penso que é a essência da filosofia é o fato de ela tentar responder problemas que só podem ser resolvidos por argumentação; e a da ciência é que ela trata de problemas de modo a confirmar ou refutar suas respostas por meio de experimentos. Não pode haver uma área que junte essas duas coisas: não podemos tratar de problemas que só podem ser resolvidos argumentativamente por meio de experimentos, e se tratamos de problemas com experimentos, então eles não são do campo da filosofia, pois não é o caso que eles apenas possam ser resolvidos por argumentação. Se um dia pudermos criar um experimento que nos diga ou indique se o mundo surgiu num momento ou sempre existiu, então a resposta experimental que obteríamos fará parte da teoria física que adotamos, embora a filosofia possa ainda questionar a legitimidade do experimento ou questionar a consistência/coerência de, por exemplo, um mundo auto-existente.

    Uma ciência que junte psicologia e filosofia não seria filosofia. Ela seria algo que se utiliza tanto da filosofia como da psicologia, como acredito que a filosofia experimental faz. Ela é parte psicologia e parte filosofia, e não uma filosofia com experimentos. Assim, é errado chamá-la de filosofia experimental, deveríamos chamá-la de filo-psicologia.

  16. Oi, Luis Ledo.

    Não sei se posso compactuar da sua concepção de filosofia. Quando nos perguntamos qual é a teoria do significado correta, não estamos nos perguntando nada sobre a realidade como um todo. Talvez, em filosofia, só tratemos de problemas que envolvem a realidade como um todo quando estamos fazendo metafísica. Portanto, a filosofia não pode tratar só de problemas que dizem respeito à realidade como um todo. Logo, tratar de problemas que dizem respeito à realidade como um todo não pode ser uma definição de filosofia. Mas você pode querer que a filosofia, tomada como um todo, trata de construir uma cosmovisão do mundo. Pode ser. A física, tomada como um todo, tenta dar-nos uma visão física do mundo. Mas isso não diz nada sobre quais são os problemas tratados pelos físicos e não diz nada sobre como diferenciar um problema físico de um problema químico ou filosófico. Assim, a sua definição não estabelece condições suficientes para que algo seja um problema filosófico, e nem estabelece condições para que consigamos distinguir um problema filosófico de outros problemas que tratem da realidade como um todo (como o pode fazer um problema físico).

    Você disse que a minha definição também não estabelece critérios suficientes, dado que outras ciências, como a matemática, teriam seus problemas resolvidos apenas por meio de argumentação. Você pensa que a demonstração matemática contaria como argumentação. A demonstração matemática não é argumentação; consiste apenas de seguir um processo lingüístico com certas regras e ver o resultado ou descobrir quais são as implicações de aceitar um certo processo linguístico. Assim como a lógica: só há um argumento filosófico quando colocamos conteúdo nas variáveis; um argumento com apenas p e q não é a tentativa de responder um problema que só pode ser resolvido por argumentação. Mas mesmo que eu não esteja certo ao dizer tais coisas, isso só indicaria no máximo que temos que inserir a lógica e a matemática na filosofia, mas não que experimentos científicos poderiam ser inseridos na filosofia.

    Você disse, posteriormente, que um critério seria o problema ter consequências para a nossa cosmovisão do mundo: isso faria dele um problema filosófico. Mas falar que os objetos de tamanho médio são compostos de átomos tem uma consequência imensa para a nossa cosmovisão de mundo e para a nossa ontologia, mas de fato não é um problema filosófico, mas um problema físico.

    Sobre a tese da seleção natural, não li o livro do Darwin e, então, não sei como ela foi estabelecida. Mas se foi por meio de experimentos científicos e argumentação, então é um a resposta de um problema científico, e não filosófico. Embora possamos discutir a verdade da tese da seleção natural por meios filosóficos (argumentações que tentam provar a coerência/consistência de tal tese); tal problema metabiológico seria parte da filosofia da biologia, pois não podemos provar a coerência/consistência de tal tese apelando para nenhum experimento.

    Sobre os seus exemplos da física cosmológica e da neurociência, tenho dúvidas se o problema da construção da percepção x a percepção direta seja um problema filosófico. Pode ter sido durante muito tempo tratado por filósofos, mas dado que há uma maneira de descobrir tal coisa por meio de experimentos científicos, não sei porque ele deveria ser considerado filosófico; isso é uma coisa que a neurociência poderá descobrir. Por exemplo, podemos nos perguntar filosoficamente sobre do que são compostas as coisas de tamanho médio. Tentaremos responder a isso com possibilidades e impossibilidades com relação à composição de tais objetos. Neste caso, estaremos fazendo filosofia, mas não estaremos tratando de um problema filosófico; estaremos apenas dando um tratamento filosófico para um problema científico. Mas só estaremos dando um tratamento filosófico para tal problema, pois nos utilizamos de argumentação. Se tentássemos fazer experimentos, estaríamos novamente de volta à física.

    Talvez eu tenha que mudar a minha visão de o que é a filosofia. Eu disse anteriormente que ela é a tentativa de responder de modo argumentativo os problemas que apenas podem ser resolvidos de modo argumentativo. Mas acredito que isso excluiria alguns problemas de algumas filosofias de ciências especiais. Portanto, problemas filosóficos seriam definidos da mesma maneira que antes o fiz, mas eu definiria diferentemente a filosofia. A filosofia seria a tentativa de responder apenas argumentativamente problemas filosóficos ou problemas científicos. É claro que no método científico a argumentação tem o seu lugar, mas não da forma como o tem na filosofia. Se pensarmos em tanto a filosofia como a ciência seguindo o método hipotético-dedutivo, a filosofia toma a argumentação como a parte da falsificação da teoria, enquanto a ciência toma os experimentos como a parte de falsificação das teorias.

    Mas mesmo que aceitemos sua definição de que filosofia tem o mesmo método das ciências, “como poderíamos diferenciá-la de outras ciências?” se mostraria uma questão tão relevante quanto “como podemos diferenciar a física de outras ciências?”. E tem de haver uma diferença entre a filosofia e as outras ciências para que faça sentido falar que há filosofia e que ela não é redutível a outras ciências. A ciência como um todo quer construir uma cosmovisão do mundo; isso não é uma propriedade exclusiva da filosofia. Qual seria, então, a diferença? Eu creio que as ciências se parecem em muito com a filosofia, mas não podem ser o mesmo que a filosofia: tem de haver uma diferença – se não, não haveria filosofia.

    Sobre as premissas empíricas e premissas tautológicas (em sentido amplo, ou seja, analíticas): muitas vezes utilizamos premissas empíricas em raciocínios filosóficos, mas não temos que com a filosofia descobrir a verdade dessas premissas. Há premissas em raciocínios filosóficos que utilizam a existência do bigbang, a composição química da água, a identidade entre Vésper e Fósforo, mas a verdade dessas premissas não foi descoberta pela filosofia, mas sim pela ciência. Se utilizamos premissas empíricas, nada exige que o filósofo a descubra através de métodos científicos a verdade das mesmas. A verdade delas é descoberta por cientistas – que não estão fazendo filosofia quando descobrem tal coisa – e apenas utilizada por filósofos para ajudar a resolver problemas filosóficos. Um problema do que você falou é que não precisamos descobrir a verdade de premissas empíricas apenas por métodos empíricos: podemos descobrir que uma premissa empírica é verdadeira, simplesmente porque é impossível que ela seja falsa. E podemos estabelecer essa impossibilidade apenas por métodos analíticos. Por exemplo: se uma coisa é algo que se encontra em algum lugar; e coisa é algo que se encontra em algum lugar, pois se não se encontrassem em lugar algum, não seria nada concreto, e, portanto, não poderia ser uma coisa; logo se há uma coisa, então é impossível que não haja um espaço ocupado por essa coisa. Se esse argumento é bom, então teríamos descoberto algo sobre o mundo a priori, a saber, que se há coisas, então há espaço. De qualquer forma, penso que o que é importante notar é que, por mais que utilizemos premissas empíricas não precisamos querer (e, de fato, normalmente não fazemos tal coisa) que elas sejam estabelecidas por métodos filosófico-científicos empíricos; podemos simplesmente confiar (e dar argumentos para essa confiança) no que dizem os cientistas que estudam a verdade dessas premissas ou podemos tentar estabelecê-las por algum raciocínio a priori (já que para estabelecer que nenhum raciocínio a priori pode nos dar informações sobre o mundo é preciso de muita argumentação).

    Se ficarmos presos à concepção argumentativa da filosofia, não podemos nem fazer tais experimentos psico-sociológicos: eu falaria que tais experimentos devem ser feitos pela psicologia e pela sociologia. E ainda, não precisamos romper com a concepção argumentativa da filosofia para usufruir dos frutos dos experimentos e métodos científicos; podemos aceitá-los com base na virtuosidade epistêmica do experimento ou método e deixar as ciências cuidarem deles. Se um filósofo se utiliza de experimentos, ele estará realizando um experimento para achar a verdade de uma proposição empírica. E para cada proposição empírica natural já há uma ciência que deve cuidar de encontrar a verdade dessa proposição, embora nem sempre consigamos tratar da verdade de proposições empíricas naturais com os métodos científicos atuais. Isso implica que eu tenho duas concepções de problemas tratados pela filosofia: os problemas provisoriamente filosóficos e os problemas intrinsecamente filosóficos. Os provisórios são problemas científicos que a ciência não dá conta de tratar (por falta de métodos adequados para tratá-los) e os intrínsecos são os problemas genuinamente filosóficos.

    Concordo com você que seria muito pouco útil fazer experimentos para saber o que as pessoas pensam sobre determinados conceitos filosóficos; mas não é apenas isso que a x-phi pretende; ela quer saber como se dá o uso de tais conceitos para saber quais são os processos internos que influenciam no uso dos mesmos. E, geralmente, quer saber isso para contribuir para o conhecimento de alguma área da filosofia ou para confirmar/refutar alguma premissa filosófica que diz que as intuições das pessoas são de uma forma e não de outra. O que defendo aqui é que, embora a filosofia experimental tenha objetivos filosóficos de fundo, parte do que ela faz é uma tarefa da psicologia, e não da filosofia, e a outra parte, a filosófica, não tem diferenças com a filosofia analítica atual. (Dê uma olhada no comentário para o Carlos Mauro sobre essa distinção.)

  17. Rodrigo, o seu comentário ao meu é muito interessante.

    Antes de responder, preciso lhe perguntar algumas coisas – são questões pontuais e que são importantes para a estratégia a ser adoptada na minha resposta, ok?

    1. Você diz: “não é um problema filosófico, pois não é um problema que pode apenas ser resolvido por argumentação”. Poder ser resolvido por agumentação é uma condição necessária? Se é, por que? Essa mesma frase tem um termo que parece-se suspeito: “resolvido”. O que quer dizer com isso? O que entende por resolver um problema filosófico?

    2. Quando S pergunta: O que é uma acção? e “Como pode ser explicada a acção? – está a formular questões filosóficas, ou psicológicas? Se, por acaso, eu disser que as crenças e os desejos explicam a acção (isso de maneira muito simples, claro!), acha que eu estaria dando uma resposta filosófica, ou psicológica?

    Fico à espera dessas respostas para responder-lhe, ok?

  18. Oi, Carlos Mauro.

    Sem problemas. Vou responder suas questões a seguir:

    1. Para responder essas questões, tenho primeiramente que fazer uma distinção (que já fiz em outro comentário) de dois tipos de problemas tratados pela filosofia: existem problemas provisoriamente filosóficos e problemas intrinsecamente filosóficos. Os provisórios são problemas científicos que a ciência não dá conta de tratar (por falta de métodos adequados para tratá-los) e que são possíveis de serem tratados por meio de argumentação; e os intrínsecos são os problemas genuinamente filosóficos, ou seja, os que só podem ser resolvidos por argumentação. “Só podem ser resolvidos por argumentação” quer simplesmente dizer que só poderemos encontrar soluções (ou dar respostas) para um problema filosófico por meio de argumentação (ainda que as soluções encontradas não possam ser chamadas de definitivas). Eu não quero dizer que problemas filosóficos são resolvidos, mas apenas que eles podem ser resolvidos por argumentação. E esse “podem” apenas expõe uma potencialidade de um problema genuinamente filosófico.

    Mas, voltando agora à pergunta inicial, sobre se “poder ser resolvido apenas por argumentação” (chamarei o termo entre aspas de “critério X”) é uma condição necessária, minha resposta seria que o critério X é tanto uma condição necessária, quanto suficiente. Mas por quê?

    a) Porque para cada problema onde não é o caso que ele possa apenas ser resolvido por argumentação, haverá bons métodos não-filosóficos para resolvê-lo. E “bons métodos não-filosóficos” são os métodos utilizados apenas pelos outros cientistas ou os métodos do dia-a-dia. Métodos do dia-a-dia seriam métodos não utilizados especificamente pelas ciências ou pela filosofia, são métodos usados no nosso cotidiano, como: para saber quantos cachorros têm numa certa casa, procuro os cachorros em todos os locais da casa e os conto. Se há problemas que não obedecem o critério X, eles ainda poderão ter a potencialidade de serem também resolvidos com somente argumentação ou por bons métodos não-filosóficos. Mas se para tais problemas, obtivermos melhores respostas por meio de bons métodos não-filosóficos, não diríamos que tais problemas seriam filosóficos: eles são problemas de quem tem a capacidade de resolvê-los melhor. As ciências (não-filosofia) e o dia-a-dia têm a capacidade de resolver problemas que não obedecem o critério X de modo melhor do que se estivéssemos tentando resolvê-los apenas com argumentação. Então, para cada problema que não obedece o critério X, há uma disciplina científica ou método do dia-a-dia que o resolve satisfatoriamente; portanto, não precisaria ser um problema filosófico genuíno. Isso faria sobrar para a filosofia os problemas que só podem ser resolvidos por argumentação (seja por isso ser uma propriedade intrínseca ao problema, seja por isso advir do fato de a ciência atual ainda não ter os métodos próprios para a resolução do problema).

    b) X é uma condição necessária para Y quando já temos uma concepção da essência de X. Antes disso, não podemos identificar condições necessárias. E minha concepção de filosofia adém da obseração dos problemas tratados pelos filósofos na história da filosofia: sempre foram problemas que não tinham como ser resolvidos por outros meios que não a argumentação, seja porque na época não havia outros meios, seja porque eram problemas impossíveis de serem resolvidos por outros meios. A filosofia, em sua história, abordou inúmeros problemas diferentes. Alguns deles passaram às ciências. Os que passaram às ciências foram os que podiam ser resolvidos por meios não-meramente-argumentativos. A partir dessa “indução” histórica podemos encontrar algo como a essência da filosofia. E do momento que temos essa essência, temos as condições necessárias. E penso que essa indução histórica é um bom método de estabelecer qual o conteúdo ou método de uma ciência (tal como a filosofia, a física, a química, a biologia, a psicologia etc) porque se o utilizarmos para os outros cientistas (outros além do filósofo), poderemos capturar a essências dessas outras ciências.

    c) Se o critério X não for uma condição necessária, então outros tipos de problemas poderão contar como problemas filosóficos. Não haverá um critério para distinguir a filosofia de outras ciências. Afirmo que isso ocorre no caso da x-phi: ela torna a filosofia indistinta da psicologia. E isso também ocorreria se chamássemos de x-phi uma filosofia (inserida na área da metafísica) que começasse a fazer experimentos que conseguissem responder a questão “as coisas são infinitamente divisíveis?”; a confundiríamos com a física. Suponhamos que fosse possível um experimento ou qualquer outro método não-meramente-argumentativo responder essa questão. Suponhamos também que os filósofos começassem a realizar experimentos para respondê-la(com “experimentos” quero dizer “métodos não-meramente-argumentativos”) . Teríamos tomado um problema provisioriamente filosófico e começado a fazer física sobre ele. Na verdade, a história das ciências mostra-nos que foi isso que aconteceu. Os filósofos, a partir do momento que começaram aplicar algum método não-meramente-argumentativo (e epistemicamente virtuoso) fundaram a física. E, se filósofos que falassem sobre o contato entre diferentes substâncias começasse a fazer experimentos para complementar suas teses, temos a forte impressão de que eles estariam, ao fazerem o experimento, fazendo química.

    2. Caramba. Que perguntas difíceis… Mas vamos lá. Acredito que tais perguntas e e tal resposta são filosóficas. Mas por quê?

    Porque o vocabulário básico das ciências é tarefa da filosofia forjar. Dado uma certa ciência, a filosofia deve se assegurar que os elementos do seu quadro de referência são consistentes entre si e entre os das outras ciências, de modo a tal ciência poder avançar. E é ela que deve fazer tal coisa, pois a verificação dessa consistência é algo realizável apenas por argumentação. E questões como “o que é uma ação?”, “o que é a mente?”, e semelhantes, são questões cujas respostas fornecem os conceitos básicos para que uma ciência possa trabalhar. Assim, fornecer tais conceitos – por exemplo, ao dizermos que a ação se explica pelas crenças e pelos desejos – deve ser uma resposta filosófica. Mas pesquisar quais crenças e quais desejos explicam uma determinada ação ou tipo de ação não parece mais ser uma tarefa genuinamente filosófica, embora possa ser ou ter sido uma tarefa provisoriamente filosófica. Como também ocorre quando dizemos que os objetos podem ser divididos em uma parte estrutural material e uma parte imaterial onde seus “poderes” ocorrem; descobrir a relação entre os diversos poderes e entre os poderes e a parte estrutural é tarefa da química e talvez da neurociência. Não podemos descobrir essas relações – entre poderes, estruturas, crenças, desejos e ações – particulares, seja de tipo ou de objeto particular, meramente por meio de argumentação; temos de ir aos experimentos; por isso fazemos outras ciências, e não filosofia, quando nos perguntamos quais são as intuições das pessoas e como outras coisas influem nas respostas, embora façamos filosofia quando nos perguntamos “o que são intuições?”.

    É isso que penso. Espero, então, sua resposta.

    Abração!

  19. Oi, Cleuza Fiorin.

    Esperamos sua participação!

    :D

  20. Rodrigo Cid · · Responder

    Uma pergunta:

    Se sou um filósofo analítico tradicional e não faço experimentos, mas uso os dados obtidos por filósofos experimentais em meus argumentos que levam em conta intuições – nos argumentos relevantes, é claro -, serei eu um filósofo experimental ou um filósofo analítico? O que é exigido a mais de um filósofo analítico para que ele se torne um filósofo experimental?

  21. Luis Ledo · · Responder

    Ola Rodrigo,

    1.- Que o obxecto de estudio da filosofía sexa a realidade como un todo para construír unha cosmovisión non quere dicir que teñamos que falar sempre da realidade como un todo cando facemos filosofía: para pintar a escena completa, temos que centrarnos en cuestións puntuais sen que isto signifique que non esteamos a elaborar unha cosmovisión.

    2.- Paréceme estraña a definición do obxecto de estudio da filosofía a través do método proposto para a filosofía: a argumentación. Penso que unha ciencia ten un obxecto de interese que a define e, posteriormente, chega o problema de ver cal é o método máis axeitado. Recorrer ó método argumentativo para fixar o obxecto da filosofía parece que deixa as portas abertas a que cuestións non filosóficos, pero argumentativas, entren a formar parte da filosofía e a que cuestións filosóficas pero non argumentativas, quedarían fora.

    3.- ¿Qué é o que fai que unha cuestión sexa filosófica? Que sexa necesaria para construir unha cosmovisión do mundo. ¿Cales son as preguntas que conforman unha cosmovisión? Podemos facernos unha idea: ¿que somos?, ¿de onde vimos?, ¿a onde imos?, ¿que nos cabe esperar?, ¿que podemos facer? etc. Aquí está clara a diferencia entre unha cosmovisión, filosófica, e o que se pode construír desde a física, que tamén da unha imaxe do mundo, pero non pretende responder a ningunha destas preguntas. Outras ciencias constrúen imaxes do mundo, pero non son cosmovisións porque non pretenden responder ás preguntas que definen unha cosmovisión filosófica.
    Non se pode argumentar que se a filosofía non fose diferente ás ciencias non habería filosofía, porque isto pódese dicir de calquera outra ciencia: se a física non fose diferente as outras ciencias non habería física. É necesaria unha diferencia coas demais ciencias para que haxa filosofía, pero esa diferencia non ten por que alcanzar á cientificidade da filosofía senón só ó obxecto de estudio propio da filosofía.

    4.- ¿Por que recorre a filosofía á argumentación? As ciencias recorren á argumentación cando non teñen datos para resolver os problemas. Repito o caso da cosmoloxía porque é paradigmático: por exemplo, a discusión acerca de se existen múltiples universos, se houbo outros Big Bangs, non é algo que se preste á experimentación polo que só cabe a especulación e a argumentación igual que en moitos problemas filosóficos. A percepción, na filosofía da mente, é un bo exemplo do que acontece en sentido contrario: cando aparecen datos científicos, a argumentación especulativa vai deixando o seu sitio ós datos empíricos. E isto é o que debe ir sucedendo con tódolos problemas filosóficos.

    5.- É certo que se a filosofía segue presa da concepción argumentativa non caben experimentos: se algo é filosófico non sería experimental, se algo é experimental non sería filosófico. Por iso creo que a filosofía debe romper coa concepción argumentativa: porque o experimento debe entrar nela para conectala có mundo; sen experimento a filosofía queda sen contacto directo coa realidade.

    6.- O que deberíamos ver para saber que é a filosofía é a cuestión do coñecemento. ¿A filosofía da coñecemento do mundo? ¿Que é o coñecemento? Salvo que alguén defenda que a filosofía non aporta coñecemento do mundo, hai que someterse ó que é o coñecemento. Cando dicimos que coñecemos algo en ciencia ¿que estamos a dicir? Estamos a dicir que temos un modelo teórico que representa ese ámbito da realidade. O modelo constrúese a partir de observacións previas do problema e valídase coa contrastación posterior coa realidade. Se a filosofía pretende dar coñecemento, o que ten que facer é construír modelos teóricos da realidade, cosmovisións, que se constrúan e validen do mesmo xeito. Un exemplo: a filosofía da linguaxe; esta é unha realidade para a que debemos construír un modelo teórico que a represente; significado, referencia, sentido, etc. deben modelizarse e validarse como en calquera outra ciencia.
    ¿Que fai que a filosofía da linguaxe sexa filosofía? Non o feito de que sexa algo argumentativo, senón o feito de que trata un aspecto importante da cosmovisión filosófica: a construción e a comunicación do pensamento así como a súa relación coa realidade que representa. Se non fose por estas cuestións epistemolóxicas (e doutro tipo), a filosofía da linguaxe non sería filosofía senón que se quedaría en lingüística.

    Un cordial saúdo,
    Luís Ledo.

  22. Peço desculpa a todos aqueles que seguem esse debate e, claro, especialmente ao Rodrigo (a quem quero em breve responder) pela minha demora em escrever. Por causa de questões profissionais não tenho tido tempo (qualitativamente adequado) para escrever com a atenção que o tema merece. Espero escrever até a próxima terça-feira (dia 23). Agradeço a compreensão de todos. Abraço, Carlos

  23. Oi, Luis.

    Vou comentar suas respostas tópico por tópico.

    1 – Em sua resposta sob o tópico 1, você falou sobre o objeto de estudo e sobre o objetivo da filosofia. Você falou que o objeto de estudo é a realidade como um todo e o objetivo é construir uma cosmovisão do mundo. Com “a realidade como um todo”, você poderá querer dizer que a filosofia trata sempre de a realidade tomada como um todo – acredito que não seja este o sentido que vc quer usar – ou que, juntando tudo que a filosofia trata, ele tratará da realidade como um todo de modo a construir uma cosmovisão. Minhas críticas quanto a isso são: se a filosofia trata de muitos problemas diferenciados, e esses problemas nem sempre tratam da realidade como um todo, então não podemos falar que o objeto da filosofia é a realidade como um todo. Isso é assim, pois quando falamos de um objeto de uma ciência ou de uma disciplina, temos que encontrar o “algo comum” que perpassa todos os problemas daquela disciplina ou ciência. A física, por exemplo, trata dos objetos físicos e suas relações: qualquer problema físico que tomemos, ele será um problema sobre os objetos físicos e suas relações. Mas para qualquer problema filosófico que tomemos, ele não terá de ser um problema que trata da realidade como um todo. Além disso, as ciências tomadas em conjunto, assim como as áreas da filosofia tomadas em conjunto, também abordam a realidade como um todo, e a partir de suas conclusões também temos consequências para a nossa cosmovisão. As ciências em conjunto também querem construir uma cosmovisão. Assim, dizer que o objeto da filosofia é a realidade como um todo deve ser um equívoco, e dizer que é algo específico da filosofia querer construir uma cosmovisão é um erro. A única coisa que perpassa todos os problemas filosóficos é o fato de ele ser respondido apenas por argumentação. Não é que para pintar a cena completa precisamos de todas as áreas da filosofia: precisamos de todas as ciências para pintar a cena completa. A filosofia é parte desse construir de uma cosmovisão; essa característica não é distintiva dela. Para afirmar que é, você precisaria mostrar que as ciências não visam a mesma coisa e não têm esse mesmo objeto. Na falta disso, não podemos aceitar que “objetivar fazer uma cosmovisão” ou que “tratar da realidade como um todo” possam ser condições necessárias ou suficientes para qye algo seja filosofia.

    2 – Definir o objeto de estudo da filosofia de acordo com o método não parece ser um grande problema, já que não temos algo em comum entre todos os problemas filosóficos. Temos que achar esse algo em comum; se não encontramos na temática, será interessante procurar no método. Na verdade, muitas vezes fazemos isso. Por exemplo: no caso de a neurociência tratar de um mesmo problema que a psicologia, o que diferenciará uma da outra será o método de trabalho. Concordo com você que definir a filosofia por meio do seu método faz com que problemas argumentativos façam parte da filosofia, mas creio que se não considerarmos as matemáticas e as lógicas como argumentação, isso não será um problema para a filosofia. Existem problemas que podem ser resolvidos por argumentação e experimentos, e outros que só podem ser resolvidos por argumentação. Os que só podem ser resolvidos por argumentação serão filosóficos; não vejo que outros tipos de problemas não-filosóficos entrarão na concepção de filosofia. Não creio que haja questões meramente argumentativas e não filosóficas.

    3 – Se o que vc está falando é verdade, então qualquer problema cuja resposta nos ajude a formar uma cosmovisão do mundo deve ser filosófico. O problema disso é que saber que as coisas são formadas por átomos que obedecem certas regras nos ajuda a formar uma cosmovisão do mundo. Porém, este é um problema físico, e não filosófico. Saber sobre a psicologia humana nos ajuda a formar uma cosmovisão do mundo; no entanto, isso não é um problema filosófico, mas sim psicológico. A questão física pode não ser necessária para fazer uma cosmovisão do mundo, mas com certeza saber algo sobre a natureza humana o é.

    Outra coisa: como você define quais são as perguntas que devem fazer parte de uma ciência (a filosofia) que queira alcançar uma cosmovisão do mundo? Para reunir todas as perguntas que vc citou no grupo das questões que tentam formar uma cosmovisão do mundo, você deve ter um critério ou um ponto de semelhança. Como decidir? Não pode ser arbitrário. Por que questões físicas e psicológicas não fariam parte das questões da cosmovisão? E, se fizessem, qual seria a diferença com a filosofia?

    Além disso, se a cosmovisão só se constituísse dessas perguntas, como poderia entrar na filosofia a filosofia da linguagem, a filosofia da matemática, a filosofia da física, a filosofia da lógica? Essas disciplinas não precisam responder questões sobre “¿que somos?, ¿de onde vimos?, ¿a onde imos?, ¿que nos cabe esperar?, ¿que podemos facer?”. Geralmente elas não respondem questões desse tipo (embora eu ainda não consiga formar um tipo com as questões que vc colocou), e ainda assim são filosóficas.

    Você disse: “Non se pode argumentar que se a filosofía non fose diferente ás ciencias non habería filosofía, porque isto pódese dicir de calquera outra ciencia: se a física non fose diferente as outras ciencias non habería física. É necesaria unha diferencia coas demais ciencias para que haxa filosofía, pero esa diferencia non ten por que alcanzar á cientificidade da filosofía senón só ó obxecto de estudio propio da filosofía.”

    Sim; se a filosofia ou a física não fossem diferentes das outras ciências, não haveria física ou filosofia. Se elas fossem redutíveis às outras ciências, nada haveria de específico na filosofia ou na física; logo, não existiria física ou filosofia como disciplinas próprias. Mas com isso não quero dizer que a filosofia perderia sua cientificidade. Eu, na verdade, penso que a filosofia é muito científica; ela é tão ciência quanto as outras ciências. E penso que ela é uma ciência porque, assim como as outras ciências, ela utiliza um método epistemicamente virtuoso para investigar seus problemas, que no caso da filosofia é a argumentação e o debate público de teorias. Mas não é no método que ela difere tanto das ciências, mas sim nos tipos de problemas abordados. A filosofia aborda problemas que não podem ser resolvidos por experimentos; enquanto as ciências, não. Porém, ela não deixa de ser científica por isso.

    4 – Quando falamos, por exemplo, da possibilidade de existência de muitos universos ou quando discutimos se é possível que os indeterministas quânticos estejam certos, não estamos tratando de problemas da física, mas de problemas da filosofia da física. As filosofias das ciências são justamente a tentativa de responder os problemas de cada ciência que apenas podem ser respondidos por argumentação. As ciências se deparam com problemas que apenas podem ser resolvidos por argumentação. Daí, nesses problemas, entra em cena a filosofia daquela ciência.

    Sim, quando aparecem os dados ou o método de encontrar os dados, o problema torna-se de outra ciência, e não da filosofia (torna-se da física, e não da filosofia da física). Por isso que eu falei de problemas provisioriamente filosóficos e problemas intrinsecamente filosóficos. Aqueles que não conseguiremos obter dados experimentais (os que só podem ser resolvidos por argumentação) são os intrinsecamente filosóficos. Aqueles que não obtivemos dados, mas que poderemos no futuro obter tais dados, são apenas provisioriamente filosóficos.

    Você disse que passar para as ciências é o que ocorrerá com todos os problemas filosóficos. Mas não é possível responder se há ou não Deus com qualquer experimento científico possível. Isso é um problema filosófico que nunca passará às ciências.

    5 – O único problema de aceitar o experimento como parte da filosofia é que não conseguiremos distinguir muitas das outras ciências da filosofia. Se a filosofia fizesse experimentos para descobrir se há universais (se é que isso é possível), não conseguiríamos distingui-la da física, da química, da neurociência ou da psicologia.

    Se houvesse um experimento possível de ser realizado pela filosofia que não fosse redutível a um experimento de uma outra ciência, eu abandonaria a minha concepção argumentativa da filosofia.

    O que seria um experimento filosófico?

    6 – Concordo com você que na filosofia haja esse contraste com a realidade. Teorias filosóficas incoerentes ou inconsistentes com o resto de nossa visão de mundo são abandonadas ou mudam nossa visão de mundo. Mas o fator determinante da verificação de uma teoria filosófica nem sempre é a realidade, mas a coerência interna do argumento e o fato de ter passado pelo debate público e se mantido. Às vezes uma tese filosófica pode parecer que na realidade não ocorre, embora tenha os melhores argumentos ao seu favor. De qualquer forma, recorrer à realidade não é fazer experimentações científicas.

    Você disse: “¿Que fai que a filosofía da linguaxe sexa filosofía? Non o feito de que sexa algo argumentativo, senón o feito de que trata un aspecto importante da cosmovisión filosófica: a construción e a comunicación do pensamento así como a súa relación coa realidade que representa. Se non fose por estas cuestións epistemolóxicas (e doutro tipo), a filosofía da linguaxe non sería filosofía senón que se quedaría en lingüística.”

    O problema é que “a construção e a comunicação do pensamento” é também um assunto da pedagogia e da psicologia. Se fosse apenas o assunto que diferenciasse a filosofia das outras disciplinas, não haveria diferença entre filosofia da linguagem e pedagogia. Mas há uma diferença no tipo de problemas abordados pela pedagogia e pela filosofia da linguagem. A filosofia da linguagem tenta responder problemas de construção e comunicação do pensamento, mas problemas meramente argumentativos; a pedagogia tenta criar métodos de ensino, a partir de teorias sobre a construção e sobre a comunicação do pensamento, mas faz isso de modo experimental. Todas as ciências juntas tentam formar uma cosmovisão do mundo, e elas separadas tentam estabelecer partes importantes da nossa cosmovisão. Isso não é uma coisa apenas da filosofia.

    Um abraço,

    Rodrigo Cid

  24. Oi, Carlos.

    Obrigado pelo esclarecimento. Esperamos seu retorno.

    Um abraço,

    Rodrigo Cid

  25. Luis Ledo · · Responder

    Ola Rodrigo,

    Penso que o debate que estamos a ter é moi interesante porque trata unha cuestión que normalmente se da por suposta e que ninguén somete á crítica.

    1.- Separación de problemas

    Penso que deberiamos separar a cuestión xeral, de se a filosofía se define ou non polo seu obxecto de estudio, da cuestión concreta, relativa a cal sería ese obxecto de estudio. O feito de que eu estivese equivocado respecto a que o obxecto de estudio da filosofía sexa a realidade como un todo non afectaría ó feito de se a filosofía se define polo seu obxecto, sexa cal sexa.

    2.- Definición da filosofía como argumentativa

    2.1.-Non comparto o seguinte:

    “Quando falamos, por exemplo, da possibilidade de existência de muitos universos ou quando discutimos se é possível que os indeterministas quânticos estejam certos, não estamos tratando de problemas da física, mas de problemas da filosofia da física. As filosofias das ciências são justamente a tentativa de responder os problemas de cada ciência que apenas podem ser respondidos por argumentação”

    Eses problemas non son de filosofía da física senón de física. Para ver o que é un problema de filosofía da física podemos poñer un exemplo: algúns autores defenden que as leis básicas da física non son empíricas senón a priori; así a lei de Newton F = m . a non sería resultado da investigación física senón que conformaría o marco dentro do cal se desenvolve a investigación física. Aínda que non comparto este enfoque, está claro que é un problema de filosofía da física en contraposición cos presentados na cita, que son de física.

    2.2.- Pero a cuestión non é tan concreta senón moito máis xeral: penso que a argumentación non pode aportar ningún coñecemento importante sobre a realidade; pode sacar á luz incoherencias dunha teoría, pero non pode ir moito máis alá.
    Supoñamos que temos unha teoría froito dunha argumentación: teremos, polo tanto, un razoamento que parte dunhas premisas e termina nunha conclusión. O feito é, que se o razoamento é incoherente e queremos manter a conclusión, podemos facelo negando algunha das premisas. As premisas poden ser datos empíricos ou non; neste segundo caso tratarase de postulados, definicións, verdades autoevidentes, etc. Pois ben, se alguén quere manter unha teoría incoherente coas premisas, pódeo facer negando algún dato empírico ou algunha definición, postulado, verdade autoevidente, etc. Ningún problema pode ser resolto por argumentación porque sempre se pode recorrer a estas negacións. A cuestión non é de posibilidade teórica de negación, senón que, na miña experiencia filosófica, tódolos problemas que se discuten non se seguen a debater porque haxa que profundar na argumentación senón porque cada unha das partes non acepta algunha premisa da outra, independentemente de que pareza evidente para a parte contraria.

    3.- Definición da filosofía polo seu método

    3.1.-Non comparto o seguinte:

    “no caso de a neurociência tratar de um mesmo problema que a psicologia, o que diferenciará uma da outra será o método de trabalho”

    Penso que o obxecto de estudio da psicoloxía é a mente e que o da neuroloxía é o cerebro. Son obxectos de estudio diferentes aínda que teñen relacións evidentes.

    3.2.- Pero a cuestión non é tan concreta senón moito máis xeral: unha ciencia concreta ten como obxectivo a comprensión dalgún tipo de obxectos da realidade. O problema de que método utilizar é algo que ven despois, dependendo da problemática dos obxectos elixidos. Que eu saiba non existe ningunha ciencia que se define polo seu método, polo que resultaría estraño que fose o caso da filosofía. Non existe unha ciencia encargada da “resolución de problemas por estadística”; existe unha cuxo obxecto é a estadística, pero ningunha que trate tódolos problemas que se resolven con estadísticas.
    A ciencia ten unha caixa de ferramentas moi diversas e utiliza en cada caso concreto a máis axeitada; pero o definitorio de cada ciencia é o que estudio e non como o estuda. De feito cada ciencia recorre a métodos diferentes dependendo do problema concreto tratado.

    4.- A filosofía como cosmovisión global
    As demais ciencias son utilizadas pola filosofía para construír unha cosmovisión global, pero non teñen por obxectivo esta cosmovisión global. A filosofía si ten este obxectivo. De feito, a filosofía só utiliza de forma xeral e abstracta os resultados das ciencias, deixando os detalles máis concretos para as ciencias. Cando a filosofía trata que tipo de cousas existen, como o tempo, o espacio, a materia, etc. non o fai como a física senón que constrúe unha ontoloxía, que é algo máis abstracto ca física aínda que se apoie na física.
    As demais ciencias perseguen partes da realidade; a filosofía apunta á realidade como un todo: o seu obxectivo é describir o escenario completo no que vivimos, que lugar ocupamos nel e como nos relacionamos con el. Se repasamos as disciplinas filosóficas, podemos ver que todas apuntan a este obxectivo: o escenario da realidade, o noso lugar nel e como nos relacionamos con el.

    5.- Cerrando a cuestión
    Se discutimos este tema de que é a filosofía dentro dunha concepción argumentativa da filosofía está claro que non imos chegar a ningunha conclusión porque caben infinitas hipóteses ad hoc para defender a conclusión que se desexe, como vimos antes. A cuestión vaise decidir polo progreso científico que sexa capaz cada concepción de xerar. Desde o meu punto de vista, a concepción argumentativa é estéril porque sempre leva a discusión circulares nas que non se avanza nada: cada un defende a súas premisas dentro de teorías coherentes que son imposibles de derribar. A concepción científica da filosofía, dentro do método hipotético-dedutivo, pode xerar progreso e a filosofía experimental é un bo exemplo se se sacode a concepción argumentativa tradicional.

    Un cordial saúdo,
    Luís Ledo.

    1. Oi, Luis.

      1 – Concordo com você. Devemos separar essas duas questões. Mas se o objeto da filosofia for “a realidade como um todo”, esse objeto seria uma característica distintiva da filosofia? Se você pensa que sim, então isso significa que você pensa que podemos definir a filosofia por meio do seu objeto de estudo. Se você pensa que não, então também pensa que a filosofia não é definível pelo seu objeto de estudo. De qualquer forma, o que me parece que devamos perguntar é: o objeto de estudo da filosofia é algo distintivo nela? Se não, como poderemos encontrar algo distintivo na filosofia e que não haja em nenhum outra ciência? O que faz a filosofia não ser redutível às outras ciências? Como a essência da filosofia? Para onde devemos olhar, se não para o objeto? Temos somente duas outras opções: observar o método ou observar os profissionais da filosofia.

      2
      2.1 – Você disse: “Para ver o que é un problema de filosofía da física podemos poñer un exemplo: algúns autores defenden que as leis básicas da física non son empíricas senón a priori; así a lei de Newton F = m . a non sería resultado da investigación física senón que conformaría o marco dentro do cal se desenvolve a investigación física.”

      Não penso que essa seja uma investigação específica de filosofia da física. Esse é um debate muito presente na metafísica: saber se as leis da natureza são empíricas ou a priori, ou se são necessárias ou contingentes etc… Eu mesmo estudo a necessidade das leis da natureza e a existência de possibilidades não-atuais; e me encontro num estudo de metafísica, utilizando métodos metafísicos, junto com outros filósofos a quem chamamos de “metafísicos”. Mas pode ser que isso seja filosofia da física e que a filosofia da física seja apenas parte da metafísica. De qualquer forma, não entendo porque os problemas que eu apresentei não são da filosofia da física. Eles são problemas da física discutidos por filósofos da física (e só podem ser resolvidos por argumentação).

      O problema principal será que outros filósofos não defendem que as leis básicas sejam conhecíveis a priori. E, na verdade, a separação entre o conhecível a priori e o necessário e a tese do necessário a posteriori são dois fatores importantes que nos dão razões para abandonar a tese do sintético a priori. Além de nunca termos conseguido deduzir as leis da natureza das leis da lógica. Donde, não temos razões para pensar que as leis básicas da física sejam sintéticas a priori.

      2.2 – Eu discordo de você de que a argumentação sirva para pouca coisa. Podemos sempre negar alguma premissa, seja ela conhecível primitivamente somente a priori ou a posteriori, para manter a conclusão ou manter as premissas e acatar a conclusão. Mas isso não é um impedimento para que possamos avançar em nossas teorias. Isso, antes, é algo que nos permite pensar em possibilidades e impossibilidades com relação às teorias e ver quais delas são as mais consistentes; o que nos daria um conhecimento da realidade (ou pelo menos nos daria crenças muito prováveis sobre como a realidade é).

      De qualquer forma, eu concordo com você que, para algumas questões a argumentação será pouco e teremos que partir para métodos empíricos. Como, por exemplo, no caso onde falamos que as pessoas teriam as intuições de uma certa maneira. Seria algo como uma tolice ficar argumentando sobre como seriam as intuições das pessoas, se podemos fazer uma pesquisa e descobrir. Mas nem toda questão filosófica ou premissa de questão filosófica é de tal forma que é possível resolvê-la por métodos empíricos. O que uma filosofia científica faria com tais questões? Eu assumo que questões provisoriamente filosóficas podem utilizar métodos empíricos em sua investigação, pois essas são as questões filosóficas que, se houvesse os métodos adequados, poderiam ser tratadas de igual modo pelas outras ciências. Mas não as questões intrinsecamente filosóficas.

      E, se argumentos a favor de algo auto-evidente não adiantarem para convencer alguém de sua verdade, não penso que experimentos adiantarão.

      3
      3.1 – Você disse: “Penso que o obxecto de estudio da psicoloxía é a mente e que o da neuroloxía é o cerebro. Son obxectos de estudio diferentes aínda que teñen relacións evidentes.”

      Sim, sim; pode ser. Mas eu só usei essas disciplinas como exemplo de algo mais geral que eu queria dizer, a saber, que se duas ciências podem tratar do mesmo objeto de estudo (tal como me parece ser o caso entre parte da filosofia experimental e a psicologia), a única coisa que as distinguiria seria o seu método de trabalho.

      3.2 – Adorei o argumento que você usou aqui. Realmente não há nenhuma disciplina cujo objeto seja os problemas que podem ser resolvidos por estatística. Porém, o problema está mais em baixo. Eu não penso que a melhor forma de definir os problemas filosóficos seja falando que eles só podem ser resolvidos por argumentação. Talvez haja uma boa definição temática, tal como você pretende, que reúna todos os problemas da filosofia num só grupo. Mas eu nunca consegui encontrar um tema geral. O que encontrei foi uma característica de todos os problemas filosóficos – pelo menos todos anteriores ao início da união entre filosofia e experimentos -, o de serem possíveis de serem tratados apenas com argumentação. Uma analogia a isso seria o seguinte. Imaginemos que temos um conjunto, cuja definição é ser o conjunto dos múltiplos de 2, e que dele queremos descobrir a definição. Poderíamos olhar para os membros desse conjunto e procurar um tema que conectasse a todos. Talvez achássemos tal tema, que seria “ser o conjunto dos múltiplos de 2”. Mas, caso não encontrássemos, não poderíamos ficar sem definição frente a uma ameaça às fronteiras do conjunto. O que faríamos? A minha sugestão é que observemos os membros desse conjunto e tentemos perceber suas propriedades em comum. Ao fazermos isso, notamos que eles têm uma certa propriedade em comum “a propriedade de ser par”; e, dessa forma, podemos definir o conjunto, por mais que não tenhamos conseguido obter uma definição temática, em termos de propriedades em comum dos seus membros, e que os membros de outros conjuntos não têm em comum. Nesse caso, desistimos de uma definição temática, embora consigamos apreender os mesmos objetos que apreenderíamos, caso tivéssemos uma definição temática. E é isso que eu pretendia com a filosofia: abandonar a pretensão de uma definição temática – já que parece muito difícil agrupar todos os temas da filosofia num só tema – e tentar capturar a essência dos problemas filosóficos eles mesmos. Se encontramos as propriedades em comum dos problemas filosóficos, e só deles, encontramos as propriedades essenciais da filosofia.

      4 – Você disse: “As demais ciencias son utilizadas pola filosofía para construír unha cosmovisión global, pero non teñen por obxectivo esta cosmovisión global. A filosofía si ten este obxectivo”.

      Sim; a filosofia tem esse objetivo APENAS se pensada em conjunto, ou seja, só se pensarmos que a reunião das soluções de todos os problemas filosóficos juntas formariam uma cosmovisão. Entretanto, da mesma forma, as ciências (a física, a biologia, a sociologia, a psicologia etc), se pensadas em conjunto, provêm uma cosmovisão.E, sim, as ciências, tomadas em conjunto, têm por objetivo formar uma cosmovisão global. O exemplo disso é a ciência cognitiva. Ela é o caminho inverso da especialização a fim de obter uma “cosmovisão” dos problemas envolvidos com a mente. A cosmovisão não é uma propriedade essencial da filosofia; ela é algo que as ciências junto com a filosofia, todas tomadas em conjunto, objetivam formar. A filosofia pode até ser a grande contadora da estória do conhecimento científico universal, mas essa não é sua única função; ela também trata de problemas particulares, que não objetivam formar uma cosmovisão, assim como as ciências tratam. Na verdade, a sociologia também trata de problemas bastante específicos e, em muitos casos, intenta responder questões sobre como deveríamos nos organizar socialmente (parte da nossa cosmovisão – advindo do “como devemos agir”).

      Mas, tudo bem, se aceitarmos que é uma boa definição de filosofia “objetivar formar uma cosmovisão”, como faríamos para saber quais são os problemas que devem ser considerados filosóficos? – dado que muitos problemas particulares tratados atualmente pela filosofia não objetivam formar uma cosmovisão. Não adianta falar que os problemas filosóficos seriam definidos por terem implicações para uma cosmovisão, pois: (1) é usar o método para definir o problema e, segundo você, isso é inadequado, e (2) muitos problemas científicos também têm implicações para a nossa cosmovisão.

      Você disse: “De feito, a filosofía só utiliza de forma xeral e abstracta os resultados das ciencias, deixando os detalles máis concretos para as ciencias.”

      A sociologia também utiliza de modo geral e abstrato os resultados das outras ciências, para quem deixa os detalhes.

      Você disse: “Cando a filosofía trata que tipo de cousas existen, como o tempo, o espacio, a materia, etc. non o fai como a física senón que constrúe unha ontoloxía, que é algo máis abstracto ca física aínda que se apoie na física.”

      Na verdade, não só os ontologistas, dentro da filosofia, discutem problemas sobre tempo e espaço na intenção de formar uma ontologia; os filósofos da física também discutem tais problemas, mas vistos como problemas de dentro da física. Os ontologistas discutem problemas mais gerais que os filósofos da física, e os filósofos da física discutem problemas mais gerais que os físicos. Mas será que é sempre assim? O que é mais geral: pesquisar qual é a lei que rege o movimento dos corpos ou pesquisar como se estabelece a referência dos nomes próprios? Me parece que a física trataria de problemas mais gerais que alguns problemas da filosofia da linguagem.

      Você disse: “Se repasamos as disciplinas filosóficas, podemos ver que todas apuntan a este obxectivo: o escenario da realidade, o noso lugar nel e como nos relacionamos con el.”.

      Pode ser. Mas uma união de física, química, biologia e psicologia (talvez outras mais) possam apontar para o cenário da realidade. A sociologia, junto com a política (entre outras disciplinas), apontam para qual é o nosso lugar no mundo. E a sociologia, junto com a psicologia, a biologia e a neurociência (entre outras) apontam para como nos relacionamos com ele. Se uma reunião de disciplinas pode fazer aquilo que definimos como filosofia (o que não acredito que seja o caso), então nossa definição torna a filosofia redutível às outras ciências e torna seu papel superficial (o papel de unir os conhecimentos científicos).

      5 – Você disse: “Se discutimos este tema de que é a filosofía dentro dunha concepción argumentativa da filosofía está claro que non imos chegar a ningunha conclusión porque caben infinitas hipóteses ad hoc para defender a conclusión que se desexe, como vimos antes.”

      Não acredito que caibam infinitas hipótese ad hoc, pois podemos reconhecer as hipóteses ad hoc e apontá-las para aquele que as utiliza. Realmente, não sabemos se vamos obter resultados completamente definitivos numa ciência meramente argumentativa, assim como não sabemos se obtemos tais resultados nas ciências; mas a argumentação produz resultados negativos consideráveis: sabemos argumentos que não funcionam (ex: há uma causa para todas as coisas; logo, todas as coisas têm uma causa). E chegamos também a conclusões positivas, como a de que a identidade dos particulares é uma necessidade metafísica. É claro que podemos chegar às conclusões de que estávamos errados ao pensar que tais conclusões positivas e negativas eram corretas. Mas as ciências não meramente argumentativas também estão sujeitas a isso.

      Você disse: “A cuestión vaise decidir polo progreso científico que sexa capaz cada concepción de xerar. Desde o meu punto de vista, a concepción argumentativa é estéril porque sempre leva a discusión circulares nas que non se avanza nada: cada un defende a súas premisas dentro de teorías coherentes que son imposibles de derribar.”

      Vou explicar melhor porque, para certos problemas, não penso que a concepção argumentativa seja estéril e porque penso que a concepção experimental é estéril. O ponto é o seguinte: digamos que estamos fazendo física. Daí, chegamos a problemas muitos gerais, que os nossos métodos não são capazes de resolver (talvez o problema de saber se o conceito de “tempo absoluto” é inteligível e se há algo na realidade que corresponda a esse conceito). O que devem os físicos fazer, então? Quem faz não são os físicos; mas quem entram em campo agora são os filósofos da física. No entanto, não seria coerente pedir para eles fazerem experimentos para resolver os problemas, pois eles foram “chamados” justamente porque, com todas as experimentações realizadas pelos físicos, eles não foram capazes de resolver o problema. Por isso, penso que *para certos problemas*, a concepção experimental é estéril, e temos de aceitar a concepção argumentativa.

      No entanto, com relação a outros problemas, talvez os que envolvem as intuições das pessoas, não seja estéril utilizar experimentos para se certificar da verdade de alguma premissa defendida na argumentação. O problema é que esses experimentos geralmente já pertencem a outras ciências. Se houvesse um experimento que não pertencesse a nenhuma ciência e que servisse para comprovar uma tese filosófica – o que eu não acho algo impossível de haver –, ele poderia ser chamado de experimento filosófico. Não sou contra haver experimentos filosóficos (se eles forem possíveis). Mas sou contra a posição que afirma que todos os problemas filosóficos sejam desse tipo ou que os problemas filosóficos que não são desse tipo não valem a pena ser tratados.

      E não acredito que a filosofia experimental sacuda a filosofia analítica tradicional. Ela parece mais um complemento para afirmações de análise conceitual. Tem um filósofo (não lembro quem é agora) que pensa a filosofia experimental dessa forma: como uma sub-área da análise conceitual. Talvez possamos considerar dessa forma… Ainda não pensei adequadamente sobre isso, mas parece uma posição interessante.

      Um abraço,

      Cid

    2. Deixe-me explicar mais uma coisa. Eu disse: “Eu assumo que questões provisoriamente filosóficas podem utilizar métodos empíricos em sua investigação, pois essas são as questões filosóficas que, se houvesse os métodos adequados, poderiam ser tratadas de igual modo pelas outras ciências. Mas não as questões intrinsecamente filosóficas.”

      O que eu quis dizer é que questões provisoriamente filosóficas são questões que não têm método empírico para serem tratadas e que acabam sendo tratadas apenas por meio de argumentação. Mas que, como elas são tais que não é impossível de se obter um método empírico para resolvê-la, os métodos empíricos podem agora estar sendo criados e, por isso, estamos conseguindo resolvê-las por meio de métodos empíricos. O que não ocorreria com questões intrinsecamente filosóficas.

  26. Caro Rodrigo, vou responder aos poucos, ok? Começo pela sua afirmação:

    “Eu não consideraria que “qual uso as pessoas fazem dos conceitos?” seja uma questão filosófica, embora por vezes saber como as pessoas utilizam certos conceitos mostra-se importante para respondermos certas questões filosóficas.”

    Pesquisar o uso dos conceitos, como se fosse uma “pesquisa de mercado”, não é a questão que coloco em jogo. Isto é, o filósofo não vai dizer que o conceito X é P porque 80% das pessoas comuns disseram que X é P e 20% disseram que X é T. Isso não é suficiente nem necessário para responder a uma questão filosófica. Com isso, parece que concordamos, certo?

    O problema é que muitos conceitos, ou questões filosóficas, parecem depender de fenómenos que são definidos/acontecem na “esfera folk”. Vamos pegar um caso que me interessa, o da acrasia. Por exemplo, Platão (Protágoras) e Aristóteles (Ética a Nicómaco), quando formularam as bases do debate acerca da acrasia, estavam preocupados com um fenómeno que acontecia com as pessoas comuns. As pessoas diziam ter decidido fazer A e não B, mas faziam B e depois se arrependiam. Essas acções estavam ligadas sempre a questões morais. Aristóteles, por exemplo, dizia que o incontinente (acrata) tinha salvação e que o devasso não, pois o acrata decidia pelo bem, mas fazia o mal, já o devasso decidia pelo mal e fazia o mal. Claramente, a acrasia era um problema de filosofia moral. Contemporaneamente, a acrasia passou a ser um problema quase-exclusivo da filosofia da acção e, mais especificamente, de racionalidade/irracionalidade prática (na acção). Isso nos leva a consequências importantes. Por exemplo, esquecendo a compulsão inerente ao caso, um toxicodependente decide, segundo o seu melhor juízo, drogar-se. Vai ao traficante, compra a droga e no momento que vai ingeri-la entra no carro e conduz até uma clínica para desintoxicação, onde interna-se. Esse indivíduo agiu contra o seu melhor juízo. Temos que dizer que ele foi incontinente, dada a definição contemporânea (pós-Davidson) da acrasia. Claro que poderão dizer que o melhor juízo do toxicodependente estava comprometido com a compulsão, etc. Posso dar outros exemplos, pense num garoto que decide, segundo o seu melhor juízo, sair com os amigos para tomar umas cervejas, mas na hora H fica a estudar para o exame do dia seguinte. Foi, claramente uma acção acrática. Podemos pensar em coisas mais simples como P decidiu, segundo o seu melhor juízo, comer o doce X, mas acaba por comer o doce Y. Essa é uma acção acrática de acordo com o que hoje definimos como acrasia. Pergunto: não lhe parece que há alguma coisa minimamente estranha com o uso do conceito de acrasia que os filósofos utilizam? Estará esse conceito/fenómeno bem descrito pelos filósofos? Será que aquilo a que denominamos na filosofia como sendo acrasia não é simplesmente uma mudança de crença, ou uma nova decisão? Como, de facto, podemos encarar/justificar psicologicamente aquilo a que denominamos “o melhor juízo do agente, levando tudo em consideração”? Será possível identificar uma tal intenção? Será isso razoável, ou será simplesmente uma forma de descrever o fenómeno que não guarda relação com o fenómeno verificado/observado no agente real? Esse é um fenómeno/conceito/tema que claramente surgiu na filosofia através das observações dos filósofos acerca do que se passava com as pessoas comuns. Nesse sentido, Platão e Aristóteles apelam frequentemente às nossas intuições acerca das intuições das pessoas comuns quando escrevem sobre a acrasia. Por que não podemos fazer isso hoje? Por que não podemos apelar às nossas observações, sejam elas experimentais, ou não, para refinar a descrição e a definição da acrasia? Nesse caso particular, parece-me claro que não existe um fenómeno chamado acrasia que está fora do âmbito moral, isto é, não é possível falar da acrasia como um fenómeno simples de irracionalidade prática, sob pena não estarmos a tratar daquilo que, de facto, aflige o agente real. Dizer que questões psicológicas, ou mesmo práticas não são da esfera abrangente da filosofia não me parece correcto. Podemos fazer filosofia com base na argumentação e nos dados experimentais obtidos pelos próprios filósofos, sejam dados de natureza psicológica, neurocientífica, social, etc. É importante que a inteligência e a perspicácia dos filósofos estejam disponíveis para que sejam desenhados/construídos experimentos mais relevantes em termos filosóficos mais estritos ou, por exemplo, psicológicos, como vem também acontecendo.

    1. Oi, Carlos.

      Então, o que você está falando é congruente com o que eu estou falando. Você concorda comigo que a parte do experimento que consiste na simples pesquisa de opinião não é filosofia. A filosofia será o que será argumentado com ou a partir de os dados obtidos. Eu não penso que o filósofo utilizaria seus dados para falar que o conceito X é P; ele os utilizará para o tratamento de algum problema filosófico.

      Mas a minha objeção não é que o tratamento dos dados não seja filosófico, mas que a obtenção dos dados não é filosófica; ela é sempre alguma forma de pesquisa de outra área científica. Podemos inserir tais pesquisas como uma parte empírica da filosofia, mas haverá então duas ciências que estudariam as mesmas coisas; não há grandes problemas nisso. Um filósofo pode fazer uma pesquisa sociológica para utilizar o resultado em alguma argumentação que ele queira fazer sobre organizações sociais. Contudo, a pesquisa sempre será sociológica; embora o filósofo continuará sendo filósofo enquanto tratar de problemas filosóficos.

      Mas se em vez de apenas utilizar os resultados desses experimentos, ele começa a se perguntar, por exemplo, sobre os processos internos que promovem as respostas, daí chegamos num impasse: (a) se estivermos nos perguntando algo sobre qual processo DEVE fazer parte da promoção da resposta, estaremos nos perguntando algo sobre possibilidades e impossibilidades com relação aos processos que fundamentam as respostas e, portanto, estaríamos fazendo filosofia; (b) mas, se nos perguntamos quais são os processos que de fato influenciam na resposta – como tipo de cultura, educação etc – estaríamos mais no campo de uma investigação psicológica ou sociológica.

      Eu entendo e concordo com você que certos experimentos podem ser muito úteis à filosofia, e também acredito que os filósofos devem estar preparados para realizar experimentos científicos. Pois não vejo nenhum mal em um filósofo se utilizar de todos os meios possíveis para defender ou atacar uma tese filosófica ou algum argumento. Se é o filósofo que faz os experimentos ou outro cientista, isso pouco importa; o que importa é a questão sendo tratada.

      O que me parecia até pouco tempo era que qualquer experimento que fizéssemos seria um experimento de outra ciência. Mas talvez haja experimentos que só seriam realizados pela filosofia. Por exemplo: que outra ciência estudaria se as intuições das pessoas é de que as contradições são diluídas na parte profunda do discurso? Acho que o mais plausível é pensar como Thomas e Eddy (ou como Edouard parece interpretá-los – ver tradução a ser publicada “O que estão fazendo os filósofos experimentais?”), e acreditar que a filosofia experimental é uma área da análise conceitual, chamada por eles de “análise experimental”. Se esse for o caso, então não vejo diferenças com a filosofia analítica (pois a vejo como um ramo de uma sub-área da filosofia analítica), a não ser a realização dos próprios experimentos (os filósofos analíticos – pelo menos alguns deles – utilizariam os resultados de experimentos obtidos por outros cientistas). E não penso que a realização ou não dos próprios experimentos seja um fator relevante na distinção entre filosofia analítica e filosofia experimental.

      Por isso, posso concordar que filosofia experimental seja filosofia, caso (a) esteja tentando responder problemas filosóficos, e não psicológicos, físicos, sociológicos etc; e (b) seja uma área da análise conceitual.

      Um abraço,

      Cid

  27. Luis Ledo · · Responder

    Ola Rodrigo,

    1) Posición argumentativa
    Penso que a defensa do carácter argumentativo da filosofía é algo que pode defenderse coherentemente porque é posible dicir
    a) que é filosófico todo o argumentativo e
    b) que é científico, e polo tanto non filosófico, todo o que é empírico.

    Pero que non se sexa incoherente coas definicións propias non quere dicir que sexan as máis axeitadas. Por exemplo, non comparto o feito de que a pregunta acerca da existencia dun tempo absoluto sexa unha cuestión de filosofía da física; para min é claramente unha cuestión para a física; isto pode verse en que trata unha cuestión que pertence ás teorías sobre a realidade física e non sobre o que fan os físicos, a súa metodoloxía, etc. A física é de primeiro nivel: trata sobre a realidade física; a filosofía da física é de segundo nivel: trata sobre a física como actividade, a seu método, os seus obxectivos, etc. A pregunta sobre un tempo absoluta é claramente de primeiro nivel.

    Pero é evidente que se se define a filosofía como argumentativa, non cabe máis remedio que dicir que unha argumentación sobre o tempo é filosofía e non física. É o coherente, pero está a forzar un tanto o sentido das cousas.

    Dada a posición argumentativa (1) expresada nos puntos (a) e (b), chégase á conclusión de que calquera experimento empírico non é filosófico senón científico. É a conclusión coherente, pero, desde o meu punto de vista, é algo forzado e innecesario.

    O exemplo da referencia dos nomes propios paréceme interesante. Se se defende que o obxecto da filosofía é a realidade como un todo co obxectivo de construír unha cosmovisión que dea o escenario da realidade, o noso lugar nel e a forma de relacionarnos con el, non está claro que o problema da referencia dos nomes propios encaixe inmediatamente neste esquema. Pero ¿que fai que a referencia dos nomes propios sexa un problema filosófico e non un lingüístico? Para min, está claro que é un problema filosófico porque se trata dun problema epistemolóxico, da nosa relación cognitiva coa realidade. Cando falamos e utilizamos un nome propio, é importante saber a que nos estamos a referir por motivos epistemolóxicos: non é un problema lingüístico senón claramente de cal é a nosa vía de acceso a realidade. Se estamos a construír unha cosmovisión da realidade é non temos claro cal é o referente dun nome que utilizamos, é evidente que o problema non é lingüístico senón claramente filosófico.

    Cando defendo esta concepción da filosofía non estou pensando só nos experimentos senón no método hipotético-dedutivo: observación, hipótese, dedución, contrastación. Creo que este método é efectivo na construción de coñecemento nas ciencias e que a filosofía ten que utilizalo se pretende ofrecer coñecementos. Polo tanto non ten sentido preguntar que experimento sería un experimento filosófico: a ciencia non funciona a golpe de experimentos senón gracias ó método hipotético-dedutivo, centrado en torno á imaxinación de hipóteses de traballo acertadas. O contrario representa unha visión pobre e reduccionista do que é a ciencia.

    Cando digo que a argumentación é estéril para resolver problemas, non estou dando unha posibilidade teórica; na miña experiencia filosófica, a maioría dos problemas, por non dicir todos, son xenerados porque non se aceptan as premisas da posición contraria. O único que pode facer a argumentación é mostrar se unha hipótese é coherente ou incoherente. E aínda neste caso cabe defender que a lóxica que se utiliza para demostrar a incoherencia non é a correcta e propoñer outra distinta.

    Resumindo: a concepción argumentativa da filosofía non é algo que podamos negar pola súa incoherencia; pero resúltame moi artificial o recurso ó método argumentativo como definición e paréceme moito máis natural definila desde o seu obxecto de estudo, a construción dunha cosmovisión que integre o escenario da realidade, o noso lugar nel e as nosas relacións con el.

    Un abrazo,
    Luís Ledo

    1. Oi, Luís.

      Eu posso concordar que é mais natural tentar definir a filosofia pelo seu tema de estudo. Eu nunca consegui encontrar em tema unificado para toda a filosofia. Mas posso tentar seguir com você. O problema que me parece haver em sua definição é que se conseguimos contar o problema da referência como algo que seja uma parte epistemológica da cosmovisão, então não entendo por que também não contaríamos também alguma parte da sociologia e da psicologia. Estas últimas também parecem falar algo de muito importante sobre a nossa cosmovisão. Acredito que se você quiser manter uma noção de filosofia obtida pelo tema geral de estudo, você precisará ser mais especifico, não deixando haver espaço para que outras ciências possam ser contadas como filosofia.

      E, gostaria de deixar algo claro: não sou contra a visão de que a filosofia possa ser inserida no método hipotético dedutivo. Na verdade, quando pensamos no método hipo-dedut como observação, hipótese, dedução, e contrastação, não vejo porque não poderíamos pensar a filosofia como utilizando tal método, assim como as ciências. Com certeza, a filosofia pode ser pensada como hipotética-dedutiva. O que me parece é que sua contrastação será argumentativa. Mas ando pensando mais; e concordo que possa haver experimentos que não seriam realizados por outra ciência que não a filosofia.

      Eu posso me despir de minha concepção argumentativa para pensar na sua concepção de que o objeto da filosofia é

      “a realidade como un todo co obxectivo de construír unha cosmovisión que dea o escenario da realidade, o noso lugar nel e a forma de relacionarnos con el”.

      Mas essa concepção é por demais abrangente. Muitas ciências ajudarão em partes dessa cosmovisão e deverão ser contadas como filosofia. Você deve traçar uma distinção que exclua outras ciências de contar como filosofia.

      Um abraço,

      Cid

  28. Olá queridos amigos! Durante algum tempo, não pude mais acompanhar a vossa discussão. Antes de começar a ‘arcar com’ meus comentários, em detrimento da discussão que iniciamos, gostaria de fazer alguns comentários sobre a filosofia experimental.
    Naquele texto “O que é filosofia experimental?”, de Knobe, podemos perceber que uma motivação deste novo tipo de filosofia é mostrar que alguns filósofos apresentam algo como certezas intuitivas que seriam comuns, ou seja, que seriam partilhadas pela maioria das pessoas em âmbito ordinário, mas de fato não o são. Um método empírico de investigação sobre as intuições das pessoas em geral diante de alguma situação hipotética se faz necessário, a fim de que se diga corretamente qual é a atitude epistêmica comum diante de determinada situação (como aquela de Kripke relativa a Schmidt e Gödel). Muito bem, até aqui não temos exatamente uma filosofia, mas uma metodologia que produz resultados seguros, expressos em afirmações sobre noções intuitivas e gerais. Isso se torna pertinente à filosofia propriamente dita quando percebemos que o resultado desta pesquisa pode ser usado para argumentos filosóficos, desta vez com uma margem maior de segurança e justificação. Isso eliminaria a cesura que há entre o que o filósofo diz ser intuitivo e comum e o que é de fato intuitivo e comum (‘folkway knowledge’ diria algum epistemólogo americano).
    Bem, agora se há uma filosofia sobre o método empírico para verificação de qual é a atitude geral e intuitiva das pessoas diante de determinada situação hipotética, então temos uma filosofia da ciência, ou mais propriamente, uma filosofia que trata de uma metodologia científica. Trata-se, neste caso, de uma meta-análise, e pelo texto de Knobe não acho que é isso que ela tenha em mente.
    Tudo isso me leva à conclusão de que há algum equívoco aqui: ainda não há algum argumento mostrando que há uma filosofia experimental. Tudo o que há até agora é a inserção de um método científico à praxis do filósofo, a fim de que este use os resultados desta pesquisa para a argumentação filosófica. Este é o tipo de confusão que se gera quando identificamos ciência e filosofia, e chego a ver aqui alguma possibilidade de serem levantados os famosos pseudo-problemas.
    Luis Ledo enfatiza que não concorda com uma distinção de natureza entre filosofia e ciência. Neste caso, Luis Ledo precisa explicar, talvez em primeiro lugar, porque está usando dois nomes diferentes. Isso não quer dizer, a rigor, que ele esteja em contradição: ele pode estar usando dois nomes somente a título organizacional. Mas a problemática pode ser organizada em torna de dois tópicos substanciais: o objeto e o método. Segundo Luis Ledo o objeto da filosofia é a realidade como um todo e o método da filosofia é o método da ciência (usado, talvez no tempo t1, t2,… tn). Em primeiro lugar, a concepção de que o objeto da filosofia é a realidade como um todo pode parecer correta se entendida normativamente. Mas algo distinto ocorre quando vemos a filosofia de forma descritiva. O objeto da filosofia é então os conceitos. Quando perguntam sobre o que é o conhecimento, a análise do filósofo é uma análise do conceito de conhecimento. É claro que não deve haver uma estrita separação entre conceitos e classes, ou entre proposições e fatos, mas podemos perceber a diferença entre tomar um e outro como objeto de estudo. Um exemplo: aventa-se a diferença entre antropologia científica e filosófica. Vamos dizer que o antropólogo cientista em questão seja um bioquímico, além de levantar dados sobre a cultura. Este pesquisador analisa indivíduos particulares, e elementos deste indivíduo, tal como seu código genético. Ou seja, este cientista ocupa-se não da propriedade da humanidade, ou do conceito de homem, mas sim da classe dos humanos. Mais propriamente, o cientista se ocupa de membros desta classe. O filósofo se ocupa então da propriedade da humanidade, de um conceito, e tenta fornecer as condições necessárias e suficientes para este conceito, ou seja, indentifica-o com alguma descrição semântica.
    A ciência se ocuparia da classe dos humanos, enquanto que a filosofia se ocuparia da propriedade da humanidade, ou do conceito de humano. Mas tudo isso pode soar muito rígido. Os dois objetos não estão separados por muros intransponíveis: os antropólogos podem se ocupar tanto da classe dos humanos, como da propriedade da humanidade, inclusive em uma única pesquisa.
    No entanto, sabemos ao menos que filósofos têm uma intenção diferente daquela do cientista quando se debruçam sobre a questão do humano. Porque podemos apontar que a pretensão de universalidade das antropologias científicas é um erro? Como analisamos este ‘erro’ conforme a nossa discriminação? Ora, uma vez que as antropologias científicas se ocupam da classe dos humanos, ou mais propriamente, de alguns membros desta classe, elas têm como objeto algo contingente e mutável no tempo e no espaço. Estas antropologias contam com métodos de pesquisa empírica, e os dados que elas colhem são sempre parciais. Isso quer dizer: elas nunca dispõem de toda a classe dos humanos e de todas as propriedades que os membros desta classe apresentam, nas mais variadas épocas e lugares. O pesquisador realiza processos de indução, e deste processos depende boa parte de suas teorias. Assim, para que estas antropologias filosóficas tenham condições de revelar qual é a essência do humano, para que tenham condições de responder à pergunta ‘o que é o humano’, elas precisam acompanhar a totalidade dos humanos, o que é impossível. Esta impossibilidade é questionável, mas temos boas razões para crer que, ao menos atualmente os cientistas não têm condições de retroceder no tempo e observar as gerações mais antigas da humanidade. Tudo isso porque o objeto das antropologias é a classe dos humanos, sendo isso uma forma reduzida de dizer que elas se ocupam de sub-classes desta classe. O cientista não pode ter esta classe inteira diante de si.
    Isso tudo nos mostra que há sim uma diferença entre ciência e filosofia. Vou ter de deixar este post agora, em seguida, conversamos mais. Um grande abraço a todos!

  29. assinar post acima: Luis Rosa

    1. Oi, Luís Rosa.

      Concordo com você. Como eu falei no comentário para o Carlos Mauro, parece que se a filosofia experimental for vista como uma parte da análise conceitual, então ela pode existir como filosofia. Se ela só quer testar as intuições dos filósofos (ou o que os filósofos falam que são as intuições das pessoas), não parecerá um problema tomá-la como “análise experimental”.

      Um abraço,

      Rodrigo Cid

  30. Luis Ledo · · Responder

    Ola Luís Rosa,

    Non comparto a idea de que o obxecto da filosofía sexan os conceptos. Pódese dicir case o mesmo que coa definición de filosofía baseado no método argumentativo.

    a) Os conceptos son algo instrumental, o verdadeiro obxectivo é sempre a resolución dalgún problema substancial.

    b) Outras ciencias tamén analizan conceptos; por exemplo, a física analizou os conceptos de tempo e espazo absolutos na teoría da relatividade, e os de causalidade e determinismo na teoría cuántica, etc.

    c) A filosofía non é só análise conceptual; por exemplo a ontoloxía emerxentista e materialista de Mario Bunge non é análise de conceptos senón a proposta dun modelo teórico para representar a realidade do que existe. Isto é o que se da na maioría dos casos; así, cando un pregunta pola referencia dos nomes propios non está facendo análise conceptual senón intentando construír unha hipótese viable que sirva de modelo ó que se da no uso lingüístico e que represente esa realidade.

    Non comparto tampouco que a pregunta filosófica sobre o coñecemento se reduza a unha análise do concepto de “coñecemento”; o que está en xogo é cal é o noso acceso a realidade e cal é a súa fiabilidade. Esta é unha cuestión empírica e non conceptual: non se trata de ver que entendemos por “coñecemento”, senón de ver ata onde é fiable o coñecemento tendo en conta a relación na que nos encontramos respecto ó mundo.

    Un cordial saúdo,
    Luís Ledo.

  31. Luis Ledo · · Responder

    Ola Rodrigo,

    1) Habería que dicir que o feito de que se utilicen datos doutras ciencias na actividade X non quere dicir que X non poida ser tamén unha ciencia. En realidade, isto ocorre en tódalas ciencias: a química utiliza datos da físicas; a bioloxía, datos da física e da química; a socioloxía, datos da psicoloxía; e así para todas as ciencias. A filosofía non é a excepción, como se pode ver. Do mesmo xeito que un psicólogo pode utilizar datos bioquímicos do cerebro para facer psicoloxía, un filósofo pode utilizar datos da física, da bioloxía ou da psicoloxía para facer filosofía.

    2) Unha ciencia consiste nun determinado enfoque sobre a realidade, pero o feito de que a perspectiva sexa distinta desde o punto de vista de cada ciencia non implica que toda a realidade non estea diante dela. E, o revés, o feito de que toda a realidade estea diante de cada ciencia, non impide que cada unha teña unha perspectiva diferente dentro da cal selecciona o que lle interesa e o que non. Polo tanto existen dous factores a ter en conta cando fixamos o obxecto de estudio dunha ciencia:

    a) que parte da realidade estudamos e

    b) desde que perspectiva a estudamos.

    Por exemplo, cando a física estuda a gravitación, dálle igual que se trate dunha pedra ou dun ser vivo, porque abstrae só as propiedades que lle interesan.

    3) A filosofía é unha ciencia moi abstracta porque só lle interesan as propiedades máis xenéricas das cousas que existen e non as máis concretas, que estudan outras ciencias. Por exemplo, un matemático estuda os números e a xeometría, pero un filósofo pregúntase se os números ou o teorema de Pitágoras teñen existencia obxectiva independente das persoas. A un filósofo non lle interesa o contido das verdades matemáticas, pero si que tipo de realidade son: se son autenticamente reais como dicía Frege, ou se non o son, como parece máis razoable.

    4) Penso que os puntos anteriores poden servir de resposta ó plantexado: “Você deve traçar uma distinção que exclua outras ciências de contar como filosofia”. É certo que a física trata de toda a realidade, pero só o fai desde unha perspectiva moi concreta: cinemática, dinámica, forzas, enerxías, etc. A filosofía trata toda a realidade, pero só cun obxectivo máis abstracto: que cousas existen (obxectos materiais, entes vivos, consciencias, etc. ), como están relacionadas, etc. Utiliza a física para abstraer a existencia de corpos materias, a física para abstraer os entes vivos, a psicoloxía para abstraer a existencia de mentes, etc.
    Pero nin a filosofía pretende resolver cuestións técnicas relativos a estas cousas (como o feito de ver como funciona exactamente a selección natural nos seres vivos, cuestión que deixa para a bioloxía), nin as ciencias máis concretas pretenden presentar un modelo xeral de toda a realidade (cousa que fai a filosofía a partir da abstracción dos datos desas ciencias).

    Un moi cordial saúdo,
    Luís Ledo.

    1. Rodrigo Cid · · Responder

      Oi, Luis.

      Que bom! Vejo que concordamos em muitos pontos.

      – Concordo inteiramente com o que você disse em 1.

      – Não tenho problemas com relação a 2.

      – 3 é uma saída interessante. Mas ainda é difícil estabelecer um critério que indique quando conseguimos ser “gerais o suficiente” para estarmos fazendo filosofia. E também me parece complicado pensar adequadamente uma “graduação de generalidade” possível de ser aplicada para cada comparação entre problemas. No caso das comparações que você fez, está claro quais são os problemas mais gerais; mas acredito que isso não será claro para todos os casos e nem para a maioria dos casos.

      – Dado a dificuldade em 3, ainda penso que a definição ou caracterização está um tanto abrangente ou imprecisa. A filosofia tratar de “toda a realidade visando saber de modo abstrato que coisas existem e como elas se relacionam” talvez esteja perto de uma caracterização; mas ainda é difícil saber o que é precisamente “de modo abstrato”. Será que a psicologia já não é a abstração da “mente” para poder pensá-la em suas estruturas? E pensar nas relações dessas estruturas mentais seria mais ou menos abstrato que pensar um problema de consistência de uma tese da filosofia da biologia? E o de filosofia da biologgia é mais ou menos geral que o de filosofia da matemática? Seria, então, a filosofia da matemática filosofia, e a filosofia da biologia não? Ainda estou receoso com relação ao “abstrato” e suas gradações. Este caminho para promissor, mas precisa de mais polimento.

      Um grande abraço,

      Rodrigo Cid

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