Experimentos na Filosofia (Joshua Knobe)

Tradução: Rodrigo Cid  |  Revisão: Susana Cadilha

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http://opinionator.blogs.nytimes.com/2010/09/07/experimental-philosophy/

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Aristóteles uma vez escreveu que a filosofia começa no maravilhamento, porém pode igualmente dizer-se que a filosofia começa com o conflito interno. Os casos que mais nos levam à filosofia são precisamente os casos nos quais nos sentimos como se algo nos empurrasse para um lado da questão, mas também como se algo, talvez igualmente forte, nos empurrasse para outro lado.

Mas como exatamente a filosofia pode nos ajudar em casos como esses? Se sentimos algo dentro de nós mesmos nos levando em uma direção, mas também nos levando na outra, o que exatamente a filosofia pode fazer para nos oferecer uma iluminação?

Uma resposta tradicional é que a filosofia pode nos ajudar ao nos oferecer alguma compreensão clara da natureza humana. Suponha que temos essa sensaçao de perplexidade perante a questão de saber se Deus existe, se há verdades morais objetivas, ou se os seres humanos têm livre-arbítrio.

A visão tradicional era a de que os filósofos poderiam nos ajudar a chegar ao fundo dessa perplexidade, explorando as fontes do conflito nas nossas mentes. Se você olhar o trabalho de alguns dos grandes pensadores do século 19 – como Mill, Marx e Nietzsche — pode encontrar achados intelectuais extraordinários com essa característica básica.

Tal como notado mais cedo neste mês no fórum Room for Debate do The Times, esta abordagem tradicional está de volta, como uma vingança. Os filósofos atualmente estão mais uma vez procurando as raízes dos conflitos filosóficos na nossa natureza humana, e eles estão mais uma vez sugerindo que podemos fazer progressos em questões filosóficas alcançando um melhor entendimento de nossas mentes. Mas atualmente os filósofos estão investigando tais tópicos usando um novo conjunto de metodologias. Eles estão investigando questões tradicionais usando todas os instrumentos da ciência cognitiva moderna.  Eles estão se agrupando com pesquisadores de outras disciplinas, conduzindo estudos experimentais, publicando em alguns dos maiores periódicos de psicologia. Esse novo tipo de trabalho veio a ser conhecido como filosofia experimental.

A discussão no The Room for Debate sobre este movimento trouxe à tona uma questão importante que vale a pena explorar um pouco mais. O estudo da natureza humana, seja em Nietzsche ou num periódico contemporâneo de psicologia, é obviamente relevante para certas questões puramente científicas, mas como poderia esse tipo de trabalho alguma vez nos ajudar a responder questões distintivamente da filosofia? Pode ser de algum interesse descobrir como as pessoas comumente pensam, mas como poderiam fatos sobre como as pessoas comumente pensam, em qualquer caso, nos dizer que visões estão de fato certas ou erradas?

Ao invés de apenas considerar essa questão de modo abstrato, enfoquemos num exemplo particular. Tome o antigo problema do livre-arbítrio – um tópico muito discutido aqui no The Stone por Galen StrawsonWilliam Egginton e centenasde leitores. Se todas as nossas ações são determinadas por eventos anteriores – apenas uma coisa causando a próxima, que causa a próxima – então é, em algum caso, possível para os seres humanos serem moralmente responsáveis pelas coisas que fazem? Face a tal questão muitas pessoas se sentem empurradas para direções que competem entre si – é como se houvesse algo o compelindo a dizer sim, mas algo também que o faz querer dizer não.

O que é que nos leva a essas duas direções conflitantes? O filósofo Shaun Nichols e eu pensamos que as pessoas podem ser conduzidas a uma visão pelas suas capacidades para o raciocínio teórico e abstrato, enquanto são simultaneamente conduzidas na direção oposta pelas suas reações emocionais mais imediatas. É como se suas capacidades para o raciocínio abstrato dissessem “Esta pessoa foi completamente determinada e, portanto, não pode ser responsabilizada”, enquanto suas reações emocionais imediatas ficassem gritando “Mas ele fez uma coisa tão horrível! Certamente ele é responsável por isso”.

Para testarmos essa idéia, conduzimos um experimento simples. Falamos a todos os participantes do experimento sobre um universo determinístico (o qual chamamos de “Universo A”), e todos os participantes receberam exatamente a mesma informação sobre como esse universo funcionava. A questão então era se as pessoas pensariam que era de todo possível ser moralmente responsável em tal universo.

Mas agora vem o truque. Alguns participantes foram questionados de um modo desenhado para acionar o raciocínio teórico e abstrato, enquanto outros foram questionados de um modo desenhado para acionar as reações emocionais imediatas. Especificamente, aos participantes de uma condição foi apresentada a seguinte questão abstrata:

No Universo A é possível para uma pessoa ser completamente moralmente responsável por suas ações? EU DIRIA: No Universo A é possivel a uma pessoa ser completamente responsavel sob o ponto de vista moral?

Enquanto isso, aos participantes da outra condição foi apresentado um exemplo mais concreto e carregado de contúdo emocional:

No Universo A, um homem chamado Bill se sentiu atraído pela sua secretária, e ele decide que a única maneira de ficar com ela é matando sua mulher e seus três filhos. Ele sabe que é impossível escapar da sua casa no caso de um incêndio. Antes de sair para uma viagem de negócios, ele aciona um mecanismo em seu porão que queima a casa e mata sua família.

Bill é completamente moralmente responsável por matar sua mulher e filhos?

Os resultados mostraram uma enorme diferença entre as condições. Dos participantes que receberam a questão abstrata, a vasta maioria (86%) disseram que não era possível para ninguém ser moralmente responsável num universo determinístico. Mas então, no caso mais concreto, encontramos exatamente o resultado oposto. Nele, a maioria dos participantes (72%) disseram que Bill de fato era responsável pelo que tinha feito.

What we have in this example is just one very simple initial experiment. Needless to say, the actual body of research on this topic involves numerous different studies, and the scientific issues arising here can be quite complex.  But let us put all those issues to the side for the moment.  Instead, we can just return to our original question.  How can experiments like these possibly help us to answer the more traditional questions of philosophy?

O estudo simples que vim discutindo aqui pode ao menos oferecer um esboço de como tal investigação funciona. A idéia não é que sujeitemos as questões filosóficas a algum tipo de pesquisa Gallup (“bem, os votos foram 65% a 35%, então penso que a resposta é … seres humanos têm livre-arbítrio!”). Antes, o objetivo é alcançar uma compreensão melhor dos mecanismos psicológicos na raiz do nosso senso de conflito e, então, começar a pensar sobre quais desses mecanismos são dignos de nossa confiança e quais estão simplesmente nos extraviando.

Então, qual é a resposta para o caso específico do conflito que sentimos sobre o  livre-arbítrio? Devemos colocar nossa fé em nossa capacidade de raciocínio teórico abstrato, ou devemos confiar em nossas respostas emocionais mais imediatas? Até o momento, não há consenso sobre essa questão dentro da comunidade da filosofia experimental. O que todos os filósofos experimentais concordam, entretanto, é que estaremos aptos a fazer um trabalho melhor ao abordar essas questões filosóficas fundamentais se pudermos chegar a uma melhor compreensão do modo como a nossa mente funciona.

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