Será que de facto eu decido?

Carlos Mauro

Voltei a trabalhar num artigo que estava parado sobre a akrasia e gostaria de partilhar com vocês algumas intuições.

Pretendo criar, pelo menos, uma experiência a partir desse artigo.

Deixo o artigo aqui (abaixo). Agradeço aqueles que puderem comentar e, quem sabe, sugerir experimentos.

Será que de Facto eu Decido – CMAURO (download .pdf)

Abstract

O principal objectivo desse artigo é explorar a possibilidade de uma explicação da acção que possa prescindir do conceito de decisão. Defenderei a ideia segundo a qual bastam as crenças, os desejos e o processo de deliberação para explicar uma acção. Além disso, pretende-se explorar a ideia de que o “agir segundo o melhor juízo” está associado intrinsecamente ao conceito de decisão. Se isso se mostrar defensável, será também plausível dizer que se não há, de facto, “a decisão” – que compromete naturalmente o agente a levar a cabo uma determinada acção – não haverá também algo como “o agir segundo o melhor juízo”. Isso nos levará imediatamente à conclusão de que se não há o tal melhor juízo, não haverá também a akrasia. Isto acontecerá, pois a acção akrática é definida como sendo aquela levada a cabo em detrimento do melhor juízo do próprio agente.

Este artigo é apenas um simples teste de intuições acerca do tema da explicação da acção e da possibilidade da akrasia. Para que o debate seja produtivo, tentarei apresentar o problema de maneira intuitiva e auto-suficiente, de tal forma que as questões mais técnicas sejam deixadas de lado e que sobressaiam as questões de fundo. Portanto, tratarei apenas e directamente dessas intuições.

9 comentários

  1. Ricardo · · Responder

    Carlos, voce consideraria a intencionalidade motora (Merleau-Ponty) como um exemplo de acao sem decisao?

    1. Ricardo, fiquei muito interessado no conceito de “intencionalidade motora”. No entanto, não conheço Merleau-Ponty o suficiente para poder responder-lhe agora. Você poderia indicar-me um capítulo, ou um artigo, enfim, uma boa referência acerca desse conceito? Se calhar até você mesmo poderia postar um pequeno post sobre isso, que tal?

      1. Ricardo · ·

        O artigo principal e do Dreyfus que comenta sobre o conceito do Merleau-Ponty e adiciona um elemento essencial sobre a ideia do basin: http://socrates.berkeley.edu/~hdreyfus/pdf/MerleauPontySkillCogSci.pdf

        So note que esse conceito nao se adapta completamente ao que voce quer, ja que essas atividades nao sao cientes (quando respondi ao seu post so havia lido o abstract, so depois e que consegui encontrar o text completo)

        Ricardo

  2. Será que de facto eu decido – Comentários
    Oi, Carlos.

    Acabei de ler o seu artigo “Será que de facto eu decido?”. Gostei muito. Achei interessante a idéia de se livrar da decisão e ficar apenas com as crenças, desejos e a deliberação. Mas não sei se isso torna a acrasia impossível, e nem sei se o melhor juízo deve ser visto como aquele que motiva a ação. Acho que para explicar os motivos que me levam a pensar assim, terei que falar primeiro sobre o conceito de “melhor juízo”. Podemos falar que uma pessoa, frente a mais de um curso de ação, forma um juízo sobre qual seria o melhor curso de ação. Mas uma pessoa pode interpretar o “melhor” juízo de várias formas. Por exemplo: o melhor juízo para uma pessoa pode ser o que é mais coerente, o que é mais digno, o que lhe causa menos mal, o que causa menos mal para o mundo, o que causa mais prazer, o que mais se adequa à própria vontade etc. Na verdade, uma pessoa não precisa (embora possa) escolher um desses sentidos para “melhor”; ela pode escolher mais de um e falar “melhor no sentido X” e “melhor no sentido Y”. Entretanto, dado termos escolhido um sentido de “melhor” para falarmos do melhor juízo para alguém, não há necessidade de tal melhor juízo motivar 100% a ação. (Pensemos que muitos são os fatores que motivam uma ação; sua resultante determina a ação.) Ele pode ser motivador, já que é considerado o melhor juízo, seja lá o que for que queiramos dizer com “melhor”, mas isso não significa que se ele é o melhor juízo, então ele motiva a ação. Parece que tal juízo perde um pouco da força explicativa, porque não motivaria necessariamente à ação, mas discordo disso. Ele não tem força explicativa, no que diz respeito à motivação da ação, quando não motiva a ação; e tem força explicativa para a motivação da ação, quando motiva em algum nível a ação. O melhor juízo, dado os sentidos de “melhor”, não precisa ser uma intenção eficaz; na verdade, não precisa nem ser uma intenção; prima facie ele é só um pensamento sobre “o que seria a melhor coisa a fazer”. Como o que eu faço é motivado por uma intenção, que é formada tanto por crenças como por desejos, como um pensamento é essencialmente uma crença, e como crenças precisam de desejos para que possam ser motivadoras, há as possibilidades de a crença corresponder ao desejo e de a crença não corresponder ao desejo. Por exemplo: se penso que a melhor coisa a fazer é X, ainda posso desejar fazer X e não desejar fazer X. E se desejo fazer X, posso o desejar em diversos níveis, e esse desejo pode entrar em conflito com outros desejos (inclusive com o de não fazer X, que pode ser de nível maior e suplantar o de fazer X na motivação da ação).

    O que quero dizer, resumidamente, é isso:

    Motivação da ação = resultante das intenções
    Intenção = crença + desejo
    Crença = proposição
    Desejo = grau da vontade de agir
    X é a melhor coisa a fazer = crença de que X é o melhor juízo

    Se “o melhor juízo” não é “o que desejo”, então poderei desejar fazer uma coisa que não é o meu melhor juízo. E mesmo que deseje realizar o meu melhor juízo, pode ser que eu deseje em maior grau outra coisa.

    Juntar crença e desejo na intenção parece ser prejudicial para falarmos do melhor juízo e para falarmos da acrasia. Por exemplo: ao pensarmos num caso paradigmático de acrasia, a saber, acreditar que a melhor ação a fazer é deixar de fumar e não conseguir deixar de fumar, é muito útil conseguirmos separar a crença de que parar de fumar é a melhor coisa a fazer do desejo de parar de fumar. Só poderemos entender a acrasia se pensarmos em termos de tal separação. A acrasia é algo que nos remete à distinção entre razão (crença) e paixão (desejo). Quando nossas paixões suplantam nosso lado racional, então deixamo-nos levar por elas, ou seja, temos a nossa vontade fraca. Falar apenas de intenções, em vez de crenças e desejos, não nos permitirá ver o papel intrinsecamente motivador do desejo e nem a acrasia, já que esta é formada justamente pela desconformidade entre a resultante dos desejos e o melhor juízo.

    Mas agir de acordo com os desejos e em desconformidade com o melhor juízo não é agir sem controle da ação. Quando penso que deixar de fumar é a melhor coisa a ser feita e tenho um desejo intenso de fumar, maior do que o que de deixar de fumar, vou fumar. Mas isso não tira nem o controle e nem a racionalidade (sentido de Davidson) da ação. Digo que fumei porque tive muita vontade de fumar (o que explica a ação), e em nenhum momento entre pensar sobre parar de fumar ser a melhor coisa a se fazer, sentir a vontade de fumar, comprar o cigarro e fumar, eu deixei de ter controle das minhas ações (embora, é claro, eu não tenha controle sobre quais serão minhas vontades) [vontade=desejo] Ainda sou eu que sou o agente, pois realizei a ação voluntariamente.

    Não movendo, então, o melhor juízo à ação, isso não significaria que o melhor juízo perde sua relevância. Ele é bastante importante para pensarmos a acrasia, já que ela é pensada em termos de ação em desconformidade com o melhor juízo. Mas ações em desconformidade com o melhor juízo só podem ocorrer num esquema com a separação crença-desejo. Ao substituirmos tal esquema bipartite por um esquema monista das intenções, excluímos de início a possibilidade da acrasia. E não podemos excluir de início a acrasia e provar sua impossibilidade sem cair em petição de princípio. De qualquer forma, concordo com você no ponto de que podemos deixar de lado as decisões a favor de uma visão com crenças, desejos e deliberações.

    Muito bom o seu texto. Espero que os comentários te ajudem e estimulem nosso debate.

    Um abraço,

    Rodrigo Cid

  3. Fabio Oliveira · · Responder

    Gostei muito. Sobretudo pela compatibilidade de intuições que pude identificar no decorrer do texto.
    Continuo, no entanto, a me perguntar constantemente. É possível que a ação de um agente racional seja realizada de tal forma que vá contra sua vontade? Me parece muito simples que possamos elencar uma série de valores concorrentes para que nossas atitudes possam ir de encontro a nossa satisfação pessoal. No entanto, muito embora estejamos quase sempre deliberando acerca daquilo que acreditamos ser o correto a ser realizado em dada situação, quando algo nos soa fora deste contexto, extraimos de nós mesmos a possibilidade de justificação desta situação. Seria isto uma fraqueza de fazer X e realizar Y? Ou seria possível pensar que, dado momento, Y pareceu mais interessante e, por isso, foi escolhido?

    1. Maria Eduardo Nunes · · Responder

      Talvez a questão “Pode a acção de um agente racional ir contra a sua vontade” esteja mal colocada. Se foste racional e agiste, como podes afirmar que a tua vontade não estava na acção? Podes éstar em conflito entre Razão e emoção, por exemplo, entre Razão e inclinações (para usar terminologia antiga, que tem uma certa graça), e quando ages, nem todo o teu ser está na acção. Foi a tua vontade que se impôs ao resto, que continua, no entanto, a estrebuchar.
      A meu ver, quem age não vai contra a sua vontade racional, mas pode ir contra desejos ou representações pouco coerentes do que é melhor na situação.

    2. Oi, Fábio. Tudo bem?

      O que penso sobre o que você disse exponho a seguir. Se existirem muitas vontades presentes à mesma consciência, algumas delas inconsistentes entre si, se uma ação for realizada por essa consciência e se essa ação é fruto de uma vontade que era inconsistente com alguma outra, então agimos contra pelo menos uma de nossas vontades. Acredito somente que não é possível agir contra a resultante das vontades. Tomando “vontade”, é claro, como desejo (grau de motivação para agir), e distinta de “crença” (o pensamento).

      Você disse: “Me parece muito simples que possamos elencar uma série de valores concorrentes para que nossas atitudes possam ir de encontro a nossa satisfação pessoal. No entanto, muito embora estejamos quase sempre deliberando acerca daquilo que acreditamos ser o correto a ser realizado em dada situação, quando algo nos soa fora deste contexto, extraimos de nós mesmos a possibilidade de justificação desta situação.”

      Não entendi o que você quis dizer com isso.

      Você quer saber se acreditar que X é a melhor coisa a fazer e fazer Y (sendo Y diferente de X) é uma fraqueza da vontade? Parece que a pergunta é: se a vontade nos obriga a fazer algo que não pensamos ser a melhor coisa a fazer numa certa situação, esse seria um caso que falaríamos de fraqueza de vontade, dado que pensar que algo é a melhor coisa a fazer nem sempre vem junto com a vontade insuperável de fazer a melhor coisa a fazer?

      Um abraço.

  4. Fabio Oliveira · · Responder

    Na verdade, o que ainda me soa bastante complicado é atribuir uma outra vontade que não seja a que impulsiona a própria ação. Pois me parece mais correto atribuir sempre uma deliberação racional acerca do que fazemos. Para mim, há sempre uma eleição acerca daquilo que fazemos, ainda que possamos pensar que nossa vontade estivesse sendo contrariada pela atitude tomada.
    O grande exemplo é o fato de uma pessoa que “deseja” emagrecer, mas ao estar em contato com um chocolate, come o chocolate.
    Acredito que isto seja um caso paradigmático, mas que, ao meu entender, não exemplifica nem demonstra a existência de uma fraqueza da vontade; Uma vez que poderíamos identidicar uma vontade de comer o chocolate no ato da pessoa eleger o chocolate como o “desejável” naquele momento.
    Acho que o problema fica sendo, contudo, da ordem das vontades concorrentes entre si.

    1. Rodrigo Cid · · Responder

      Não me parece tão problemática falar que existe mais que uma vontade. Digamos: tenho vontade de não fumar, mas acabo fumando porque também tenho vontade de fumar. Eu tenho vontade de fumar e tenho vontade de não fumar em graus diferentes. Se com o meu melhor juízo decido que não vou fumar e mesmo assim fumo, isso antes parecerá um problema de muita força da vontade (tomando vontade como desejo) do que de pouca força – a vontade de fumar foi muito forte.

      Se pensarmos que há pouca força no lado da vontade que está de acordo com o melhor juízo (menos do que há de força na vontade que está em desacordo com o meu melhor juízo), o meu conjunto de desejos seria fraco demais para tornar ação o meu melhor juízo. E talvez isso seja a fraqueza da vontade.

      Quando a pessoa comia chocolate, ela saciou sua vontade de comer chocolate. Ela tinha uma vontade de comer chocolate que foi saciada. Mas diferentemente das crenças, não é um absurdo ter ao mesmo tempo vontades contraditórias (vontade de comer chocolate e vontade de não comer chocolate), dado que podemos ter cada vontade sob um determinado aspecto: tenho vontade de comer chocolate porque é gostoso (ou porque sacia meu vício) e tenho vontade de não comer chocolate porque ficarei gordo. Posso comer o chocolate com vontade de comer chocolate, e posso comê-lo com vontade de comê-lo e ao mesmo tempo com vontade de não comê-lo. A fraqueza da vontade parece ser: ter estabelecido, por deliberação, que a melhor coisa a fazer é não comer o chocolate, e não ter vontade suficiente de não comê-lo; é uma desconexão entre o melhor juízo e o quadro de desejos.

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