Uma nova abordagem da Filosofia sobre velhos problemas (compilação)

J. Knobe, K. A. Appiah, T. Maudlin, T. Williamson, B. Leiter, E. Sosa

Tradução: Rodrigo Cid  |  Revisão: Susana Cadilha
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Podem os métodos experimentais oferecer novos horizontes aos departamentos de Filosofia, que têm vindo a ser atacados por não integrarem uma componente prática?

http://www.nytimes.com/roomfordebate/2010/08/19/x-phis-new-take-on-old-problems


Um retorno à tradição

Joshua Knobe é professor assistente de ciências cognitivas e filosofia da Universidade de Yale. Ele estuda o papel da moralidade na cognição humana.

Se você tivesse apresentado essa questão a grandes figuras da história da filosofia – qualquer um desde Platão a Nietzsche –, eu suspeito que eles nem mesmo teriam entendido o que essa questão poderia querer dizer. Tradicionalmente, ninguém se preocupou muito com a distinção entre filosofia e psicologia. É esperado dos filósofos que pensem, num nível bem amplo e fundamental, sobre a natureza da cognição humana. E, para realizarem tal objetivo, é deles esperado que façam uso de todos os recursos intelectuais disponíveis, incluindo a psicologia, a história, a literatura, e muito mais além disso.

No século 20 algo peculiar ocorreu. Algumas pessoas começaram a sentir que a filosofia deveria ser entendida como um campo altamente especializado e técnico que poderia ser separado do resto do mundo intelectual. Então houve um senso crescente de que poderia haver uma disciplina da filosofia que simplesmente ignorasse as questões sobre como os seres humanos de fato pensam e sentem e se enfocasse, ao invés disso, em questões que pudessem ser resolvidas a partir “da poltrona”. This period strikes me as an aberration, a major departure from the way in which philosophy has traditionally been understood. Esta ideia parece-me uma aberração, porque se afasta consideravelmente do modo como a filosofia, tradicionalmente, é concebida.

Penso que isso  a que estamos assistindo agora – com o surgimento do interesse na filosofia experimental – é melhor entendido como um retorno a uma compreensão mais tradicional do que é a filosofia. Parece enganador descrever esse novo movimento em termos de filósofos pegando idéias da psicologia. O que vemos é antes uma vontade crescente de ignorar totalmente a distinção entre filosofia e psicologia. Assim, atualmente, podemos observar um grupo de jovens filósofos indo a campo e conduzindo seus próprios estudos, colaborando com psicólogos, publicando em periódicos de psicologia (muitas pessoas no campo nem mesmo sabem quais dos pesquisadores deveriam oficialmente contar como filósofos e quais deveriam contar como psicólogos.)

Acho estranho que as pessoas às vezes tomem esses desenvolvimentos recentes como um modo de, de alguma maneira, levar as coisas numa direção nova e radical. Uma resposta mais natural seria dizer que eles estão levando as coisas de volta para seu antigo caminho, de volta ao caminho do imortal Tratado da Natureza Humana, de David Hume (1739), com seu subtítulo “Uma Tentativa de Introduzir o Método Experimental de Raciocínio nos Assuntos Morais”.

Voltando a Aristóteles

K. Anthony Appiah é o autor de “Experiments in Ethics” e “The Honor Code“, e foi Presidente da Eastern Division of the American Philosophical Association (Divisão Leste da Associação Americana de Filosofia). Ele ensina filosofia em Princeton.

Neste momento, ética, filosofia da mente e filosofia da linguagem estão obviamente a tirar vantagem da grande proximidade com a ciência da computação, a psicologia, a linguística e a neurociência. Agora (tanto quanto no passado), filósofos individuais beneficiam da participação na experimentação e do engajamento efectivo com a teoria científica corrente.

Isso é novo? Não. Aristóteles estudou os polvos e outros moluscos. Em The Passions of the Soul (1649), Descartes discutiu o modo como os “movimentos dos músculos, e todas as sensações semelhantes, dependem de nervos, que são como pequenos fios ou tubos provenientes do cérebro”… William James migrou do departamento de fisiologia de Harvard para o seu departmento de filosofia em 1881.

A filosofia sempre trabalha melhor em diálogo com o resto das disciplinas, dentro e fora da academia. Você me pergunta sobre as interações da filosofia com as ciências psicológicas, mas a filosofia está também em diálogo com a física, antropologia, literatura e estudos literários, por exemplo. É verdade que há discussões que são apenas do interesse de filósofos. Elas podem ser valorosas também, mas não esgotam tudo o que há para saber.

A idéia de que a filosofia tem um método distintivo ou especial – reflexão fenomenológica, análise conceitual, ou o que vc disser – simplesmente deixa de fora muito do que, hoje em dia, é verdadeiramente útil para as pessoas em departamentos de filosofia (como também o foi no passado). Eu suspeito que isso será verdade para amanhã também.

O ponto principal da pesquisa universitária é perceber que temos muito a ganhar se prosseguirmos com os estudos multidisciplinares. De outro modo, trabalharíamos todos apenas em institutos de pesquisa de disciplinas isoladas. As unidades de pesquisa que fecharam seus programas de filosofia perderam um dos departamentos chave para fazer ligações trans-disciplinares e, assim, minaram a sua capacidade de fazer aquilo que deveria ser a sua missão.  Então – para colocar o caso, sem dúvida, de maneira um pouco polêmica – a questão real não é sobre a viabilidade da filosofia na universidade, mas é sobre a viabilidade de uma universidade sem a filosofia.

O Estudo da Realidade, por Any Name

Tim Maudlin é um professor de filosofia na Rutgers University, onde ele se especializou em filosofia da ciência, filosofia da física e metafísica.

Toda a realidade é assunto da filosofia e assim também para qualquer método que ajude a revelar como as coisas podem ser relevantes para a pesquisa filosófica. Filósofos da física (tal como físicos) querem saber a natureza da realidade física; filósofos da mente (tal como cientistas cognitivos) querem saber como nós formamos conceitos e raciocinamos sobre o mundo.

Talvez seja bastante frequente que os filósofos interessados na mente tenham tentado fazer generalizações a partir de casos singulares: o seu próprio.  A partir da introspecção sobre como ele ou ela pensa sobre as coisas, o filósofo pode pular para a conclusão de que todos pensam do mesmo modo. Uma consequência salutar da filosofia experimental é sujeitar as afirmações genéricas sobre como a mente funciona, ou sobre como a linguagem opera, a uma quantidade adequada de dados empíricos. Isto não equivale a uma revolução no método filosófico, mas a um melhoramento natural dos padrões de evidência.

Se os filósofos investigam muitas das mesmas questões que são objecto de estudo das ciências naturais, podemos nos perguntar por que a filosofia deveria existir como um campo independente. Há uns poucos séculos atrás todas as coisas feitas na universidade eram uma espécie de filosofia – que é, afinal de contas, apenas o amor pela sabedoria. Por exemplo, a grande obra de Newton chama-se “Os princípios matemáticos da filosofia natural”.

À medida que disciplinas como a física e as ciências cognitivas foram institucionalizadas, algum trabalho filosófico migrou para outras áreas da universidade. Mas os departamentos de filosofia continuaram a ser lugares onde questões fundamentais podem ser perseguidas, onde a busca pelo puro entendimento mais do que as aplicações práticas tem precedência sobre tudo o mais.

Em 1963, o grande físico P. A. M. Dirac escreveu um artigo sobre a física moderna, com particular incidência sobre a teoria quântica. Dirac dividiu os problemas na compreensão da teoria quântica em problemas de dificuldade de Classe 1 e dificuldade de Classe 2. As dificuldades de Classe 2 são puramente matemáticas: elas envolvem o surgimento de infinitos quando se tenta solucionar as equações. As dificuldades de Classe 1 têm que ver com o seguinte problema: “como se pode formar uma figura consistente por detrás das regras da teoria quântica?”. Dirac aconselhou os físicos a se focarem nas dificuldades da Classe 2. “É apenas o filósofo”, ele escreveu, “querendo ter uma descrição satisfatória da natureza, que se importa com as dificuldades da Classe 1”.

Pode ser surpreendente, e até desolador, ouvir que um físico como Dirac pôs de lado a busca por um entendimento compreensível da realidade física: este deve ser o tipo de questão que primordialmente ocupa a mente de um físico. Mas enquanto o desejo de compreender existir, e o valor de tal compreensão for aceito, os departamentos de filosofia irão florescer.

É imitação de psicologia?

Timothy Williamson é Professor Wykeham de Lógica na Universidade de Oxford.

Em princípio, a filosofia pode usar evidência de qualquer fonte confiável de conhecimento que seja. Isso obviamente inclui descobertas da psicologia experimental, da neurociência e das ciências cognitivas, tal como inclui evidências da matemática e da história. Nas áreas da filosofia contemporânea, tal como a filosofia da mente, tais evidências experimentais são usadas frequentemente.

Não é incomum os filósofos atualmente se engajarem em pesquisas em conjunto com psicólogos, cientistas cognitivos, e outros – ao, por exemplo, sugerirem novos tipos de experimentos. Eu mesmo já fiz um pouco disso. Quando chegamos às questões filosóficas sobre como adquirimos conhecimento por percepção, memória e raciocínio, seria loucura sugerir que nada relevante pode ser aprendido a partir de resultados empíricos.

O ponto principal é perceber qual é o modo mais efetivo de cada lado aprender com o outro.  Existem filósofos que odeiam a filosofia e que adorariam trocar a metodologia tradicional da filosofia (uma combinação de raciocínio abstrato e exemplos particulares), por algo como uma imitação da psicologia. Sem ao menos definir adequadamente o que é que eles estão atacando, eles usam resultados experimentais com um espírito seletivo e não-científico na tentativa de desacreditar a metodologia tradicional.

Em outros casos, experimentalistas tiram ilações para o estudo da moralidade a partir de exames cerebrais, de um modo comicamente ingênuo, sem se aperceberem da quantidade de pressuposições filosóficas das quais partem acriticamente em suas inferências – precisamente porque eles negligenciam as habilidades filosóficas tradicionais ao fazer distinções e avaliar argumentos. O perigo é a publicidade de tais trabalhos não-refinados darem um mau nome a desenvolvimentos construtivos nos quais os resultados experimentais esclarecem questões filosóficas.

A filosofia pode contribuir em muito para a busca da verdade ao refinar seus próprios métodos distintivos, e não ao imitar outras disciplinas. Não precisamos de filósofos como experimentalistas amadores ou como escritores de ciência pop. Ajudamos mais por meio de nossa habilidade em lógica, ao imaginar novas possibilidades e questões, ao organizar teorias sistemáticas abstratas, ao fazer distinções e outras habilidades similares.

A maioria dos filósofos contemporâneos entende que podemos aprender e ensinar melhor se a nossa disciplina estiver continuamente em interação com outras, tanto experimentais como não-experimentais.

Onde estão as crianças inteligentes

Brian Leiter é professor de direito e diretor do Centro de Direito, Filosofia e Valores Humanos na Universidade de Chicago. Ele escreve um blog sobre filosofia acadêmica.

Os filósofos, da antiguidade até ao presente, têm se preocupado com a natureza da mente e da ação humana, com as fontes da motivação, com as contribuições relativas  à razão e à paixão no comportamento humano e com a capacidade dos indivíduos de exercer controle consciente de suas vidas.

Uma vez que a revolução científica do início da era moderna chegou às ciências humanas no fim do século 19, um novo conjunto de instrumentos se tornou disponível para avaliar a precisão das asserções sobre esses tópicos filosóficos perenes com relação à mente e à ação. A idéia de que o trabalho filosófico nesses tópicos poderia prosseguir independentemente de o que hoje é chamado de “ciência cognitiva” – uma idéia que alguns filósofos retrógrados ainda abraçam – é infeliz. Pela mesma razão, a ciência cognitiva precisa da filosofia, para esclarecer suas descobertas e enquadrar suas consequências.

Porém, a centralidade da ciência cognitiva para a filosofia que vale a pena é ortogonal ao tópico sobre qual o lugar atual da filosofia na universidade. A filosofia tem sido, por ao menos 30 anos, a mais interdisciplinar de todas as disciplinas humanísticas, uma que interage continuamente com a psicologia, com a biologia, com a física, com a linguística, com o direito, com a matemática e com a medicina – apenas para citar alguns dos campos que contam com os filósofos entre seus membros ativos e contribuidores.

Apesar disso, a filosofia, tal como outros campos do saber, está sob ataque em muitas instituições de educação superior. Esse ataque tem outras causas. A presente crise do capitalismo tem aumentado a ansiedade sobre o “valor de mercado” a curto prazo de todos os cursos. Essa pressão tem sido sentida mais agudamente em faculdades mais dependentes de receitas advindas de matrículas. Enquanto as chamadas universidades “elite” têm sustentado uniformemente e, em alguns casos, aumentado seu comprometimento com a filosofia e outras disciplinas das humanidades, outras faculdades têm tido uma visão mais curta. Eu sou cético de que, nessas faculdades, a filosofia informada pela ciência cognitiva teria uma melhor chance de escapar do revólver do administrador.

O que poderia ajudar a filosofia é o reconhecimento mais amplo de que ela permanece a única disciplina humanística que realmente ensina os estudantes a pensarem criticamente e analiticamente, e que isso explica o facto de os estudantes de filosofia serem os líderes nas performances em exames profissionais de faculdades como o LSAT. Mesmo no século 21, a inteligência importa – para advogados, para médicos, para solucionadores de problemas em todos os campos, e também para ter uma boa vida. Depois de aproximadamente 20 anos ensinando direito, posso confirmar que ninguém é mais inteligente que o aluno sério de graduação em filosofia. Qualquer faculdade que corte a filosofia de seus cursos pode também colocar um sinal dizendo: “crianças inteligentes devem se candidatar a outro lugar”.

Até à data, resultados não-convincentes

Ernest Sosa é professor de filosofia na Universidade Rutgers, especialista em epistemologia.

Ao longo de sua longa história, a filosofia tem tratado seus tópicos distintivos por meio de pensamento e dialética, e esses ainda são em grande parte os modos como essas questões são tratadas, e adequadamente tratadas – mesmo que a dialética seja atualmente conduzida não em pórticos, mas em periódicos e blogs. De modo compatível, as metodologias empíricas têm também frequentemente tido um papel importante para a filosofia.

Em princípio, a filosofia experimental é um desenvolvimento bem vindo; na prática, seus ataques aos métodos tradicionais não têm sido convincentes.

Extrai algo das ciências não é em si mesmo algo novo. Os filósofos vêm fazendo isso por muito tempo. Apenas pense em como a física relativista se relaciona com a filosofia do espaço e do tempo, ou como o fenômeno do cérebro dividido se relaciona com tópicos de identidade pessoal, para pegarmos apenas dois exemplos. O que é novidade é que os filósofos experimentais não se limitam a usar os dados da ciência, mas tornam-se eles próprios cientistas.  The novelty is rather that experimental philosophers do not so much borrow from the scientists as that they become scientists [Antes, o que é novo é que os filósofos experimentais não tomam tanto emprestado dos cientistas que os torne cientistas.].

Eles fazem isso desenhando e realizando experimentos que intentam esclarecer tópicos filosoficamente interessantes. E, se os filósofos estão mal equipados para esquadrinhar o cérebro ao modo dos neurocientistas, ou a mente ao modo dos psicólogos ou cientistas cognitivos, basta ampliar a auto-concepção do movimento [da filosofia experimental] para incluir o trabalho colaborativo interdisciplinar, desde que os cientistas demonstrem suficiente interesse por tais questões com significância filosófica, como sem dúvida alguns têm feito. De fato, muitos filósofos experimentais já definem o movimento desse modo interdisciplinar.

Concebida dessa forma, a filosofia experimental é um desenvolvimento bem vindo. Agora, os filósofos experimentais fazem parte dos “filósofos de X”, que têm por muito tempo trabalhado na fronteira entre a filosofia e X, seja X matemática, física, biologia, etc.

Se o desenvolvimento é bem vindo em princípio, isso é uma coisa. O quão importante e correto seus resultados têm sido até agora, isso é outra coisa. Neste ponto, a figura pode complicar-se. Os ataques à metodologia tradicional baseados em resultados experimentais não têm sido convincentes. No entanto, esses e outros resultados vêm lançando desafios interessantes e promovendo uma controvérsia saudável sobre a natureza e a direção adequada da nossa disciplina, uma controvérsia distintamente filosófica cujo objeto é então a própria filosofia.


One comment

  1. Hans Magno Alves Ramos · · Responder

    Eu não quero deixar uma resposta, quero deixar uma pergunta. O que diferencia a filosofia experimental da ciência?? Por exemplo, o que diferencia a filosofia experimental ética da psicologia ou sociologia moral??

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