O que estão fazendo os filósofos experimentais?

Edouard Machery

Tradução: Rodrigo Cid

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Normalmente, não me interesso muito por debates de segunda ordem sobre a natureza da filosofia ou sobre a natureza e objetivos da filosofia experimental, mas algumas postagens recentes aqui e ali têm chamado a minha atenção (ver particularmente a conversa entre Ron e Thomas). Então, o que estão fazendo os filósofos experimentais? E o que quer que seja que eles estejam fazendo, será isso filosofia?

1. Uma resposta a essas questões tem sido proposta por Joshua Knobe. Ele argumenta que os filósofos experimentais estão estudando questões empíricas – como as pessoas pensam sobre a intencionalidade, como as pessoas fazem juízos causais etc. Para fazer isso, eles usam, tal como deveriam, métodos experimentais. Além do mais, isso conta como filosofia porque os filósofos experimentais tentam responder as mesmas perguntas que eram do interesse dos filósofos antes do surgimento da filosofia analítica, i.e., de filósofos como Hume (por exemplo, o papel das emoções nos juízos morais, como as pessoas pensam sobre a causação etc).

Neste momento, isso certamente tem um poder sedutor e um poder retórico considerável. Entretanto, penso que essa resposta não é convincente. Filósofos tais como Descartes, Hume, e antes Aristóteles e Platão, certamente estavam interessados nas questões sublinhadas pelo Josh. No entanto, eles também estavam interessados em questões biológicas (lembre-se do trabalho de Aristóteles sobre o crescimento das aves), em questões cosmológicas (lembre-se do Le Monde de Descartes), em questões geográficas (um dos trabalhos de Kant), e assim por diante. Mas agora, se o Josh estivesse certo, ao conseguir um doutorado em Biologia do Desenvolvimento, eu estaria envolvido com a filosofia, pois eu estaria interessado nas mesmas questões, com ferramentas modernas, que eram do interesse de Aristóteles. Mas, isso é bobagem.

2. Outra resposta, que parece ser aceita por Thomas e Eddy, é dizer que os filósofos experimentais trazem novas (e talvez melhores) ferramentas para auxiliar o projeto tradicional da análise conceitual. Eddy e Thomas chamam isso de análise experimental.

Não acho que esse projeto seja muito promissor. Tal como argumentei em meu artigo na Mind & Language, este projeto supõe a capacidade de distinguir a competência conceitual e a performance conceitual. Por sua vez, isso pressupõe uma teoria dos conceitos. Porém, desafortunadamente, ninguém sabe qual teoria dos conceitos está certa.

Assim, o que estão fazendo os filósofos experimentais? E isso é filosofia?

3. Com certas reservas, eu tenho uma idéia muito clara do que eu estou fazendo.

Alguns dos meus trabalhos (Semantics, Cross-Cultural Style, Against Arguments from Reference, and the paper on causation by absence with Jonathan Livengood for the Midwest Studies) pertencem claramente à desmerecida tradição da filosofia experimental. É assim que eles se estruturam:

– Identificar os argumentos filosóficos que dependem de afirmações empíricas sobre as intuições das pessoas comuns.

– Testar essas afirmações e mostrar que elas são falsas.

– Avaliar as consequências dessas descobertas para o argumento filosófico em questão.

Em outros artigos, estou mais preocupado com questões psicológicas. O artigo sobre a hipótese da troca [trade-off hypothesis] tenta explicar causalmente os juízos feitos pelas pessoas. Meu trabalho atual junto com Justin Sytsma sobre estados mentais conscientes é uma extensão da pesquisa tradicional da filosofia da mente. Meu trabalho transcultural recente sobre o conceito de raça estuda se o conceito de raça das pessoas pertence à sua biologia popular.

Agora, isto é filosofia? Aqui está porque a resposta é claramente afirmativa. A filosofia atual é extremamente diversa. Ela inclui a criação de modelos formais (o trabalho de Glymour e colegas sobre a causação, o de Skyrms sobre o contrato social etc), a lógica, a filosofia da linguagem bastante inspirada pela linguística, a filosofia da biologia, a filosofia da física etc, em adição à filosofia guiada pelas intuições. (Muitos desses campos não confiam mesmo nas intuições. Se você se pergunta o que poderia ser a filosofia, se não fosse permitido a ela confiar em intuições, sugiro que você abra o Philosophy of Science, o BJPS, o Linguistics & Philosophy, o JSL etc.) É provável que qualquer caracterização da filosofia que seja ampla o suficiente para incluir todos esses campos irá também incluir a filosofia experimental.

Para colocar a mesma questão de outra forma, considere alguns exemplos marcantes de trabalhos filosóficos e de debates que são completamente empíricos, por exemplo, o debate na filosofia da psicologia entre os teóricos da simulação e os teóricos da teoria, o debate na filosofia da biologia sobre as unidades de seleção, o debate na filosofia da física sobre a informação quântica. Qualquer pessoa que pretenda alegar que a filosofia experimental não é filosofia enfrenta um dilema. Ela poderia propor uma noção de filosofia segundo a qual estes debates contam como filosofia. Mas, então, o debate (psicológico, empírico) sobre o que causa as pessoas fazerem os juízos que fazem sobre a intencionalidade (etc) também conta como filosófico. Não há diferenças marcantes entre o último e o primeiro debates. Alternativamente, ela pode dizer que estes debates não são filosóficos, talvez porque sejam empíricos. Muito do meu trabalho, então, não vai contar como filosofia, de acordo com esta definição. Mas dado o que exclui (coisas muito excitantes) e dado o que acaba por contar como filosofia de acordo com esta definição (sem comentários), apraz-me que o meu trabalho não conte como filosofia.

Edouard

Postado por: Edouard Machery / segunda-feira, 30 de julho de 2007, às 10:14 PM

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COMENTÁRIOS

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Postado por: Mark Phelan / segunda-feira, 30 de julho de 2007, às 11:47 PM

Oi, Edouard.

Postagem interessante. Duas questões:

1. (Com relação ao segundo projeto, de Thomas e Eddy) A análise conceitual tradicional não requer também a capacidade de distinguir entre competência conceitual e performance? Isso não diferencia o projeto sugerido por T & E da análise conceitual tradicional e, assim, da filosofia (embora ambos possam ser igualmente sem esperança, segundo o que você expôs).

2. Considere a razão que você menciona para dizer que o tipo de trabalho experimental que você faz é filosofia: “a filosofia atual é extremamente diversa”. Em particular, você pensa que seja impossível traçar as fronteiras da filosofia de modo a serem amplas o suficiente para permitir os debates da filosofia da ciência e da filosofia da psicologia que você mencionou, e estreitas o suficiente para excluir a filosofia experimental. Mas você pensa que podemos traçar as fronteiras de modo a serem amplas o suficiente para incluir tais debates E NÃO incluir debates da biologia do desenvolvimento? (E, se sim, como?) É claro que, se não podemos, pode-se realizar a mesma reductio que você utilizou contra a resposta de Joshua na questão sobre a filosofia experimental. (É claro, isso é consistente com sua resposta para o outro ramo do dilema enfrentado pelo purista filosófico…nomeadamente, a resposta “então não me tome como filosofia”).

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Postado por: Edouard Machery / terça-feira, 31 de julho de 2007, às 04:36

Obrigado pelos comentários. Vou respondê-los agora.

Mark:

1. Sim, você está certo. A análise conceitual tradicional e a análise experimental requerem uma distinção entre usos/inferências/juízos que são constitutivos de um conceito e aqueles que não são. Ambas estão no mesmo barco.

2. Este é um ponto inteligente, mas pode haver uma maneira de excluir da filosofia, digamos, doutorados em evo-devo. Antes de focar em questões ou tópicos tratados por filósofos e não filósofos, uma possível estratégia seria o enfoque nos métodos usados pelos filósofos: tais métodos tendem a ser menos empíricos.

É claro, a filosofia experimental tende borrar a linha. Ainda assim, resta que o uso de métodos empíricos não tem a mesma sistematicidade que tem na ciência. Os experimentos dos filósofos experimentais tipicamente são enredados em argumentos teóricos. Naturalmente, sob esta visão, a diferença entre filosofia experimental e ciência é uma questão de grau (mais ou menos experimentação científica, e mais ou menos argumentos teóricos). Mas, sendo um quineano, tal conclusão me agrada.

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Postado por: Joe Paxton / terça-feira, 31 de julho de 2007, às 04:56 AM

Na tentativa de defender a resposta de Joshua, é importante frisar que as questões empíricas tratadas por Aristóteles, Descartes e Kant em seus trabalhos menos conhecidos são de um tipo qualitativamente diferente do tipo das questões empíricas indicadas por Joshua. Mais especificamente, os tipos de questões empíricas que Joshua enfatiza são questões psicológicas (atribuições de ação intencional, juízos causais etc), ao passo que as questões tratadas por Aristóteles, Descartes e Kant (ao menos as que Edouard menciona) não são questões psicológicas.

Além do mais, as questões psicológicas estão conectadas a certos tópicos filosóficos persistentes, de um modo que a maioria das questões biológicas, cosmológicas e geográficas não estão. De modo mais específico, é provável que seja o caso que certos tópicos filosóficos persistentes (especialmente os relativos à moralidade e à estética, e possivelmente também à causação, à identidade pessoal, à consciência etc) sejam, no fundo, questões psicológicas. O mesmo não é verdade da biologia, da cosmologia e da geografia. Há relativamente poucas questões filosóficas persistentes que são, no fundo, questões biológicas, cosmológicas ou geográficas.

Não obstante, eu não estou certo de qual é a conclusão que se supõe seguir-se disso. Eu quero concluir que, em muitos casos, não há distinção clara entre filosofia e psicologia. Portanto, se você conseguir um doutorado em psicologia, não é tão estranho pensar que você está envolvido com filosofia, quanto o é ao conseguir um doutorado em biologia do desenvolvimento. Porém, tenho a sensação de que algumas pessoas (Edouard?) podem estar tentadas a concluir que há pouquíssimas (se houver alguma) questões filosóficas. Se muitos tópicos persistentes podem ser abordados por meios que claramente não são unicamente filosóficos, então por que se importar em chamar alguma questão de “filosófica”, a não ser para reconhecer certas figuras históricas que abordaram questões similares e chamaram-se a si mesmos de “filósofos”?

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Postado por: Edouard Machery / terça-feira, 31 de julho de 2007, às 04:36

Obrigado pelos comentários. Vou respondê-los agora.

Joe:

1. Você está certo ao dizer que as questões enfatizadas por Josh são psicológicas, enquanto as questões que eu enfatizei não são. Esse é o ponto central do meu comentário. Simplesmente ser uma questão de interesse de algum filósofo (particularmente, de séculos passados) não faz que a questão seja filosófica, pois de outro modo os tópicos da biológica do desenvolvimento se tornariam filosóficos.

2. Você escreveu: “as questões psicológicas estão conectadas a certos tópicos filosóficos persistentes de um modo que a maior parte das questões biológicas, cosmológicas e geográficas não estão”. Considere os tópicos da filosofia da biologia e na filosofia da física. Muitos tópicos sobre desenvolvimento, natureza, e assim por diante, têm claros antecedentes em Aristóteles.

3. A fim de fornecer uma exposição completa, eu penso que questões que não forem empíricas (entretanto, indiretamente) são vazias: elas não têm valor de verdade.

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Postado por: Thomas Nadelhoffer / terça-feira, 31 de julho de 2007, às 06:34 AM

Edouard,

Obrigado pela postagem interessante. Estou feliz em ter novamente a oportunidade de aperfeiçoar esses debates metafilosóficos com você e com os outros leitores do blog. Entretanto, por ora, vou apenas fazer a promessa de que entrarei em breve na batalha. Contudo, eu gostaria de frisar que atualmente não me coloco em nenhum dos campos que Eddy e eu discutimos em nosso artigo PE. Suponho que seja correto dizer que se eu sou um analista, um cognitivista ou restricionista, isso depende do domínio em discussão – embora, como eu disse no meu último comentário na postagem de Ron, a maior parte dos caminhos parece levar ao ceticismo com relação ao restricionismo. De qualquer forma, a minha preocupação com EA é orientada pelos pontos que você levantou no seu artigo M&L. Minha preocupação com CE é que se torna difícil ver como excluir a maior parte das neurociências e da psicologia social de contar como filosofia. Finalmente, a minha preocupação com ER é que uma vez o trabalho empírico braçal tenha sido realizado e as visões tradicionais importantes tenham sido desbancadas, o projeto retricionista se encerra – ou seja, na medida em que seus proponentes são bem sucedidos, eles levam a si mesmos, consequentemente, a ficar sem nada para fazer.

Então, por enquanto, mais manuscritos… e mais café…

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Postado por: Thomas Nadelhoffer / terça-feira, 31 de julho de 2007, às 06:34 AM

Ah, sim, mais um ponto bem rápido. A razão para nos preocuparmos com se o que estamos fazendo é filosofia – amplamente definida – é que, se não for, nós realmente devemos mudar o nome do movimento, blog, etc para evitar a falsidade na propaganda! Eu, por mim, não me importo de ser simplesmente um experimentalista. Mas então o meu desejo de voltar para a escola de psicologia retorna com vingança!

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Postado por: Edouard Machery / terça-feira, 31 de julho de 2007, às 04:36

Thomas:

Pontos tirados.

Edouard

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Postado por: Quantum Anthropo / terça-feira, 31 de julho de 2007, às 08:56 AM

Falando filosoficamente, a primeira questão para qualquer tentativa de filosofia experimental é uma filosofia experimental é possível? E, daí, de maneira kantiana:como é possível o juízo sintético a priori? Etc. etc. etc. Dessa forma, para minha mente, suposições iniciais são muito importantes antes de qualquer “experimento filosófico”. Consequentemente, tomar a filosofia a sério não é um experimento etnográfico.

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Postado por: Antti Kauppinen / terça-feira, 31 de julho de 2007, às 04:28 PM

Edouard,

Essencialmente, você está oferecendo uma defesa parceiros-no-crime para porque o trabalho empírico sobre tópicos empíricos deve contar como filosofia. Para que isso funcione, estas linhas de estudo devem ser ambas parceiras e criminosas. Parece-me que os exemplos que você menciona falham em um ou dois aspectos. Isto é, questões como teoria-teoria vs. estimulação não são “completamente empíricas” (e então não estão no negócio criminoso) e (de fato, pelo mesmo fato) não são parceiras. Ou elas são parceiras, mas apenas coincidentemente investigadas por filósofos (antes que exclusivamente por cientistas empíricos), não fornecendo assim entrada para o clube – certamente ninguém concorda que a questão sobre o que são as unidades de seleção seja, no máximo, fronteiriça com a filosofia. (O que não é dizer que, pelo seu treino específico, os filósofos não poderiam contribuir para o debate biológico; eles de fato contribuem).

É verdade que a diversidade metodológica da filosofia contemporânea torna mais difícil qualquer empreendimento de traçar fronteiras, mas isso fornece pouco conforto ao experimentalista. Imagino que a afirmação “não há diferenças salientes” mostra que o que é saliente depende de onde você se encontra.

O problema real com a filosofia experimental certamente não é a rotulação inadequada – você pode chamá-la da forma que quiser. O problema é dar respostas más para questões mal interpretadas. Muitos trabalhos empíricos recentes sobre “juízos morais” são bons exemplos disso, tal como espero mostrar num trabalho em preparação, e já venho argumentando que os desmascaradores identificam erroneamente as suposições que os filósofos fazem quando apelam para as intuições e, assim, falham em testá-las.

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Postado por: Edouard Machery / terça-feira, 31 de julho de 2007, às 04:46 PM

Antti,

Eu não posso deixar isso passar: “certamente ninguém concorda que a questão sobre o que são as unidades de seleção seja, no máximo, fronteiriça com a filosofia”.

A questão sobre as unidades de seleção tem sido central à filosofia da biologia por 30 anos. Dezenas de artigos foram escritos sobre ela por filósofos (incluindo alguns dos debates recentes da Filosofia da Ciência); ela é um tópico clássico em qualquer seminário universitário em filosofia da biologia, há regularmente uma seção sobre tal questão no encontro da Associação de Filosofia da Ciência.

Eu suspeito que sua noção de o que é filosófico é muito estreita para incluir esses debates, controversas etc que dezenas de outros filósofos (se não centenas – vá à PSA) contam como filosófico.

E, se essa é a noção que você quer usar, estou feliz em não fazer filosofia.

Um detalhe: eu não entendo por que você diz que “questões como teoria-teoria vs. estimulação não são “completamente empíricas””. Ambas as posições são afirmações empíricas sobre como atribuímos estados mentais a outros – como o debate entre eles poderia falhar em ser empírico?

Edouard

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Postado por: Eric Schwitzgebel / terça-feira, 31 de julho de 2007, às 06:03 PM

Alison Gopnik escreveu em 1998 (num artigo comigo, mas seu texto) que a filosofia é apenas uma coisa muito teórica.

Eu penso que isso é bem próximo do ponto. Se estamos tratando das questões mais fundamentais, conceituais, teóricas, normativas, existenciais, etc de qualquer domínio – obtenha você suas respostas por análise conceitual, fatos empíricos, textos religiosos, ou qualquer outra coisa, você está fazendo filosofia.

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Postado por: Eric Schwitzgebel / terça-feira, 31 de julho de 2007, às 06:06 PM

P.S.: Eu também expressei esta visão no The Splintered Mind em minha discussão sobre a filosofia do cabelo. http://schwitzsplinters.blogspot.com/2006/07/philosophy-of-hair.html

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Postado por: John Bengson / terça-feira, 31 de julho de 2007, às 06:35

Edouard,

Sua postagem levanta uma série de tópicos interessantes. Eu estava especialmente curioso sobre sua sugestão de que a filosofia pode proceder sem intuições. Como você propõe que façamos isso, dado que ao menos algumas (ou a maioria, ou inclusive todas, em algumas perspectivas) questões filosóficas são modais por natureza?

Talvez você pense que a solução se encontre na noção de necessidade a posteriori: nós simplesmente descobrimos necessidades empiricamente. Porém, foi argumentado (e.g., por Bealer em “The Philophical Limits of Scientific Essentialism” e alguns trabalhos mais recentes, e por Korman em “Law Necessitarianism and the Importance of Being Intuitive”) que estabelecer as necessidades a posteriori requer o uso da intuição. Penso que esses argumentos são convincentes. Você não deve achar isso, se sua solução for as necessidades a posteriori. Eu estaria interessado em ouvir o que você pensa que está errado com tais argumentos, se você não se importar em compartilhar.

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Postado por John Bergson / terça feira, 31 de julho de 2007, às 07:02

Devo adicionar que estou perguntando, pois não acho que abrir os periódicos que você menciona seja de grande ajuda. Todos os artigos que li (reconhecidamente poucos – o último foi o artigo de Grimm em setembro de 2006 BJPS, eu acho) confiam na intuição, i.e., assim como vários exemplos ou afirmações parecem confiar.

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Postado por: Edouard Machery / terça-feira, 31 de julho de 2007, às 08:47 PM

John,

É útil distinguirmos duas afirmações:

1. Todo problema que conta correntemente como filosófico pode ser resolvido sem apelo às intuições.

2. Há inúmeros problemas que pelo menos um grande número de filósofos (se, não todos, pelo que parece – veja a postagem de Antti) contam como filosóficos e que podem ser, e tipicamente são, resolvidos sem confiar em intuições.

1 é obviamente falsa, parcialmente pelas razões que você menciona.

Eu disputo que 2 seja verdadeira. Por exemplo, a maior parte dos filósofos da ciência confia em estudos de caso (exemplos de episódios científicos reais), ao esclarecer as noções usadas por cientistas (aproximadamente o que Carnap chamou de explicação), ao desenvolver sistemas formais, ou ao avaliar as melhores evidências que sustentam afirmações específicas. Nenhum desses métodos apela para as intuições – se você tomar como um paradigma de apelar para as intuições os casos de Gettier ou o caso de Gödel.

Agora, você deu uma olhada no BJPS e encontrou pessoas apelando para intuições. Eu não consigo realmente entender essa afirmação, pois não me está claro o que “apelar para as intuições” realmente significa para você. Acabei de notar que você preferiu escolher um artigo no BJPS que se entrelaça com a epistemologia tradicional (refiro os casos de Gettier em sua introdução). Penso que isto é mais uma exceção do que uma regra.

E eu abri o último tópico do Filosofia da Ciência (com um excelente artigo, escrito por… mim). O primeiro artigo, por Bruce Glymour, analisa a natureza dos modelos na genética de população e os compara aos modelos causais desenvolvidos na literatura sobre raciocínio causal. Glymour descreve ou caracteriza diferentes tipos de modelos. O segundo artigo, por Gualtiero Piccinini responde ao meu artigo de 2005: o tópico é se a classe dos conceitos em psicologia é um tipo natural. O terceiro artigo foi a minha resposta. Esses dois artigos, em sua maior parte, esclarecem afirmações específicas e avaliam a evidência relevante. O quarto artigo descreve um estudo de caso de Pierre Curie que objetiva distinguir dois modos de apelar para a simetria em física. (Etc.) Moral: nada ao menos vagamente similar aos casos de Gettier.

Conclusão: se somos levados a concluir que confiar em intuições não é uma metodologia apropriada, talvez tenhamos que rejeitar *alguns* tópicos filosóficos (aqueles sob a ponto 1). Porém, há outros tópicos que requerem outros métodos.

É claro que você pode não achar esses tópicos interessantes. Justo o bastante. Daí, então, você pode esperar que a antecedente da condicional não seja verdadeira.

Edouard

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Postado por: Antti Kauppinen / quarta-feira, 1 de agosto de 2007, às 02:14 AM

Edouard,

Você está tentando dizer que a questão sobre se a seleção natural age nos genes, organismos, ou talvez grupos, não é à primeira vista uma questão biológica? Eu pensei que isso fosse um tanto óbvio. Mas como ela não se mostra óbvia, digo que é uma questão biológica que não pode ser respondida sem compromisso com inúmeras pressuposições filosóficas sobre a natureza da causação, as virtudes das teorias, e assim por diante. Assim, não é nenhuma surpresa os filósofos da ciência prepararem suas habilidades e participarem do debate. Mas, quando Dawkins diz que são os genes que são selecionados, de nenhuma maneira se segue que ele esteja fazendo uma afirmação filosófica.

O passo falacioso no seu raciocínio é passar de “os filósofos da ciência passam bastante tempo falando sobre X” para “X é um problema filosófico”. É claro que os filósofos de ciências especiais, seja biologia, física ou psicologia, se ocupam com debates acirrados dessas ciências, especialmente daqueles em que o nível de abstração é tanto que eles não podem ser resolvidos por mais observações e experimentos. Se eles não se ocupassem de tais problemas, eles dificilmente seriam, por exemplo, filósofos da biologia. Mas isso não faz com que esses debates sejam filosóficos. De fato, os filósofos da biologia que conheço ficariam muito felizes se seus trabalhos contribuíssem para o progresso da própria biologia. Eu não gostaria de definir a priori que essa alegria não existe ao dizer que o seu envolvimento no problema o torna filosófico.

(Nota esclarecedora: quando eu digo que os filósofos de ciências especiais trazem abordagens filosóficas gerais da causação, explicação, e assim por diante, para dentro de debates científicos particulares, não quero sugerir que isso é uma via de mão única – as abordagens gerais também serão informadas pela prática atual da ciência).

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Postado por: Edouard Machery / quarta-feira, 1 de agosto de 2007, às 08:57

Antti,

Não vejo nada de falacioso na inferência de “x é um tópico/questão/problema tratado por um grupo de filósofos Y usando métodos filosóficos” para “x é um problema filosófico”. Estou curioso para ver como tal argumento seria.

Além do mais, é falacioso concluir que se um problema/tópico/questão x é biológico (psicológico, físico, lógico, lingüístico etc), então ele não é filosófico. Obviamente, ele pode ser ambos, não pode? De outro modo, você estaria excluindo, por definição, muitos e muitos tópicos da filosofia e os debates ao seu redor.

Edouard

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Postado por: quantum anthropo / quarta-feira, 1 de agosto de 2007, às 09:36 AM

Suponhamos que os problemas filosóficos reais não tenham história. De modo correspondente, alguns problemas científicos não solucionados são filosóficos, i.e., eles podem ser associados intuitivamente aos “limites da razão”. Logo, a filosofia experimental é transcendental.

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Postado por: Jonathan Weinberg / quarta-feira, 1 de agosto de 2007, às 05:33 PM

Não penso que haja muito espaço para desafiarmos o status filosófico do trabalho que Edouard aprova e pratica. Não que a filosofia, como uma profissão ou como uma disciplina intelectual, tenha quaisquer fronteiras remotamente fixadas. Como uma regra geral, algo em que os filósofos trabalham é uma maneira historicamente contínua pela qual o que for considerado filosofia nas décadas (/séculos/milênios) anteriores irá contar como filosofia.

Penso que uma preocupação mais importante é – sem levarmos em conta se o que ele próprio está fazendo conta como filosofia – se Edouard está jogando muita filosofia ralo a fora. É difícil ver onde se inserem as veneráveis e antigas questões sobre o livre-arbítrio, sobre a bondade moral, sobre a normatividade epistêmica, e semelhantes. Não vejo porque os desafios empíricos a métodos filosóficos particulares deve ter a implicação de que todos os tópicos filosóficos sejam eles próprios um melodrama [hokum]. A menos, é claro, que se pense que o método analítico atual é simplesmente o modo de atacar tais questões; mas tal afirmação me atinge de maneira bastante suspeita.

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Postado por Edouard Machery / quarta-feira, 1 de agosto de 2007, às 08:23 PM

Jonathan,

Certamente seria um erro asserir que *todos* os tópicos que são correntemente tratados por meio de intuições não podem ser tratados por métodos diferentes. Nem sei, ao menos, como esse argumento prosseguiria.

Porém, não é claro como podemos tratar de pelo menos *alguns* tópicos se não confiarmos em intuições. O melhor caso pode ser a natureza da referência.

Por falar nisso, você não pensa que o ataque contra o método da intuição de Steve Stich e outros é uma maneira indireta de argumentar que ao menos alguns tópicos filosóficos são, como você disse, melodramáticos (nova palavra para mim)? Isso certamente é o que eu sempre pensei do nosso trabalho sobre referência.

Edouard

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Postado por: Jonathan Weinberg / quarta-feira, 1 de agosto de 2007, às 10:10 PM

Falando de modo justo e bem específico, sempre haverá alguns debates que terão sido motivados inteiramente pelos tipos de intuições aqui em ataque, e esses debates irão de fato se mostrar melodramáticos, segundo o que eu disse (suponho que esta seja minha visão sobre a questão acerca de o que é requerido para o conhecimento além da crença verdadeira justificada). Mas isso não será verdade de nenhuma grande questão, eu penso.

Como referência, tomo as lições dos seus artigos assim: (i) é mau basear sua teoria da referência em intuições; (ii) é mau tentar usar uma teoria da referência para responder questões substantivas de outras áreas (como as mudanças científicas ou a conservação da conversa sobre raça); e disso se segue que (iii) é realmente ruim tentar usar uma teoria da referência baseada em intuições para responder questões substantivas de outras áreas. Mas isso não mostra que essas outras questões substantivas não são boas. E isso não mostra que não haja tópicos interessantes com relação à referência – eu diria que, de uma forma mínima, poderíamos tratar da “referência” com o mesmo modelo, digamos, que o que tratamos do “gene”, mas tendo como lar científico a linguística e a ciência cognitiva, em vez de a genética de população e a biologia do desenvolvimento.

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Postado por: Edouard Machery / quinta-feira, 2 de agosto de 2007, às 11:26 AM

Jonathan,

Você escreveu: “Mas isso não mostra que essas outras questões substantivas não são boas”.

Isso certamente é verdade. Nosso trabalho sobre a referência não estabelece que não haja outro modo de estudar a referência. Porém, na minha visão, isso faz o fardo da prova cair sob pessoas interessadas em tópicos com relação à referência: se você quer discutir sobre referência, então você precisará descrever um método que não apele às intuições.

Você também escreveu: “E isso não mostra que não haja tópicos interessantes com relação à referência – eu diria que de uma forma mínima poderíamos tratar da “referência” com o mesmo modelo, digamos, que o modelo que tratamos de “gene”, mas tendo como lar científico a linguística e a ciência cognitiva, em vez de genética de população e biologia do desenvolvimento”.

É verdade que se a referência fosse um tópico de uma das ciências que você mencionou, haveria ipso facto tópicos substantivos sobre a referência e um ou muitos métodos para lidar com eles. O ponto é: a referência não é um tópico de nenhuma das ciências que você mencionou – nem linguística e nem ciência cognitiva. Tal como foi notado por alguns lingüistas (e.g., por Nunberg), não é claro como relacionar o que os filósofos da linguagem vêm fazendo com o que os semanticistas estão fazendo.

É claro, você pode dizer que a referência *pode* se tornar um tópico de pesquisa em alguma ciência. Mas, igualmente, ela pode não se tornar…

Edouard

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Postado por: Jonathan Weinberg / quinta-feira, 2 de agosto de 2007, às 12:11 PM

“Tal como foi notado por alguns lingüistas (e.g., por Nunberg), não é claro como relacionar o que os filósofos da linguagem vêm fazendo com o que os semanticistas estão fazendo”. Certo; e já que tantos filósofos da linguagem estão praticando uma versão guiada por intuição do romantismo, você e eu concordaríamos que eles têm problemas. Mas penso que concordaríamos que os semanticistas estão fazendo algo, assim como os profissionais da ciência cognitiva, que fazem uso de termos intencionais em seu vocabulário teórico. O que eu estou dizendo é que este é um bom lugar para filósofos observarem, se estiverem interessados na referência.

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Postado por: Edouard Machery / quinta-feira, 2 de agosto de 2007, às 09:07 PM

Jonathan,

Uma discussão séria sobre a referência nos levaria para fora do assunto, portanto serei breve. Embora eu não esteja certo de ter acompanhado seu pensamento, tomo como se você estivesse pensando de acordo com o seguinte curso de idéias.

Os semanticistas atribuem valor de verdade a sentenças e os psicologistas explicam o comportamento ao atribuir às pessoas estados mentais com conteúdo. Essas atividades científicas fazem sentido apenas se a referência é uma propriedade real (ou seja, aproximadamente, uma propriedade sobre a qual uma teoria que especifica quando algo refere a outro algo pode ser desenvolvida). Os filósofos interessados na referência poderiam observar essas atividades científicas para teorizar sobre a referência frutuosamente. É essa a idéia?

Penso que o segundo passo não é claro. Não é claro que os semanticistas tenham de assumir que a referência é uma propriedade sobre a qual uma teoria possa ser desenvolvida. Antes disso, eles podem adotar uma visão deflacionista. (Para outra abordagem, veja a visão de Paul Pietroski sobre a semântica.)

Agora, com respeito à psicologia, duvido que haja muito para aprender sobre a referência a partir da atribuição de estados com conteúdo. Essas atribuições se apóiam na maneira popular de atribuir estados mentais.

Postado por: quantum anthropo / quinta-feira, 2 de agosto de 2007, às 09:07 AM

De fato, alguns tópicos filosóficos não são ficções wittgensteinianas preditas pelo Postulado de Minkowski Welt. Talvez eles existam em algum espaço pré-lógico da intuição transcendente, na forma de problemas não resolvidos da matemática, da física, da biologia, ou mesmo da psicologia…

Assim, a filosofia experimental como um tipo novo de transcendentalismo experimental pode ser possível. Por isso, provavelmente, o maior problema desse tipo de filosofia experimental é encontrar um Experimento Simples e Claro para identificar um problema filosófico.

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Postado por: Antti Kauppinen / quinta-feira, 2 de agosto de 2007, às 10:26 AM

Edouard,

Você escreveu:

“Não vejo nada de falacioso na inferência de “x é um tópico/questão/problema tratada por um grupo de filósofos Y usando métodos filosóficos” para “x é um problema filosófico”. Estou curioso para ver como tal argumento seria.”

Bem, aqui está um tal argumento: “Filósofos tais como Descartes, Hume, e antes Aristóteles e Platão, certamente estavam interessados nas questões sublinhadas por Josh. Mas eles também estavam interessados em questões biológicas (lembre-se do trabalho de Aristóteles sobre o crescimento das aves), em questões cosmológicas (lembre-se do Le Monde de Descartes), em questões geográficas (alguns trabalhos de Kant), e assim por diante. Mas agora, se Josh estivesse certo, ao conseguir um doutorado em Biologia do Desenvolvimento, eu estaria envolvido com a filosofia, pois eu estaria fazendo as mesmas questões, com ferramentas modernas, que era do interesse de Aristóteles. Porém, isso é uma tolice.”

Estou tentado a acrescentar um sorriso, mas certamente isso não é necessário.

A fim de esclarecer minha posição à luz do comentário de Jonathan, como disse na minha primeira observação, digo que qualquer pessoa realizando um trabalho empírico sobre assuntos empíricos é livre para chamar a isso de ‘filosofia’, se quiser. Tenho um problema apenas se isso significa insistir numa dessas afirmações:

a) esses métodos podem ser usados para resolver os tipos de questões que são paradigmaticamente filosóficas

b) as questões que não podem ser resolvidas por esses métodos não valem a pena ser trabalhadas

Além do mais, chamar os debates das ciências empíricas de “filosóficos”, quando ambos as questões e os métodos diferem dos debates filosóficos paradigmáticos, apenas traz confusão. Este é um problema com relação aos tipos de pesquisa psicológica que Josh e você têm recentemente se envolvido. Em contraste, o tipo de trabalho que Thomas, Eddy, e outros fazem em seus dias otimistas – quando tentam encontrar respostas para questões conceituais clássicas por meios empíricos – não poderia ser rotulado de maneira mais informativa do que com “filosofia experimental”.

Finalmente, seu argumento básico pelo status filosófico do trabalho psicológico parece ser isto:

1) Ou toda a filosofia é guiada por intuição, ou ela não é.

2) Toda a filosofia não é guiada por intuição – observar qualquer tópico de BJPS.

3) Portanto, toda a filosofia não é guiada por intuição.

4) Assim, o estudo não guiado por intuição do processo de atribuição psicológico popular é filosofia.

Mas há um grande abismo entre 3 e 4. Tudo que o argumento até 3 mostra é que os filósofos nem sempre apelam para intuições em seus argumentos (o que é incontestadamente verdadeiro). Eles frequentemente apelam para a lógica e às vezes constroem modelos formais, por exemplo. Porém, uma grande parte desses métodos filosóficos incontroversos ainda são não empíricos (embora eles sejam aplicados a debates empíricos, como no caso das filosofias de ciências especiais, por exemplo). O fato de que nem toda a filosofia é guiada por intuição ainda não mostra que qualquer estudo empírico pertença à rubrica. Estabelecer a continuidade, ou mesmo a semelhança de família, é um trabalho particularmente difícil, principalmente se o que você faz é exatamente o que praticantes de outra disciplina fazem. Suponho que este ponto esclarece o que eu disse anteriormente sobre a saliência das diferenças dependendo de onde você se encontra.

Antti

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Postado por: Edouard Machery / quinta-feira, 2 de agosto de 2007, às 09:07 PM

Antti,

– Penso que você terá que fazer melhor se você quiser mostrar que a inferência de “X é um tópico/questão/problema tratada por um grupo de filósofos Y utilizando métodos filosóficos Z” para “X é um problema filosófico” é falaciosa.

O argumento que você menciona

– A afirmação de que aquilo que Josh, eu e outras pessoas estamos fazendo conta como filosofia não intenta implicar nem a nem b. Lembre-se que a estratégia traçada na postagem original é puramente defensiva: é uma resposta a alguém que negaria que o que estamos fazendo seja filosofia.

É claro que, sobre outros fundamentos, pode-se endossar a ou b. Eu endosso b. O que penso sobre tais assuntos foi mais bem colocado por Steve Stich em sua citação no novo volume de Pykes: “não há questões filosóficas registradas que valem à pena responder, e nem há nenhum método filosófico produtivo que não se envolva com as ciências. Mas há muitas questões profundamente importantes (e fascinantes e frustrantes) sobre a mente, a moral, a linguagem, a cultura e mais. Para progredir nelas, precisamos usar tudo que a ciência pode nos dizer, e qualquer método que funcione”. É claro, tal posição não se segue da filosofia experimental – de fato, ela é rejeitada pela maior parte dos filósofos experimentais.

– Você argumenta que chamar o tipo de questões que Josh e eu estamos lidando de filosofia cria “confusão”. Porém, tal afirmação se apóia no que é considerado um problema e um método filosófico paradigmático. As centenas de filósofos que se reúnem na PSA, SPP, ISH (filosofia da biologia), provavelmente têm diferentes paradigmas – de fato, as unidades de seleção seriam um problema filosófico paradigmático para eles.

– Com respeito ao seu último ponto, penso que você quer distinguir entre ser empírico e ser experimental. Muitos debates na filosofia da ciência são empíricos, no sentido de que suas verdades dependem de como o mundo é e no sentido de que a plausibilidade das diferentes posições depende de fatos empíricos. Neste sentido, não consigo perceber a distinção entre o debate sobre as unidades de seleção (um debate filosófico e outro biológico) e o que eu estou fazendo.

Então, talvez, o ponto seja o que é experimental? Mas como pode ser uma distinção relevante a maneira como coletamos a evidência? Por que importa se coletamos a evidência por nós mesmos ou se vamos ao departamento de psicologia e perguntamos aos nossos colegas (cognição aberta e TICS)?

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Postado por: Mark Phelan / quinta-feira, 2 de agosto de 2007, às 04: 25 PM

Proposta para Critério de Filosofia:

Acredito que coletei todos os que vi mencionados, mas talvez eu tenha perdido algum. Isto é um grande trabalho em análise conceitual.

1. (Resposta de Joshua, interpretação de Edouard) Qualquer coisa que certos filósofos históricos fizeram conta como filosofia (para sempre).

Problema: Aristóteles estava fazendo evo-devo, evo-devo conta como filosofia… ops!

2. (Resposta de Eddy e Thoomas, interpretação de Edouard) Análise conceitual conta como filosofia. (X-phi é um ramo da análise conceitual, x-phy = filosofia.)

Problema 1: Como um critério, não há problema para esse critério. Porém, Edouard pensa que a análise conceitual (de qualquer tipo) é sem esperança sem uma abordagem do erro da competência/performance. Logo, a filosofia não tem esperança.

Resposta: Mas a filosofia não é desesperançosamente sem esperança. Por exemplo, se sabemos (por análise conceitual tradicional ou análise conceitual x-phi) que as pessoas usam o conceito ‘intencional’ de uma certa maneira, então sabemos que se uma abordagem da distinção competência/performance está correta (digamos, uma abordagem holística dos conceitos onde não há erros performáticos), certas coisas são verdades com relação ao conceito de ‘intencional’.

Problema: Ok, mas você nunca saberá realmente sobre o conceito, pois o debate com relação a qual abordagem do conceito de individuação é a correta “… não parece levar a um consenso” (Machery).

Resposta: A condicional é implausível. É, então, a melhor hipótese a de que nunca realmente saberemos? Mas por que a visão obscura? Os problemas filosóficos são resolvidos às vezes por um pensador claro (digamos, Grice), embora anteriormente parecessem intratáveis.

Problema 2: Se o critério é tomado como uma condição necessária, ele pode ser muito restrito (um problema para o critério se for um critério para a filosofia). (Solução: torná-lo uma condição suficiente.)

3. (Critério proposto por Edouard, eu acredito) Não desenhe as fronteiras da filosofia ao observar “as questões ou tópicos tratados pelos filósofos e não filósofos”; observe seus métodos. Os métodos filosóficos são ‘menos empíricos’.

Problema: Os métodos dos críticos de arte também são ‘menos empíricos’, e a crítica de arte não é filosofia… opa! (Mas talvez este critério seja uma condição necessária, e não suficiente.)

4. (Critério de Gopnik) A filosofia é apenas qualquer coisa muito teórica.

Problema: Maximamente permissivo. Num sentido intuitivo, há crítica de arte muito teórica, e também biologia evolucionária, arte e música. Tocar free jazz é um exercício de filosofia? É bem teórico.

5. (Critério de Eric – parece algo a partir do trabalho de Gopnik, mas com um critério enfocado nos objetos de pesquisa em oposição ao enfoque a um dos métodos. O de Gopnik admite naturalmente uma leitura enfocada em algum método.) A filosofia trata das questões mais fundamentais de qualquer domínio.

Problema: Mas muito da filosofia não faz isso. Certos trabalhos sobre implicaturas conversacionais são filosóficos, embora não sejam fundamentais. O mesmo é verdade para alguns trabalhos sobre interpretações equivocadas de teleosemânticas.

Resposta: Bem, estas questões são fundamentais para algum domínio.

Problema: Qualquer questão é uma questão fundamental para algum domínio; assim, isso também é permissivo demais.

6. (Critério de Antti) Alguém está fazendo filosofia, se está respondendo a questões filosóficas paradigmáticas (e, por assim dizer, a x-phi não pode responder tais questões).

Problema: Questões filosóficas paradigmáticas? O que faz uma questão ser paradigmaticamente filosófica? Presumivelmente (e Antti parece sugerir) é que ela seja o paradigma de uma questão filosófica para alguém. Mas para quem? Presumivelmente, os filósofos profissionais, e não os clérigos Barnes e Noble. Mas questões filosóficas paradigmáticas irão diferir radicalmente para alguém que faz filosofia da mente e para alguém que faz filosofia política. E por que os filósofos experimentais não contam? Estamos emperrados em meramente tentar narrar uns aos outros de modo a podermos moldar a filosofia à nossa própria imagem?

Uma alternativa é dizer que uma questão filosófica paradigmática tem alguma relação com a forma de uma questão filosófica. Mas, então, merecemos uma abordagem da essência de uma questão filosófica. Presumivelmente, o fardo da prova é da pessoa que quer excluir da filosofia algum conjunto de trabalhos. A x-phi não tem que provar o seu direito, tal como Antti gostaria que ela fizesse.

7. (Acredito que este seja o critério que eu sou a favor) A filosofia é o que atualmente os filósofos estão fazendo.

Isto é similar ao critério de Joshua acima, mas não é etiológico. Então, não precisamos contar como filosofia certos trabalhos de biologia do desenvolvimento, por exemplo. Esses trabalhos não são filosofia porque os filósofos não os estão fazendo. (Embora eles fossem filosofia quando Aristóteles os estava fazendo.)

Eu acho que a maior questão para este critério é ‘quem são os filósofos?’ Nós podemos falar que são aqueles profissionalmente treinados como filósofos, mas então Sócrates poderia não ser um. E, de todo modo, parece concebível dizer que há ‘filósofos populares’ [folk philosophers]. Seria circular apelar a questões filosóficas? Talvez não: os filósofos podem ser aqueles que estão respondendo questões filosóficas. Aquelas que eles propõem, já que eles são filósofos. E eles tornam-se filósofos ponderando as questões que filósofos anteriores fizeram filosóficas ao ponderar sobre elas.

Deixei passar algo?

Uma nota interessante: parece que o critério para a filosofia se divide em três categorias amplas:

A) Aquelas que definem a filosofia por referência aos seus tópicos.

B) Aquelas que definem a filosofia por referência aos seus métodos.

C) Aquelas que definem a filosofia por referência às pessoas.

Cordialmente,

Mark

…………………………..

Postado por: Edouard Machery / quinta-feira, 2 de agosto de 2007, às 09:07 PM

Mark:

-Esta é uma bela tipologia e eu concordo com as suas indicações.

– Você deixou passar uma objeção com respeito à sua última proposta. Os filósofos fazem centenas de coisas, como dormir, comer, andar, ler o New Tork Times, ler os relatórios Leiter, etc. Isto é filosofia? (então, seu critério deve ser apenas necessário).

– Note que eu não quero realmente defender nenhuma visão sobre o que a filosofia é. Como mencionado acima, meu argumento era uma simples resposta a alguém que objetasse que a filosofia experimental não é filosofia, com uma noção ampla o suficiente para incluir os debates empíricos da filosofia da ciência e da filosofia experimental. Numa visão estreita, a filosofia experimental não é filosofia, mas esse também seria o caso de muitas coisas interessantes, então estou feliz de não ser contado como fazendo filosofia.

Edouard

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