Mini-cursos X-PHI

Meus caros,

O interesse pela Filosofia Experimental no contexto de Língua Portuguesa está a crescer de modo claro e sustentável, como tenho podido comprovar pelas reacções às actividades que têm sido divulgadas. Este blog foi o primeiro passo, o segundo é a preparação do livro “Filosofia Experimental” que será publicado entre 2011 e 2012, o terceiro passo é o Laboratório de Filosofia Experimental que será lançado/inaugurado nos próximos meses (provavelmente até ao final de Setembro), coordenado por mim e pelo Paulo Sousa, o quarto será um concurso de papers escritos em Português sobre experimentos e/ou sobre questões metafilosóficas da filosofia experimental, a ser anunciado nos próximos dias.

Neste post, gostaria de lhes pedir opiniões mais específicas sobre o quinto passo, que será um conjunto de mini-cursos sobre aspectos metodológicos da filosofia experimental. A ideia é dar ao filósofo condições metodológicas básicas para poder iniciar-se na X-PHI. Estamos presentemente a definir a estrutura desses cursos, que poderiam abarcar métodos da psicologia social experimental, da psicologia cognitiva, da psicofisiologia e até uma breve introdução à neurociência cognitiva. O curso seria realizado em Português e online para que todos os interessados possam ter acesso ao conteúdo e às tutorias, independentemente da localização geográfica.

Gostaria de receber algum retorno acerca deste “quinto passo”. Por enquanto, o projecto está num nível ainda exploratório, e é nesse sentido que pedimos a colaboração. Aqueles que quiserem questionar, sugerir, ou discutir alguma ideia, por favor comentem este post, ou enviem um e-mail para filosofiaexperimental@gmail.com . É realmente importante poder contar com a participação de todos os interessados neste momento.

abraço,

Carlos Mauro

14 comentários

  1. Olá a todos,

    acho que um mini-curso desses deveria, como tarefa imediata, traçar os contornos do que é filosofia experimental. Pode parecer óbvio dizer isto. Mas acredito que a proposta central da X-PHI ainda não foi inteiramente delineada. O que é mais importante: demarcar conceitos empiricamente ou por à prova a validade da intuição filosófica habitual? Não me parece intuitivo o papel dos experimentos na filosofia experimental.
    Em seguida, creio que os membros poderiam propor vários tipos de experimentos e poderíamos discutir suas implicações.
    O que acham?

    1. João, obrigado pelo comentário. Sim, concordo com você. De facto, a X-Phi ainda precisa construir contornos e limites mais bem definidos. Por exemplo, muitas vezes, uma parte da X-Phi parece atravessar a linha no sentido da psicologia social experimental.

      Levando em consideração esta necessidade apontada por você, acho que podemos pensar num conjunto de módulos lectivos que tratem de aspectos metafilosóficos. Podemos, pelo menos, colocar os participantes dentro do debate sobre o assunto.

      Você acha que este debate metafilosófico poderia ser um curso em separado? Ou acha melhor que sejam módulos introdutórios dentro do curso proposto?

      abraço,
      Carlos

  2. Rodrigo · · Responder

    Não vi muita diferença entre os experimentos X-phi e de uma pesquisa de opinião. Qual a função de saber a opinião, ou se quiser, a intuição do senso comum, a respeito da questão das descrições definidas, por exemplo? Pelos textos presentes no site isso não ficou claro para mim.

    1. Caro Rodrigo, obrigado pelo comentário!

      Concordo com a resposta do Rodrigo Cid à sua pergunta (veja abaixo).

      Acrescento apenas mais um ponto que julgo relevante, principalmente para os filósofos morais e da acção. Quando nos referimos a coisas como “crença”, “desejo”, “intenções”, “dever moral”, “fraqueza da vontade”, “certo e errado”, assim por diante, não o fazemos de modo neutro, isto é, estamos também submetidos como filósofos, necessariamente, à linguagem ordinária e à psicologia de senso comum (folk psychology). Sendo assim, interessa, ou deveria interessar, aos filósofos realizar e analisar experimentos neste nível explicativo, intrinsecamente mentalista, onde estados mentais causam coisas no mundo, além de aspectos transculturais e de género. Além disso, como parece ser o caso da acrasia, determinados conceitos investigados pelos filósofos parecem surgir e depender dos usos ordinários que deles são feitos (sobre isto, veja o post sobre a acrasia- fraqueza da vontade).

      É importante referir que a x-phi não se resume à pesquisa social experimental. Por exemplo, noutro âmbito e nível explicativo, há filósofos que utilizam a neurociência cognitiva como plataforma para alguns estudos filosóficos (veja no blog “experimental philosophy” (nos links do nosso blog) alguns exemplos disto).

      abraço,
      Carlos

  3. Rodrigo Cid · · Responder

    Oi, Carlos.

    Acredito que num mini-curso de x-phi seria muito interessante termos aulas sobre técnicas estatísticas, sobre os “efeitos” que podem influenciar um experimento (influência de uma pergunta sobre outra, má compreensão, influências morais etc), sobre técnicas de interpretação filosófica e estatística dos dados, sobre como obter os dados (em universidades ou fora delas, se deve-se obter uma permissão, se se deve anotar os nomes/identidades das pessoas-teste), sobre onde publicar os artigos advindos de um experimento x-phi, e sobre as áreas e problemas principais que estão sendo tratados pela x-phi.
    .
    Com relação ao mini-curso de metafilosofia x-phi, acho interessante que ele seja separado mesmo. Poderíamos assim ter dois mini-cursos, um metodológico e outro metafilosófico, de um curso mais geral de “Filosofia Experimental”.

  4. João e R.Cid, (e, claro, a todos os interessados)

    Os cursos seriam online para que possamos, a partir de uma plataforma virtual, oferecer aos interessados no Brasil, em Portugal e nos PALOP(s). Na opinião de vocês, qual seria o perfil do aluno destes cursos (metodológico e metafilosófico)? Acham que estariam interessados os alunos de mestrado e doutoramento e os pesquisadores (professores ou não), ou haveria mais pessoas interessadas?

    Pretendemos conseguir apoios para oferecer bolsas (pagamento do curso) para alguns participantes, mas não vamos conseguir oferecer a todos os interessados.

    abraço,
    Carlos

    1. Rodrigo Cid · · Responder

      Oi, Carlos.

      O perfil dos interessados? Acredito que quem se interessar pelo min-curso metodológico é alguém que já passou pelo debate metafilosófico e chegou à conclusão de que x-phi tem serventia filosófica. Isso nos leva aos mestrandos, doutorandos e pesquisadores.

      Mas acredito que o curso metafilosófico seria mais interessante para os que estão no final da graduação, a fim de que o interesse no método surja antes da decisão sobre a pesquisa de mestrado.

      Talvez os cursos tb sejam interessantes para os que trabalham na psicologia em fronteira com a filosofia e para estudantes de ética prática.

      Talvez os filósofos de países de língua portuguesa que trabalhem com filosofia da ciência, com filosofia da linguagem e com teses epistêmicas quineanas tb se interessem.

      Um abraço,

      Rodrigo Cid

  5. Rodrigo Cid · · Responder

    Oi, Rodrigo (meu xará).

    Muitas vezes em Filosofia apelamos para as intuições das pessoas para sustentar nossas teses. Por exemplo, quando falamos que é intuitivo que a linguagem funciona de uma certa forma, queremos dizer que as pessoas utilizam a linguagem de uma certa forma. Entretanto, essa é uma afirmação empírica que só poderia ser verificada com medição empírica. Da mesma forma talvez quando falamos sobre o deontologismo ser mais intuitivo que o consequencialismo em ética. O ponto é que a única forma de justificar essas afirmações é empiricamente; o que a x-phi tenta fazer.

    Os experimentos da x-phi são como os experimentos mentais que fazemos, só que com a medição das intuições das pessoas. Mas não é apenas as intuições das pessoas que queremos medir. Queremos entender também quais processos mentais estão envolvidos nas respostas das pessoas (por exemplo, se elas são influenciadas pelos seus juízos morais quando falam sobre intencionalidade).

    Além disso, ao obtermos dados empíricos sobre as posições pré-teóricas das pessoas, fazemos com que os filósofos tenham também que expor suas teorias levando em conta os dados. Por exemplo, se tenho dados que mostram que as pessoas aceitam em diversos níveis contradições no discurso, minha teoria do raciocínio teria que levar em conta gradações de valores de verdade para lidar com contradições, a fim de espelhar o que ocorre normalmente com as pessoas.

    Espero ter sido claro. Se não, é só perguntar.

    Um abraço,

    Rodrigo Cid

  6. Paulo Sousa · · Responder

    “Não vi muita diferença entre os experimentos X-phi e de uma pesquisa de opinião.” Rodrigo

    Aqui vai uma resposta abreviada e bem simplificada, focalizando em um dos principais metodos da filosofia experimental. Eh verdade que esses dois tipos de pesquisa tem alguma similaridade, na medida em que ambos pretendem conhecer as concepcoes do sense comum some algum assunto atraves de surveys. No entanto, existem pelo menos duas differencas basicas, que estao interligadas. A primeira diz respeito ao fato que a pesquisa em filosofia experimental utiliza cenarios de uma maneira que podemos chamar, no sentido tecnico to termo, experimental–fatores sao manipulados no contexto de cenarios de mode a ver se as diferentes combinacoes entre os niveis dos fatores manipulados tem efeito diferencial nos judgamentos dos participants (no mais, idealmente, existe random assignment aas diferentes condicoes do estudo, mas deixemos isso de lado). Por exemplo, se quero saber se o fator STATUS MORAL DE UMA ACAO eh relevante para o conceito comum de acao intentional, eu crio cenarios com acoes que se diferenciam em termos de status moral e vejo se isso afeta os julgamentos dos participantes estudados. As pesquisas de opiniao normalmente nao envolvem cenarios e, se envolvem, nao envolvem manipulacao de fatores—por isso nao sao nem experimentais nem quasi-experimentais no sentido tecnico desses termos (qualquer manual de desenho de pesquisa pode te dar uma explicacao mais detalhada do que estou dizendo aqui, mesmo se nao existe consenso absoluto sobre a definicao desses termos). A segunda difference eh que, em utizando esses scenarios e pedindo participantes pra fazer judgamentos de casos especificos (por examplo, eh essa acao X intencional?), a pesquisa em filosofia experimental esta pedindo para os partipantes usar os conceitos para categorizar os casos. Com isso, os participantes nao tem necessariamente que ter acesso explicito aos componentes que influenciam seus julgamentos—em um sentido relevante, ele podem simplesmente usar usas intuicoes para julgar os casos (normalmente a analogia com julgamentos de gramaticalidade de sentencas ajuda a entender esse ponto, apesar de existirem differencas entre intuicoes de gramaticalidade e de intuicoes relacionadas com outros conceitos). Em pesquisa de opiniao, ao contrario, as perguntas sao muito mais diretas (por exemplo, poderiamos perguntar diretamente aos participantes o que eles entendem por acao intentional) e envolvem um tipo de engajamento mais reflexivo e em muitos casos de mais limitado acesso aos componentes que fazem parte das concepcoes sendo estudadas.

  7. Olá Rodrigo, Olá Carlos,

    Boa semana para nós todos!

    Achei os comentários de vocês muito pertinentes, em todos os aspectos. Chego a pensar – e isto talvez possamos discutir – que a verdadeira natureza da filosofia experimental é o teste de experimentos mentais. É nesse sentido que ela não é mera pesquisa de opinião. Todos os experimentos mentais poderão um dia ser testados. É esse o ponto de vista quineano que uma epistemologia naturalizada deve herdar. É preciso então conceber testes para os experimentos mentais e, esses testes podem, num primeiro momento, ser realizados através do confronto dos conceitos com as suas diversidades culturais e sociais. As pesquisas empíricas servem, nesse sentido, de um guia realista para a imaginação filosófica.
    Será que estou no caminho certo?

    Um abraço a todos,

    João Teixeira

    1. Rodrigo Cid · · Responder

      Oi, João.

      Eu estava agora há pouco pensando sobre a natureza da x-phi. Pensei que ela talvez pudesse ser caracterizada por investigar problemas filosóficos da metodologia experimental, mas isso seria por demais abrangente para capturar a essência da x-phi.

      “Ouvindo” agora vc falando, e relendo o que eu mesmo escrevi, repenso minha noção de x-phi, e me parece que podemos concordar que se há algo em comum em toda x-phi não-metafilosófica é que sempre há o teste de um experimento mental.

      Isso nos levaria a uma questão: será todo experimento mental testável um tópico da x-phi? Parece-me que não já que há experimentos mentais testáveis por meios físicos, químicos, entre outros que não serão considerados parte da x-phi.

      De que tipo, então, seria o experimento mental próprio da x-phi?

      Um abraço,

      Rodrigo Cid

  8. Caros Rodrigo, Carlos e demais assinantes:

    Creio que a ciencia cognitiva, a inteligencia artificial e, mais recentemente, a neurociencia cognitiva têm podido testar experimentos mentais. Não vejo a X-PHI em descontinuidade com esses movimentos e disciplinas.
    O que ocorre com a X-PHI é sua possibilidade de testar os limites da razão. Para a X-PHI a razão humana não é universal, nem pode ser tomada universalmente. Quando se objeta, por exemplo, à inteligência artificial dizendo que a característica distintiva dos humanos em relação às máquinas e robôs é o fato destes últimos não poderem demonstrar o teorema de Gödel (era um argumento filosófico difundido na década de 1990) a X-PHI se perguntaria se o homem da esquina que vende hot-dogs poderia demonstrar o teorema de Gödel.
    É isso que irrita os filósofos: a X-PHI pode mostrar que a razão não é universal.

    Abraços,

  9. Bruno Coelho · · Responder

    Olá.

    Significa que não se pode adotar uma conceito de racionalidade que se aplique a todas as pessoas? De fato, há problemas que apenas um determinado grupo de pessoas pode resolver, se definirmos racionalidade como a capacidade de resolução desses problemas, então não haverá mesmo um padrão aplicável a todos.

    A razão pode não ser a mesma, mas acredito que as pessoas se vêem como possuidoras de alguma.

  10. Olá Bruno e assinantes,

    Concordo com você. Uma coisa é o aparelho digestivo, igual em todos os seres humanos, outra é a comida, que varia de ingredientes e temperos em cada cultura. A capacidade de raciocinar está para o aparelho digestivo da mesma maneira que a razão está para a comida. Cabe à filosofia experimental investigar as peculiaridades da razão e como ela pode afetar nossa capacidade de raciocinar. Da mesma maneira que se estuda como a comida afeta o aparelho digestivo.

    João

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