Akrasia: Conceito Popular X Conceito Filosófico

Carlos Mauro

Eu e a Susana Cadilha estamos trabalhando juntos num experimento sobre akrasia. Coloco aqui um breve resumo para que possam comentar.

Com esse experimento, pretendemos discutir as possíveis diferenças entre os conceitos popular e filosófico de akrasia.

Na filosofia da acção (principalmente a partir de Davidson) a akrasia é comummente caracterizada como uma acção (intencional e livre) que o agente leva a cabo contra o seu melhor juízo. Esse melhor juízo é fruto das crenças e dos desejos do próprio agente – num processo em que este leva em consideração todos os elementos relevantes. Isso significa que, em princípio, a irracionalidade na acção/agente só poderia ser determinada a partir de uma inconsistência entre a acção e o conjunto de crenças e desejos do próprio agente.

No entanto, parece-nos que o conceito popular de fraqueza da vontade (akrasia) é bastante diferente. A nossa hipótese experimental é de que as pessoas comuns consideram acráticas as acções que contrariam um juízo ordinário (moral/senso comum) e não o juízo do próprio agente. Assim, o sentido moral de uma acção é levado em consideração pelas pessoas comuns quando indicam se um agente agiu, ou não, acraticamente.

Para aproveitarmos, da melhor maneira possível, os comentários a este post, gostaríamos também que pudessem nos dizer quais seriam as consequências filosóficas de um experimento como este. Há consequências relevantes, ou não? Se há, quais seriam? Se não há, onde está o erro?

O experimento será realizado a partir de um método chamado “experimento simples” (em outros posts pretendo escrever sobre esse método). Resumidamente, construímos duas situações: uma para um grupo de controle e outra para um grupo experimental. Para o GC entregamos uma situação na qual há uma acção acrática, tanto no sentido da filosofia da acção, como no sentido popular. Para o GE entregamos outra situação na qual o agente leva a cabo uma acção acrática no sentido da filosofia da acção, no entanto,  as pessoas não a identificação como acrática porque é moralmente positiva num sentido ordinário.

Fizemos uma série de testes para medir a adequação do experimento ao problema e também para verificar se os termos utilizados eram adequados ao público leigo.

O conjunto de testes revelou que as primeiras versões não utilizavam um vocabulário, de facto, popular. Para adequar alguns termos mais técnicos, tivemos que “traduzir” tais conceitos para uma linguagem popular.

Abaixo, estão as situações já reformuladas, depois dos testes. O experimento ainda não foi realizado – isso acontecerá brevemente. Por isso, pedimos a todos que façam comentários para melhorarmos esse experimento.

Situação 1 (Grupo de Controle)

João é um assassino profissional.

João decidiu, considerando todos os aspectos, que, no dia seguinte, iria procurar um emprego diferente, que não envolve violência.

No dia seguinte, João não procura o tal emprego diferente e mata mais uma pessoa por dinheiro.

Afirmação:

A fraqueza da vontade é a ideia que melhor define a acção de João.

Discordo Completamente     Neutro     Concordo Completamente
-3 -2 -1 0 1 2 3

Situação 2 (Grupo Experimental)

João é um assassino profissional.

João decidiu, considerando todos os aspectos, que, no dia seguinte, iria matar mais uma pessoa por dinheiro

No dia seguinte, João não mata mais uma pessoa e procura um emprego diferente, que não envolve violência.

Afirmação:

A fraqueza da vontade é a ideia que melhor define a acção de João.

Discordo Completamente     Neutro     Concordo Completamente
-3 -2 -1 0 1 2 3

Os resultados até agora obtidos são consistentes e nos levam a aceitar a hipótese experimental, aqui colocada em termos não formais: “as pessoas comuns consideram akrasia as acções que contrariam um juízo ordinário (moral/senso comum) e não o juízo do próprio agente – os elementos morais de uma acção são levados em consideração pelas pessoas comuns quando indicam que um agente agiu, ou não, acraticamente”.

Resultados:

Na primeira situação (controle), 77% das pessoas consideraram que houve akrasia, em conformidade com a teoria da acção em questão.

Na segunda situação (experimental), 78% das pessoas consideraram que não houve akrasia, em discordância com a teoria da acção em questão.

Obs.: Pensamos, ainda, em modificar a expressão “fraqueza da vontade” por “força de vontade”. Poderíamos, imaginamos, captar o mesmo fenómeno utilizando uma linguagem ainda mais popular. Ainda não temos uma opinião definitiva sobre isso. Por essa razão, esperamos também os seus comentários.

15 comentários

  1. João Santos · · Responder

    Carlos Mauro:

    Gostaria apenas de mencionar um aspecto que poderá ter alguma relevância: a opção 0. Ainda que a escala utilizada não seja especificamente uma escala de Likert no sua concepção mais usual, o principio mantém-se. Assim sendo, gostaria de mencionar que retirar a opção 0, o efeito de neutralidade, poderá trazer resultados mais interessantes pois irá permitir que os inquiridos se posicionem em função da questão colocada. Digamos que permite que o “voto” nulo seja eliminado. Desse modo, todos aqueles que responderem às situações colocadas, terão que tomar uma opção, decidir por um caminho, ficando em aberto, para análise, apenas o grau da decisão (isto em função da escala já determinada). Claro está que obriga a uma decisão sendo esse o aspecto negativo da exclusão do efeito de neutralidade.
    Aproveito para mencionar que este blog é muito interessante e está a abrir novos horizontes nas minhas ainda muito limitadas reflexões filosóficas. É sem dúvida uma oportunidade de crescimento.

    1. Caro João, muito obrigado pelo comentário. Espero que possamos continuar essa conversa ao longo do tempo.

      Pretendemos que a opção (0) possa servir para identificarmos possíveis erros de compreensão. Isto é, se tiramos o (0), teremos que incluir no cálculo, no mínimo, (-1) ou (+1) referentes às pessoas que responderiam (0). Isso tornaria os resultados menos transparentes. Pergunto: qual a sua opinão sobre isso?

      Essa escala de concordância é comum, mas penso se não seria melhor uma a escla de Likert como é usual, com 5 opções, incluído o (0). Temo não captar as variações possíveis.

  2. Olá Susana, olá Carlos,

    parabéns pelo Blog e pela experiência que desenvolveram.

    Deixem-me, no entanto, sugerir-lhes uma explicação alternativa para as “pessoas comuns” se inclinarem mais para uma acção não acrática na situação 2:

    pode ser que essas “pessoas comuns” não estejam a pensar no plano hipotético/teórico em que pensam os “filósofos da acção”, nem conhecem o significado dos termos da teoria da acção mencionada. Quando as pessoas comuns lêem os termos da situação 2 “considerando todos os aspectos”, fazem-no num plano real/pragmático em que normalmente ninguém “considera todos os aspectos.”

    Ou seja, os termos “considerando todos os aspectos” são demasiado vagos para quem não conheça a teoria da acção do Davidson e, como tal, não tem em conta o seu significado “davidsoniano” quando decide se uma acção (como a da situção 2) é acrata ou não.

    As “pessoas comuns” pensam de forma comum, e neste caso pensam certamente que matar alguém ocasionalmente é mais fácil que arranjar um emprego (isto do ponto de vista de um assassino profissional, claro). Logo, quando um assassino profissional arranja um emprego não está a ser acráta, está a fazer algo contrário à sua natureza de assassino.

    A situação 1 apresentada ao grupo de controlo é uma acção acrata desde o ponto de vista dos “filósofos da acção” e também desde o ponto de vista das “pessoas comuns”. Está de acordo com as suas intuições mais básicas acerca de crime/fácil e trabalho/difícil.

    Já o desacordo do Grupo Experimental da situação 2 em relação à teoria da acção (ou seja, o desacordo entre as “pessoas comuns” e os “filósofos da acção”) poderá estar apenas, como disse, num desconhecimento do significado e alcance dos termos “considerando todos os aspectos”, da teoria da acção por parte das pessoas comuns e não numa noção de akrasia enquanto acção contrária a um juízo moral ou de senso comum.

    Uma experiência alternativa em que, numa situação semelhante à situação 2, fosse explicado às pessoas o que realmente os “filósofos da acção” pretendem dizer com os termos “considerando todos os aspectos”, confirmaria certamente a minha ideia.

    Experimentem fazer uma outra experiÊncia em que se troca os termos “considerando todos os aspectos” nas duas situações (1 e 2) por “tendo em conta a sua vontade” (termos diferentes que, se não me engano, exprimem a mesma proposição na teoria do Davidson).

    Dessa forma estariamos a anular a variável “desconhecimento do significado e alcance dos termos da teoria da acção por parte das pessoas comuns” (uma vez que “tendo em conta a sua vontade” é bem mais “comum”) e tiraríamos a limpo se realmente as pessoas comuns consideram acções acratas aquelas acções que contrariam juizos morais e de senso comum, ou se simplesmente não conhecem a teoria da acção davidsoniana.

    Julgo que se fizermos essa alteração nos termos das situações apresentadas, o desacordo será muito menor. Nessa caso a única coisa que ficará provado é que as “pessoas comuns” não conhecem a teoria do Davidson (ou pelo menos não conhecem alguns termos fundamentais da teoria da acção do Davidson), e não vejo em que é que isso é interessante, ou em que é que é pertinente.

    abraços,

    Tomás

    1. Tomás,
      Obrigado pelo comentário.

      Parece-me ter mais sentido começar a lhe responder pelo final (do seu comentário).

      Você diz: Nesse caso a única coisa que ficará provado é que as “pessoas comuns” não conhecem a teoria do Davidson (ou pelo menos não conhecem alguns termos fundamentais da teoria da acção do Davidson), e não vejo em que é que isso é interessante, ou em que é que é pertinente.

      Você associa directa e exclusivamente a teoria da acção ao filósofo Donald Davidson. Essa é uma associação precipitada e incorrecta. Davidson é um autor fundamental na teoria da acção contemporânea, principalmente se ficarmos circunscritos à filosofia analítica, mas é um dos muitos filósofos que investigaram a acção humana (A. Mele, J. Broome, H. McCann, M. Bratman, GF Schueler, entre muitos outros). Quando refiro-me ao conceito de akrasia (pós-Davidson), refiro ao que é básico e minimamente consensual entre os filósofos que trabalham nessa área. Para grande parte desses filósofos, a akrasia é um fenómeno que se desenvolve nas pessoas comuns da maneira que eles o descrevem. Portanto, a akrasia não é uma questão de possibilidade lógica apenas e sim uma questão que original e contemporaneamente está ligada ao agente real. Os exemplos que são dados, apelam sempre as famosas intuições acerca das intuições das pessoas comuns. A akrasia como problema filosófico só tem alguma importância porque nós seres humanos (mesmo que filósofos) queremos saber porque em alguns momentos as nossas intenções mais fortes parecem falhar, isto é, não nos levam à acção. A questão é: do que estão os filósofos a falar quando falam de akrasia? Será que o fenómeno que tratam existe, nos termos que actualmente são definidos pela filosofia? A nossa hipótese é que não. Entenda, não queremos saber a opinião das pessoas acerca das teorias filosóficas, nem queremos dizer que as pessoas, em grupo, nos darão respostas sobre esse problema filosófico. Os resultados dos experimentos funcionam como inputs/dados para o filósofo fazer filosofia. Queremos verificar se o fenómeno a ser estudado é aquele descrito intuitiva e tecnicamente por boa parte dos filósofos, além de clarificar o problema filosófico de forma a defini-lo nos termos que poderá ser tratado. A nossa hipótese é que o problema da akrasia é um problema moral e não um problema essencialmente ligado à irracionalidade prática. Isso parece-nos muito relevante, não? Posso assim dizer que a akrasia é algum tipo de acção com um sentido moral negativo, mas sem implicar que é uma acção irracional.

      O que você propõe no fundo, quando diz que a não conformidade das pessoas comuns às intuições filosóficas acerca de fenómenos que acontecem com as pessoas comuns é pouco interessante, é um tipo de filosofia que não é analítica nem continental (para utilizar expressões comuns), mas é algum tipo de filosofia esotérica……isto é, uma filosofia que pressupõe que os filósofos produzem crenças acerca do mundo a partir de variáveis exógenas ao próprio mundo, que venham talvez de alguma “energia cósmica”, ou então de uma “energia interna conectada ao universo à qual podemos através da introspecção conhecer”, por exemplo. É isso que propõe? Acho que não. Se não é, podemos dizer que a sua não percepção é fruto de alguma ingenuidade filosófica.

      Raciocine criticamente: os filósofos apelam frequentemente, quando produzem argumentos, às intuições das pessoas acerca de casos específicos, utilizando-as nas justificações das verdades das premissas. Se essas intuições fazem parte do argumento que leva o filósofo a uma teoria (por exemplo, a teoria da acção) percebemos facilmente porque testar essas intuições é algo extremamente relevante.

      Como entrou no blog e comentou, somos levados a supor que tenha interesse na x-phi. Sendo assim, sugerimos a leitura de alguns textos, como: o Manifesto que, apesar de não revisado, poderá lhe dar mais e melhores pistas acerca da relevância dos experimentos. (ver em traduções).

      Sobre o resto do comentário, quando diz:
      (1) pode ser que essas “pessoas comuns” não estejam a pensar no plano hipotético/teórico em que pensam os “filósofos da acção”, nem conhecem o significado dos termos da teoria da acção mencionada.
      (2) Quando as pessoas comuns lêem os termos da situação 2 “considerando todos os aspectos”, fazem-no num plano real/pragmático em que normalmente ninguém “considera todos os aspectos”

      O que você escreveu dá-nos bons elementos para o debate/clarificação. Ref(1): Não queremos saber se as pessoas concordam com os filósofos, ou se concordariam, caso soubessem o que pensam os filósofos. Queremos “descobrir” qual é o uso comum do conceito numa linguagem ordinária. Supomos que o fenómeno akrasia só se dá no plano real (para utilizar um termo seu). Isto é, é no agente comum que vamos encontrar “o fenómeno em acção”. Ref(2): É por acharmos que as pessoas não consideram todos os aspectos e que não reconhecem/produzem algo como “o melhor juízo” é que fazemos o experimento. Vocà mesmo disse que as pessoas num plano real não “consideram todas as coisas”. Se isso é verdade, eu pergunto: Qual é o interesse e a pertinência do conceito filosófico que assume que isso é possível, mesmo que seja como um recurso argumentativo?

      Quando você diz:
      (3) As “pessoas comuns” pensam de forma comum, e neste caso pensam certamente que matar alguém ocasionalmente é mais fácil que arranjar um emprego (isto do ponto de vista de um assassino profissional, claro). Logo, quando um assassino profissional arranja um emprego não está a ser acráta, está a fazer algo contrário à sua natureza de assassino.

      Exacto, as pessoas comuns pensam de forma comum e o fenómeno da akrasia só tem importância e relevância porque acontece com as pessoas comuns e não com os filósofos. Há uma observação a se fazer sobre o que você chama “natureza assassina”, não dizemos que o assassino tem uma “natureza assassina”, o que está em jogo é a intenção de João (crença + desejo).

      Por fim, agradeço a sua sugestão para utilizarmos “tendo em conta a sua vontade”. A “vontade” é um conceito que não reflecte a ideia de que o agente produz o melhor juízo a partir do seu próprio conjunto de crenças e desejos, considerados os aspectos relevantes. A vontade seria associada directamente ao desejo e isso sim poderia desviar a compreensão da questão.

      Enfim, é uma resposta limitada pelo tempo, mas estou disponível para continuar o debate por aqui. Espero que possamos fazer isso.

  3. Susana e Carlos,

    outra experiência que poderia provar que as pessoas não acham que “fraqueza da vontade” seja um juízo contrário a um juízo moral:

    Situação 1 – O João (assassino profissional)é contratado para matar alguém e não o faz porque decide ficar a dormir até mais tarde.
    Pergunta-se às pessoas se consideram que é a akrasia ou os escrúpulos morais que explicam a acção do João (julgo que a maioria das pessoas comuns escolheria a 1ª opção).

    Situação 2 – O João (assassino profissional)é contratado para matar alguém e não o faz porque falou com um padre e passou a considerar moralmente errado o assassinato a soldo.
    Pergunta-se às pessoas o que influenciou aqui o João e certamente elas responderão que foram os escrúpulos morais.
    Julgo que (a confirmarem-se estes resultados) ficaria bem claro que as pessoas comuns não consideram que uma acção akráta é uma acção contra os juízos morais, pois em ambas as situações, para a mesma acção (não matar) distinguem dois motivos diferentes: akrasia num, juízo moral noutro.
    Em ambas as situações são motivos do próprio agente que o levam a não matar. No entanto são dois motivos diferentes.

    abraços,

    Tomás

    1. Na proposta para a situação 1, você pressupõe duas coisas: (a) “decidir dormir até mais tarde” quando se é contratado para algum trabalho é uma decisão/acção que não tem sentido moral, isto é, as pessoas comuns não pensariam em aspectos morais nessa situação; (b) parece associar a akrasia a um desejo/apetite do corpo como “dormir até mais tarde (esse pressuposto não tem consequências aqui, mas é importante saber que a akrasia não tem relação com tais apetites, pelo menos, segundo a teoria da acção referida na minha resposta anterior).

      A pergunta a ser feita para as pessoas não pode ser feita como sugere. A única forma, metodologiamente confiável, é utilizar uma escala de concordância (a mais comum Likert, ou algo próximo, como é o nosso caso). Isto é, afirmamos e medimos a concordância das pessoas à afirmação.

      Não estamos interessados em se as pessoas acham que João dormiu mais porque agiu acraticamente ou se dormiu porque desistiu “da vida de crimes”. Queremos saber se as pessoas acham que agir contra uma forte decisão, que pode ser comparada ao melhor juízo, é akrasia, ou não, dependendo do sentido moral da acção supostamente acrática. A sua sugestão não me parece especialmente útil para esse fim.

      Na segunda sugestão, situação 2, não há elemento algum que nos leve a crer que é uma situação de akrasia, seja do ponto de vista da teoria da acção, seja do ponto de vista das pessoas comuns. Parece ser um processo de deliberação onde a decisão é igual à acção. O facto dele ter sido contratado não significa que decidiu (melhor juízo) fazer X, ou Y.

      Pense na seguinte situação banal:

      João é um homem saudável e sem problemas financeiros. João decidiu, considerando todos os aspectos, que iria comer Pescada grelhada no almoço.No almoço, João não come Pescada grelhada, mas come Badejo grelhado.

      Será que as pessoas considerariam isso akrasia? Do ponto de vista da teoria da acção, teríamos, com alguns ajustes, que considerá-la uma acção acrática. A hípótese com a qual trabalhamos é que as pessoas comuns não veriam essa acção como akrática. A tendência seria aproximarmo-nos de um resultado neutro (0), na escala que propusemos. Preparamos uma situação similar a esta para testarmos a idéia de que em situações como essa, sem sentido moral, as pessoas não estão dispostas a imputar akrasia ao agente/acção. Isso, de maneira indirecta, poderá corroborar os resultados do primeiro experimento.

      Por enquanto, fizemos apenas testes. Os dois experimentos serão realizados em breve. As nossas hipóteses poderão ser rejeitadas e aí teremos que rever as nossas propostas teóricas que sustentam essas hipóteses.

  4. Oi, Carlos.

    E eu estava lendo o draft para o experimento da akrasia, e penso que talvez ele não revelará as intuições sobre a akrasia se for feito em termos de decisões e ações. O fenômeno da vontade fraca parece mais conectado à vontade do que à decisão, pois posso decidir uma coisa e depois decidir outra sem que minha vontade tenha ficado (ou parecido ficar) fraca em algum momento. Penso que a vontade fraca se assemelharia mais a “querer fazer algo e acabar não o fazendo” do que “decidir fazer algo e acabar não fazendo”. Esse “acabar não fazendo” é algo como “ser levado por si mesmo a não fazer”. Por exemplo, digamos que eu decida parar de fumar, mas em pouco tempo eu volte a fumar. Não é porque eu decidi parar de fumar que voltar a fumar torna a minha vontade fraca, pois igualmente decidi que voltaria a fumar. Porém, se eu tenho muita vontade de parar de fumar, mas não consigo, isso parecerá o fenômeno chamado de “vontade fraca”.

    Não sei se essas observações ajudam, ou se faz parte do experimento que as intuições sobre a vontade fraca sejam medidas por meio da relação entre decisões e ações. De qualquer forma, achei muito interessante o experimento. Deixe-me perguntar uma coisa: de onde vão ser as pessoas do grupo teste?

    Um abraço,

    Rodrigo Cid

  5. Acredito também que talvez valha a pena fazer mais que duas situações de pesquisa. Uma pesquisa com mais situações tem mais possibilidade de evitar bias. Pois pode ser que com duas situações apenas, o motivo que as pessoas têm para escolher alguma resposta pode não ser o que a experiência diz que seria. Com mais situações, pode-se ter dados mais sobre as respostas das pessoas e, consequentemente, adquirir dados mais confiáveis.

  6. Rodrigo, obrigado pelos comentários.

    Bom, você tem razão quando associa a akrasia à vontade fraca, mais especificamente à vontade. Parece, no entanto, que você também associa a vontade ao desejo de maneira direta. Você diz: “a vontade fraca se assemelharia mais a “querer fazer algo e acabar não o fazendo””. Isso, se fosse plausível, nos traria um problema: o que explica/causa uma ação é apenas um desejo? Além disso, o nível explicativo no qual poderíamos apelar ao conceito de “vontade” é muito elevado e pouco tratável, tanto em termos científicos, como, principalemente, filosóficos. Aqui defendo/ assumo a pertinência da abordagem (bastante comum) na filosofia da ação contemporânea que explica as ações através das crenças e dos desejos que formam as intenções, que, por sua vez, causam as ações. Há várias variações desse modelo crença-desejo – a minha simplificação serve apenas para pontuar o tema (existem teorias não-causais tb). Sendo assim, mesmo pensando que possa existir algo como a vontade (que é um conceito intuitivo), posso justificar a escolha pelo tratamento filosófico nesse nível/modelo porque: é tratável nos termos contemporâneos da filosofia da ação e tb porque é tratável experimentalmente (apesar das críticas dos behavioristas/analistas comportamerntais).

    Por outro lado, sobre a questão da decisão: a filosofia da ação pós-Davidson assume que a akrasia acontece, resumidamente, quando o agente age contra o seu melhor juízo. O melhor juízo, nesse caso, não é o juízo que leva o agente a realizar a ação que tem o melhor resultado, seja no sentido moral, seja no sentido econômico-social. O melhor juízo representa o par crença-desejo que o próprio agente entende ser o melhor, dadas as suas próprias crenças e desejos. Portanto, esse juízo é resultado dos conjuntos de crenças e de desejos do agente. É por isso que uma ação considerada irracional em termos econômicos normativos ainda assim pode ser considerada racional segundo essa definição. O problema é apontar temporalmente “onde fica” e o que é esse tal “melhor juízo”… Parece ser razoável defender a idéia segundo a qual o melhor juízo representa uma decisão do agente que o compromete, de forma mais importante, a um determinado curso de ação. Isto é, para existir a akrasia o agente tem que ter “resolvido/decidido” agir no sentido de X, ter a oportunidade de fazer isso e, mesmo assim, realizar Y. Acho que esse fenómeno não é psicologicamente viável se considerarmos todas as possíveis fontes das nossas crenças e dos nossos desejos, Se considerarmos plausível associar o melhor juízo à decisão, o experimento passa a fazer algum sentido.

    Vamos entrevistar pessoas em locais públicos – praças, metro, rua, etc..

    Sim, vamos fazer dois experimentos para diminuir possíveis enviesamentos. Faremos tb uma questão “meta-controle”, isto é, faremos a mesma pergunta para todos os entrevistados para ver se há algum enviesamento em algum dos dois grupos.

  7. Carlos, vocês pensam em realizar testes com algum grupo de filósofos, ou usando filósofos como grupo controle?

    1. Rodrigo, não pretendemos realizar testes com algum grupo de filósofos. O grupo de controle tem que ter a mesma natureza que o grupo experimental. Isto é, tem que ser formado por leigos que esteja nas mesmas condições que as pessoas do grupo de controle.

      Uma pesquisa só com filósofos parece até interessante, mas não estou convencido da utilizade disso. Para sabermos o que pensam os filósofos da acção, basta produzirmos uma boa revisão da literatura especializada.

      Qual seria a utilidade desse experimento?

  8. Deixei a resposta desse comentário no outro tópico com o nome “Será que de facto eu decido?”

    1. Obrigado, já vi. Vou lhe responder em breve.

  9. É, Carlos… Talvez você tenha razão. Fiquei pensando em qual a utilidade que haveria em pesquisas para saber o que os filósofos pensam, mas foi difícil achar uma. Talvez, ao sabermos como pensam os filósofos e os leigos de cada localidade, poderíamos encontrar regularidades nas variações de opiniões e perceber como a opinião filosófica se relaciona com a opinião dos leigos, e também como nossas teorias são influenciadas pelas opiniões leigas que nos cercam (é melhor dizer “a cultura em que nascemos”). Mas esse tipo de utilidade ainda é por demais geral… Vou ver se consigo pensar numa utilidade para um experimento filosófico. Um abraço.

  10. Uma coisa que me intrigou no experimento é que ele não fala de motivos. Por exemplo, o assassino decide não matar e procurar outro emprego no dia seguinte, segundo seu melhor juízo; mas no dia seguinte, ele não procura outro emprego e volta a matar. Neste caso, qual o motivo de ele não procurar outro emprego? Talvez possa ser porque seu dia foi muito agitado e não deu tempo de procurar outro emprego, e como o assassino tem de ter dinheiro para comprar comida, decidiu que (para que não passasse fome) matar naquele dia seria a melhor opção, segundo seu melhor juízo. Essa ação não seria akrática. Mas se esse mesmo assassino faz todo o mesmo, mas com uma motivação diferente, ele teria uma ação que diríamos que é akrática. Por exemplo, se a motivação dele para matar no dia seguinte tivesse sido o desejo intenso que teve de matar uma pessoa, sem que desse boas justificativas para a ação que não o próprio desejo, essa ação seria akrática se ele já tiver dado justificativas racionais para si mesmo para realizar uma ação inconsistente com a que realizou (como o fez, já que deliberou e encontrou seu melhor juízo).

    Já que os motivos parecem ter um papel tão grande quando falamos de akrasia – pois uma mesma ação com motivações diferentes causa uma mudança de perspectiva quanto a akrasia estar ou não envolvida na ação – parece que perdemos alguma informação no experimento ao não falarmos deles.

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