Ulatowski sobre a Individuação da Acção

Joshua Knobe

Tradução: Pedro Cardona

Imagine uma pessoa que está a bombear água e consequentemente a envenenar os habitantes de uma casa vizinha. Agora considere o acto de bombear água e o facto de envenenar os habitantes. São estas duas diferentes acções, ou somos apenas confrontados aqui com duas descrições diferentes da mesma acção?

Esta questão metafísica altamente abstracta foi o tópico de um aceso debate filosófico há umas décadas.  Anscombe e Davidson argumentaram que era apenas uma acção sob duas descrições diferentes, enquanto que Goldman argumentou que eram verdadeiramente duas acções diferentes.

Mais recentemente, contudo, a questão regressou, desta vez na forma de estudos experimentais por Joe Ulatowski. Ele obteve alguns resultados muito surpreendentes.

Aparentemente, as intuições das pessoas acerca do acto de individuação dependem das propriedades morais dos actos envolvidos. Assim, aparenta haver uma assimetria tal que as pessoas tendem a adoptar o ponto de vista Anscombe/Davidson acerca de acções moralmente más, no entanto, adoptam o ponto de vista Goldman acerca de acções moralmente boas.

No estudo de Ulatowski, era dada aleatoriamente a cada sujeito uma de duas situações. Sujeitos na ‘condição veneno’ recebiam o seguinte caso:

O trabalho de Smith era bombear água para a cisterna que fornece a água duma casa.

Um dia Smith opera a bomba e reenche o reservatório de água da casa. Os ocupantes da casa são saudáveis e não têm nenhum problema de saúde. Jones diz a Smith que alguém arranjou uma forma de sistematicamente contaminar a fonte da água com um veneno mortal acumulativo cujos efeitos são imperceptíveis até que já não possam ser curados.

Smith diz, “não me interessa a contaminação da fonte de água; apenas quero ganhar o meu salário.”

Os ocupantes da casa beberam a água. Certamente, foram envenenados e morreram.

Era então perguntado a estes sujeitos: ‘Era o operar da bomba de Smith o mesmo que ele envenenar os habitantes da casa, ou eram coisas distintas?’

Entretanto, era dado aos sujeitos ‘da condição salvador’ um caso ligeiramente diferente:

O trabalho de Smith era bombear água para a cisterna que fornece a água duma casa.

Um dia Smith opera a bomba e reenche o reservatório de água da casa. Os ocupantes da casa estão doentes e têm infecções severas. Jones diz a Smith que alguém descobriu uma forma de sistematicamente purificar a fonte de água com um antibiótico acumulativo cujos efeitos são imperceptíveis até que eles curam alguém que tenha uma infecção severa.

Smith diz, “não me interessa a purificação da fonte de água; apenas quero ganhar o meu salário.”

Os ocupantes da casa beberam a água. Certamente, eles foram salvos e viveram.

Era então perguntado a estes sujeitos: ‘Era o operar da bomba de Smith o mesmo que ele salvar os habitantes da casa, ou eram coisas distintas?’

Os resultados mostraram uma enorme assimetria. 61% dos sujeitos escolheram ‘a mesma coisa’ na condição de veneno, enquanto que apenas 13% seleccionaram esta opção na condição de salvador.

Ulatowski usa estes resultados para argumentar que juízos morais afectam efectivamente as intuições das pessoas acerca do problema metafísico do acto de individuação. Mas se ele se encontra neste sítio, parece que ainda nos falta uma outra questão. Essa questão é acerca do porquê do julgamento moral ter esse tipo de impacto.

Devo confessar que estou absolutamente confuso acerca de como responder a esta questão, e estava a questionar-me se algum de vocês poderá ter alguma sugestão.

Artigo Ulatowski (download)

Posted by Joshua Knobe on Thursday, November 08, 2007 at 03:26 PM in www.experimentalphilosophy.typepad.com

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Esse post do Josh é do final de 2007 e tem alguns comentários (em inglês) que podem ser vistos aqui. O interessante desse post é que é um experimento muito parecido com o experimento realizado pelo Josh – “Side Effects” (será brevemente traduzido e ficará disponível nesse blog) –  mas utilizado para iluminar outra questão. Fica aqui mais um debate aberto.

11 comentários

  1. Luis Ledo · · Responder

    Penso que a asimetría entre as dúas situacións se orixinan no feito de que

    – o coñecemento de que a auga é curativa non afecta á intención inicial de bombear a auga,
    – o coñecemento de que a auga está envelenada si afecta á esta intención inicial.

    Pódese entender que no primeiro caso a acción está “sobredeterminada”, polo que a bondade da auga é innecesaria e pódese separar do bombeo (e non cabe recoñecer mérito).
    No segundo caso a acción está indecisa e hai que optar entre a razón a favor e a razón en contra, polo que só hai unha acción, a decisión (e cabe esixir responsabilidades).

    Para dicilo doutro modo, no primeiro caso a bondade da auga pódese obviar sen que afecte á decisión, pero no segundo non se pode obviar porque é parte dos datos para a decisión.

    Un cordial saúdo,
    Luís Ledo.

    1. Caro Luis,

      Por que num caso a contaminação/não contaminação é um dado e noutro não? Parece-me que ambos são dados e que a sua afirmação já é uma demonstração de que os juízos morais têm tal influência.

      Não me parece que a decisão esteja em jogo, mas sim a própria acção. Por isso, temos que pensar na intenção na acção. É intuitivo dizer que a intenção é o que determina a acção e a sua própria individuação, não? Se isso é plausível, podemos dizer que em nenhum dos casos o “bombeador” de água estava interessado na saúde das pessoas, portanto, não tinha uma intenção eficaz para melhorar a saúde das pessoas, assim como, para envená-las. Se isso for verdade, podemos dizer que a única acção realizada nos dois casos foi o bombear da água. Se não, temos que dizer porque os juízos morais têm esse impacto e como isso pode influenciar a individuação da acção. Temos que lembrar que esse tema tem, por exemplo, efeitos sobre o direito.

  2. António Daniel · · Responder

    Se bem compreendo, a questão aqui colocada não é saber se existem uma ou duas acções nas situações descritas, mas saber por que razão existiu assimetrias nas análise das pessoas. Bom, é difícil, mas temos, penso eu, que admitir outro tipo de campo de análise. Embora as minhas limitações não me permitam, sou levado a considerar que, para o ser humano, é mais condenável o mal do que gratificante o bem. O mal pode ser entendido como ausência de bem, mas o bem não pode ser entendido como ausência de mal. Talvez a psicanálise possa dar uma resposta.

    1. Caro António,

      A sua proposta de utilização da psicanálise é intrigante. Poderia desenvolver um pouco mais a ideia?

    2. Margarida Ribeiro · · Responder

      Também eu, tenho algumas limitações, mas dentro dos poucos conhecimentos que vou adquirindo e do que tenho reflectido, aventuro-me a dizer que o mal e o bem fazem parte de um todo. Um não existe sem o outro. São as duas faces da mesma moeda.
      Quanto ao mal ser mais condenável que gratificante o bem, penso que isso também não é assim tão linear. Aí, concordo que a psicanálise pode dar uma ajuda no modo como o individuo assimilou esses dois conceitos.

  3. Por que o juízo moral tem esse impacto?

    Essa é uma pergunta bastante estranha à filosofia. Isso porque a resposta esperada seria algo como “o juízo moral tem esse impacto por causa da educação, por causa do aparato cognitivo humano, por causa da genética, por causa da ignorância etc”. Por nenhum dos métodos que aprendemos a utilizar em filosofia (nas universidades ou na história da filosofia) conseguiremos responder essa questão; conseguimos, no máximo, indicar as possibilidades de respostas. A resposta deve ser encontrada com mais experimentos em outras culturas (ou em outras formas de ensino, em outras espécies conscientes, em seres com outras genéticas, em outras variedades de nível de conhecimento etc) e comparação entre eles. Não acredito que nós, aqui e agora, podemos responder a questão proposta.

    1. Caro Rodrigo,

      Existe na filosofia da acção uma disputa importante acerca da individuação da acção. O exemplo clássico é o seguinte (de maneira muito resumida e simplificada): P entra em casa e acende a luz e isso faz fugir um ladrão que lá estava. Quantas acções tem essa história? Uma (tese X): acender a luz, ou Duas (tese Y): acender a luz e afugentar o ladrão? Esse é um tema considerado filosófico. Concorda?

      Se concorda, podemos avançar e dizer que quaisquer dados que possam dar-nos pistas para uma justificação melhor das teses X, ou Y, ou mesmo “demonstrar” quais factores normalmente estão envolvidos na nossa percepção acerca de casos particulares, são bem-vindos. Não? Por que juízos morais produzem determinados impactos/efeitos é uma questão filosófica (caso contrário terá que eliminar a metaética) mas primeiro é preciso dizer que esses juízos causam determinados efeitos específicos no acto de individuação (parece ser essa a ideia do experimento).

      Algumas vezes você já escreveu algo parecido com isso (em outros comentários): “Por nenhum dos métodos que aprendemos a utilizar em filosofia (nas universidades ou na história da filosofia) conseguiremos responder essa questão”. Não sei bem se isso é suficiente para justificar a sua concepção de filosofia, mesmo que seja hegemónica. Quando diz “nas universidades” refere-se a todas, às que conhece, a quais? Pergunto isso porque há muitos departamentos de filosofia importantes no mundo e que têm relações directas com a ciência cognitiva. Pegue o exemplo de Rutgers, onde estão filósofos como o Stich e o Fodor. Ambos fazem parte do departamento de filosofia e do centro de ciência cognitiva. Os alunos de pós-graduação daquele departamento de filosofia podem optar por aprender métodos da ciência cognitiva aplicados à filosofia. Rutgers é o segundo melhor departamento de filosofia dos USA e também é o segundo se contados todos os departamentos de língua inglesa (philosphical gourmet). Há muitos outros exemplos desse género. Eu diria que, pelo menos 50% dos 30 melhores departamentos de filosofia americanos têm esse tipo de ligação. Tenho mesmo dúvidas e que os estudantes de filosofia não aprendam e não estejam interessados em métodos alternativos, ou mesmo interessados na própria ciência cognitiva, que inclui, a psicologia e as neurociências, por exemplo. Esses alunos saem de lá e dão aulas em departamentos de filosofia, publicam em revistas de filosofia e fazem parte de associações filosóficas. Agora, se são filósofos, ou não, é outra coisa…

      Podemos sempre dizer que isso é “coisa de americano”. Que isso não dura e que a Filosofia é o que pensamos ser a partir de uma visão mais “histórica”. Mas, realmente, acho que vale a pena olhar para a ligação entre a filosofia e a ciência cognitiva.

      1. Oi, Carlos.

        Concordo que o caso da individuação da ação é um problema filosófico.

        Você disse: “Se concorda, podemos avançar e dizer que quaisquer dados que possam dar-nos pistas para uma justificação melhor das teses X, ou Y, ou mesmo “demonstrar” quais factores normalmente estão envolvidos na nossa percepção acerca de casos particulares, são bem-vindos. Não?”

        Nem sempre. Isso dependerá de se nossa tese se utiliza da intuição das pessoas em casos particulares. Caso a discussão não envolva as intuições, então as informações sobre elas não serão relevantes ou, ainda, não serão bem vindas. Caso alguma tese afirme que as intuições das pessoas são relevantes na discussão sobre a individuação da ação, então ela também afirmará que os dados que nos indicam coisas sobre como percebemos casos particulares são importantes.

        Não sei se *por que* os juízos morais produzem os impactos que produzem seja algo relevante para a metaética, nem se asserirmos que as intuições sobre a moralidade são importantes. Se falarmos, por exemplo, que as atitudes que temos para com relação a diversos tipos de atos influenciam no nosso juízo moral, poderemos pesquisar sobre a relação entre as atitudes e os juízos morais expressos pelas pessoas; mas a metaética não se importará com o porque de a atitude influenciar o juízo moral. E não se importará não porque essa pergunta não é importante, mas porque ela simplesmente não teria meios de responder tal coisa.

        Assim, saber que nas pessoas os juízos sobre a individuação são influenciados pelos juízos morais é um dado importante para uma tese que defenda que as intuições das pessoas são relevantes para estabelecer o que é uma ação. Mas qual seria a relevância para estabelecer o que é uma ação saber o motivo de os juízos sobre individuação serem influenciados pelos juízos morais? É claro que queremos uma explicação de porque dizemos que eles sofrem essa influência, mas isso não é perguntar pelo motivo da influência. O único motivo que vejo para nos perguntarmos pelo motivo da influência seria epistemológico: querermos saber se a fonte dessa influência remove ou confirma a autoridade da influência. Se não for algo desse tipo, parece-me que essa pergunta só seria importante para tratarmos de como é estruturado o aparelho mental humano. O que não sei se, atualmente, é tarefa da filosofia.

        O experimento pode ser de grande valia para certas teses filosóficas, mas a questão sobre o motivo da influência dos juízos morais nos juízos sobre individuação parece menos útil. De qualquer forma, que tipos de respostas estamos esperando de uma questão como essa?

        Ok. Concordo com você que não fui feliz em falar sobre os “métodos aprendidos pelos filósofos nas universidades”. Talvez fosse melhor dizer: “métodos filosóficos convencionais”. Não podemos decidir sobre o motivo da influência dos juízos morais nos juízos sobre individuação com métodos filosóficos tradicionais. Dado o que parece ser o tipo de resposta esperada a essa pergunta (motivos esperados: genética, ignorância etc.), parece que apenas poderia ser respondida com métodos filosóficos não-convencionais (tipo as pesquisas da filosofia experimental) ou por métodos científicos.

        Adorei sua observação sobre a ciência cognitiva. Realmente, ela coloca um problema. Mas creio que esse problema pode ser contornado ao lembrarmos que, assumidamente, é uma confluência de várias disciplinas. Assim, ela trata de problemas filosóficos e científicos com métodos filosóficos e científicos. Nenhum problema nisso. Mas a filosofia experimental tenta tratar de problemas filosóficos e psicológicos, sendo apenas filosofia, e não uma confluência de psicologia com filosofia (e talvez outras disciplinas). Se aceitarmos que a filosofia experimental é um misto de várias disciplinas com filosofia, ela poderá ter o mesmo status da ciência cognitiva.

        O que penso que há de mais interessante na ciência cognitiva e na ciência experimental (tal como a concebo) é o ideal de ciência nelas embutidas. De alguma forma elas instanciam o ideal de integração entre ciências e filosofia na busca da verdade, em vez do ideal de fragmentação e especialização do trabalho. Tentar achar a resposta do problema com quaisquer métodos disponíveis! Isso é muito bom, mas temos que atentar para o fato de que isso seria uma integração.

        O problema de não termos uma visão histórica é: que visão teríamos e quais seriam as justificativas para tal?

        Um abraço.

  4. António Daniel · · Responder

    Peço desculpa mas só agora li o comentário do Carlos. Bom, a psicanálise apresenta-nos a noção de remorso, de sentimento de culpa como princípio orientador da moralidade. Assim, o mal inscreve-se no inconsciente e torna tabu um conjunto de pressupostos inerentes aos desejos reprimidos do complexo de édipo. Se juntarmos a nossa matriz cristã, verificamos que a culpa é algo que nos acompanha desde a «saída do paraíso» o que deu origem a imperativos tipo «não matarás». Bem, pode ser que me lembre de alguma coisa mais, mas julgo que não podemos desvincular a análise do bem ou do mal de uma questão primeva.
    Obrigado pela sua atenção.

  5. Rodrigo Cid · · Responder

    Este vídeo mostra esse experimento de uma forma bem interessante: http://www.youtube.com/watch?v=sHoyMfHudaE

    1. Rodrigo Cid · · Responder

      Quer dizer, na verdade não é exatamente deste experimento, mas de um semelhante a este, e que já foi exposto em outro tópico.

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