Há diferenças entre filosofia experimental e ciência cognitiva?

Rodrigo Cid

Quanto mais a filosofia experimental cresce, mais ela se confunde com as ciências cognitivas. Muitos artigos e apresentações hoje em dia nos mostram dados empíricos e alguma tentativa de descobrir os mecanismos psicológicos (mentalistas ou fisiológicos) que fundamentam os dados empíricos obtidos. Isso parece bem adequado com a concepção de x-phi exposta por alguns filósofos – de que a filosofia experimental é um estudo empírico sobre as intuições das  pessoas com o objetivo de  descobrir os mecanismos psicológicos subjacentes a essas intuições. Mas o que estou em dúvida aqui é se essa concepção não torna a x-phi um ramo das ciências cognitivas em vez de num ramo da filosofia.

É claro que, até um certo ponto, a filosofia se preocupa com os mecanismos psicológicos que fundamentam nossas intuições. Como, por exemplo, quando formulamos um sistema crença-desejo para dar conta da motivação da ação (tal como para conta da apreensão de proposições). Mas em que medida eles são importantes? Serão esses mecanismos importantes por si mesmos? Certamente esses mecanismos e um bom entendimento do seu funcionamento são importantes, mas quem os toma como importantes em si mesmos são as ciências da psicologia e da neurologia (ou melhor, as ciências cognitivas em geral). Para a filosofia tais mecanismos são importantes na medida em que nos ajudam a fazer uma abordagem, a esclarecer, a resolver um problema filosófico. É muito difícil chegarmos a um acordo sobre o que são  os problemas filosóficos, mas podemos intuitivamente perceber que eles são diferentes dos problemas das ciências cognitivas. Meu ponto aqui não é de modo algum defender que a x-phi não é filosofia, e sim ciência cognitiva. Mas é antes indicar que a x-phi se estabelece numa fronteira de pequena espessura da filosofia com as ciências cognitivas, e que qualquer deslize pode levar o filósofo experimentalista para fora da filosofia. O que, por si mesmo, não é um problema, já que a obtenção de conhecimento de qualquer área é intrinsecamente boa. No entanto, borra (ainda mais, se já estiver borrada) a fronteira entre as ciências cognitivas e a filosofia.

Enfim, minha pergunta seria então: o que a filosofia quer com o conhecimento das intuições e dos mecanismos psicológicos a elas subjacentes?

4 comentários

  1. Bruno Coelho · · Responder

    O que sempre estiveram buscando, resposta aos problemas filosóficos. Apesar de os resultados experimentais não serem conclusivos, ao menos contribuem para o debate de um modo geral. Justamente no momento em que dados sobre pesquisas psicológicas estão sendo produzidos é que os filósofos deveriam dar atenção a eles, principalmente por estas pesquisas afetarem o modo como se pensam os problemas, revelando intuições sobre como os pensamos. P. ex., uma teoria sobre a responsabilidade moral, se obtivéssemos dados conclusivos sobre como as pessoas interpretam determinada situação envolvendo um comprometimento, e do outro lado tivéssemos uma teoria filosófica afirmando para agir de um modo inverso, se perceberia que mesmo a teoria filosófica sendo verdadeira, ela seria inaplicável, pois obrigaria as pessoas a agir de modo contra-intuitivo.

  2. Rodrigo Cid · · Responder

    Oi, Bruno. Obrigado pelos comentários. Eu, pelo que percebi, não sei se os x-phiers estão sempre procurando resolver um problema filosófico. Quando fazemos, por exemplo, experimentos para descobrirmos que há uma correlação entre diferenças cerebrais e diferenças morais, qual o problema filosófico que estamos tratando? Pode ser que saber dessa correlação nos traga conhecimentos interessantes para abordarmos problemas morais, mas a investigação dessa correlação não é ela mesma uma investigação moral. Eu não nego que devemos dar atenção a dados psicológicos, porém penso que a produção de tais dados, quando obtida sem enfocarmos no problema filosófico, é um trabalho que não é da filosofia, mas é das ciências cognitivas.

  3. Rodrigo, a pergunta que propõe parece interessante (“O que a filosofia quer com o conhecimento das intuições e dos mecanismos psicológicos a elas subjacentes?”).
    Sugere alguma resposta/tentativa?
    abraço, Carlos

  4. Eu sempre achei que tem muita diferença…
    Estudo psicologia e sou apaixonado por Filosofia, principalmente Kant

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