Qual o problema de um rala-e-rola entre irmãos?

Tamler Sommers

Tradução: Rodrigo Cid

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[O que a nossa reação ao incesto pode nos dizer sobre a moralidade]

O blogueiro e companheiro “Experimentos na Filosofia” Jesse Prinz postou algo sobre o artigo do psicólogo UVA Jon Haidt sobre diferenças políticas. Pretendo continuar a explorar as implicações filosóficas do trabalho de Haidt, perguntando se está tudo bem para Julie e seu irmão Mark fazerem sexo.

Aqui está um cenário retirado de um estudo conduzido por Haidt:

“Julie e Mark são irmã e irmão. Eles estão viajando juntos pela França nas ferias de verão da faculdade. Eles passam um noite sozinhos numa cabana perto da praia. Eles decidem que seria interessante e divertido se eles tentassem fazer amor. No mínimo, seria uma experiência nova para cada um deles. Julie já estava tomando pílulas anti-concepcionais, mas Mark também usou uma camisinha, só por segurança. Ambos gostaram de fazer amor, mas decidiram nunca mais fazer isso novamente. Eles mantiveram tal noite como um segredo especial, que os faz sentirem-se ainda mais próximos um do outro. O que você pensa sobre isso? Está tudo certo para eles fazerem amor?” (Tradução livre)

Se você é como a maioria das pessoas, sua resposta seria “absolutamente não”, mas você vai achar mais difícil do que você pensa justificar essa resposta. “Defeitos genéticos na procriação consangüínea”. Sim, mas eles estão usando duas formas de controle de natalidade (e se houver a mais remota chance de gravidez, Julie ainda poderá abortar). “Isso vai mexer com eles emocionalmente”. Pelo contrário, eles gostaram do ato, que os fez ficar ainda mais unidos. “É ilegal”. Não na França. “É nojento.” Para você, talvez, mas (obviamente) não para eles. Você realmente quer falar que atos privados são moralmente errados apenas porque muitas pessoas os acham nojentos? E assim por diante.

O cenário, é claro, foi desenhado para repelir as objeções morais mais comuns ao incesto, e ao fazer isso demonstra que muito do nossa raciocínio moral é uma maneira post-hoc de justificar os juízos que já foram alcançados por uma resposta emocional a uma situação. Embora gostemos de pensar em nós mesmos como chegando aos nossos juízos morais depois de uma esmera deliberação racionanl, ou ao menos depois de algum tipo de deliberação, o modelo de Haidt – “o modelo da intuição social” – vê o processo ao contrário. Nós julgamos e depois raciocinamos. A razão é o secretário de imprensa das emoções, out al como Haidt coloca, o doutor em engano [spin doctor] ex post facto das crenças que chegamos através de um processo em grande parte intuitivo.

Tal como Haidt reconhece, sua teoria pode ser encaixada dentro de uma grande tradição de filosofia e psicologia moral – um retorno da ênfase às emoções, que se iniciou com força total com os trabalhos dos filósofos escoceses Adam Smith e David Hume. Embora as teorias mais racionalistas de Piaget e Kolberg tenham sido dominantes em grande parte do século vinte, as abordagens de estilo-Haidt têm ganhado muitos aderentes nos últimos dez anos. O que nos leva à questão: há alguma implicação filosófica/ética deste modelo, ele deve ser o modelo certo? Na minha visão, há muitas implicações; e concluo esta postagem mencionando algumas delas.

Primeiro, embora Haidt possa discordar (veja a minha entrevista com ele para uma discussão sobre este assunto), acredito que o modelo de Haidt sustenta uma visão subjetivista da natureza das crenças morais. O meu pensamento é como se segue: chegamos aos nossos juízos por meio de nossas intuições emocionalmente carregadas, intuições que não deixam a impressão de ser nenhum tipo de verdade moral, mas ao invés disso são artefatos da nossa história biológica e cultural. Os modelos de Haidt revelam que há um pouco de auto-engano na prática e nas crenças morais. A força dessas intuições nos leva a acreditar que a verdade dos juízos morais é “auto-evidente” – pense na declaração de independência – em outras palavras, que eles correspondem a uma realidade moral objetiva de algum tipo. Esse é o motivo pelo qual tentamos com tanto afinco justificá-los depois do fato. Porém, nós temos pouca ou nenhuma razão para acreditarmos que tal realidade moral existe. (Devo adicionar que, contrariamente à perspectiva dos colunistas de jornal pelo país, que afirmar que uma visão pode levar ao relativismo moral ou ao subjetivismo não é equivalente a dizer que essa visão é falsa. Isto não é uma reductio ad absurdum. Se o modelo de Haidt é vindicado cientificamente, e ele de fato implica que o relativismo moral ou que o subjetivismo moral é verdadeiro, então temos que aceitar tal implicação. Rejeitar uma teoria simplesmente porque você se sente desconfortável com suas implicações é uma instância muito mais cética ou niilista do que qualquer coisa que eu tenha discutido nesta postagem.)

Em segundo lugar, e menos abstratamente, eu penso que faria sentido sujeitar os nossos próprios valores a um escrutínio bem mais crítico do que o que estamos acostumados a fazer. Se Haidt estiver certo, nossos valores podem não estar na base segura que acreditamos que eles estão. Podemos muito bem, depois de alguma reflexão, chegar a perceber que muitos de nossos valores não refletem as nossas crenças sobre o que faz uma boa vida. É importante notar que Haidt não afirma que é impossível para a razão modificar nossos valores morais ou os valores de outros. Ele apenas acredita que este tipo de processo acontece menos frequentemente do que acreditamos, e que quando os valores são afetados pela razão, isto ocorre porque a razão ativa uma nova resposta emocional, que por sua vez inicia uma nova cadeia de justificação.

Finalmente, penso que podemos nos tornar um pouco mais tolerantes com as visões morais dos outros (dentro, é claro, dos limites – as vezes muita tolerância é equivalente ao suicídio). Todos são motivados moralmente, tal como Haidt afirma: liberais deveriam parar de pensar nos conservadores como apenas motivados pela ganância e pelo racismo. E conservadores deveriam parar de pensar nos liberais como – tal como Jesse Prinz coloca em seu post – “ou ou agentes calculistas da degeneração moral”. Se Haidt estiver correto, devemos reconhecer até que as pessoas que consideramos serem os epítomes do puro mal – os fundamentalistas islâmicos que esquematizaram o 09/11, por exemplo –.são motivadas por objetivos morais, embora os pensemos como distorcidos. Tal como Haidt me contou na nossa entrevista:

“Uma das coisas mais estúpidas psicologicamente que alguém já disse foi que os terroristas de 09/11 fizeram isso porque eles odeiam a nossa liberdade. Isso é apenas idiotice. Ninguém diz: ‘Eles estão livres ali. Eu odeio isso. Eu quero matá-los.’ Eles fizeram isso porque eles nos odeiam – eles estão furiosos conosco por muitos motivos – e o terrorismo e a violência são ações morais, não no sentido de moralmente corretas, mas no sentido de moralmente motivadas.”

Parece plausível que, a fim de moldar nossas políticas propriamente, precisamos ter um entendimento acurado das motivações morais das pessoas com quem estamos em guerra.

Leitura complementar: Haidt, J . (2001). The emotional dog and its rational tail: A social intuitionist approach to moral judgment. Psychological Review. 108, 814-834.

Entrevista com Jon Haidt em “The Believer”

Original em inglês: http://www.psychologytoday.com/blog/experiments-in-philosophy/200804/what-s-the-matter-little-brothersister-action

Por Tamler Sommers, em 28 de Abril de 2008, às 11:41 h.

2 comentários

  1. Incrível!!!!

  2. O LIVRE ARBITRIO DEVE SER GUIADO POR UM CONJUNTO DE ASPIRACOES QUE REGEM UM SR TAIS ASPIRACOES PODEM SER,SOCIAIS,RELIGIOSAS,ETNICAS,POLITICAS,POR AI EM DEIANTE ,MAS NUNCA DEIXEMOS NOS ENGANAR OS VALORES MORAIS COMO UM TODO PRESEVAM OS HUMANOS EMANTEN NOSSA CONTINUIDADE.

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