Conceitos e Intuições Populares: da filosofia à ciência cognitiva (S. Nichols) [compilação]

Esta é uma compilação de excertos do artigo “Folk concepts and intuitions: from philosophy to cognitive science”, publicado por Shaun Nichols na revista Trends in Cognitive Sciences (vol. 8, No 11, Novembro de 2004).

Traduzido com autorização do autor.
Tradução: Pedro Cardona
Revisão Técnica: Susana Cadilha e Carlos Mauro

 

Introdução:

[i] “Os filósofos analíticos têm desde sempre utilizado métodos apriorísticos para caracterizar conceitos populares como ‘conhecimento, ‘crença’, ou o ‘ser moralmente errado’. Recentemente, alguns investigadores têm vindo a explorar metodologias das ciências sociais para caracterizar esses conceitos populares. Uma linha de trabalho tem explorado as intuições populares acerca de casos que são disputados dentro da filosofia. Uma segunda abordagem, com implicações potencialmente mais radicais, aplica métodos da Psicologia intercultural às intuições filosóficas. Trabalhos recentes nessa área sugerem que as pessoas em diferentes culturas têm, sistematicamente, diferentes intuições acerca de conceitos populares. Uma terceira via de pesquisa explora a emergência e a natureza dos conceitos populares nas crianças. Essas abordagens para caracterizar conceitos populares fornecem recursos importantes que vão complementar, e talvez em alguns casos dispensar, abordagens apriorísticas.”

Contexto filosófico:

[ii] “Conceitos como conhecimento, crença e o ser moralmente errado têm tido um papel central na filosofia, pelo menos, desde Platão. Como estes conceitos são centrais para a investigação filosófica, é preocupação principal de muitos filósofos conseguir uma caracterização adequada dos mesmos. Para além disso, muitos filósofos defenderiam que para responder a questões essenciais como ‘podemos conhecer algo?’, ‘as crenças existem?’, ou ‘é a moralidade relativa?’, precisamos, antes de mais, de ter uma ideia clara da natureza dos conceitos relevantes [1-4].

Na filosofia analítica, a abordagem dominante para caracterizar conceitos tem sido uma abordagem a priori na qual o filósofo considera se a análise proposta se adequa às suas intuições acerca de vários casos possíveis. Para analisar o conceito de conhecimento, por exemplo, o filósofo consulta as suas intuições acerca de vários casos, e o conceito de conhecimento será adequadamente caracterizado quando a análise corresponder às intuições. Então, pegando num exemplo bem conhecido, muitos filósofos aceitaram uma definição de conhecimento enquanto “crença verdadeira justificada”, de acordo com a qual se o sujeito S acredita na proposição p com base em boa justificação, e p é verdadeiro, então S sabe que p [5,6]. Contudo, esta análise tem sido desafiada por casos acerca dos quais muitos filósofos têm a intuição de que a crença verdadeira e justificada de uma pessoa não conta como conhecimento [7,8] (para um exemplo detalhado ver Caixa 1). Assim, somos encorajados a rejeitar a ideia de conhecimento como crença verdadeira justificada na medida em que vai contra as intuições acerca de casos possíveis.”

Exemplo:

[iii] “Um exemplo de análise conceptual usando intuições acerca de casos (caixa 1). De acordo com as definições tradicionais de conhecimento, S sabe que p só no caso de:

  (i) S acreditar que p

  (ii) Essa crença ser verdadeira

  (iii) Essa crença ser justificada

Considere, contudo, o seguinte caso: o amigo da Marie, Bill, viveu em Lincoln, Nebraska toda a sua vida. A Marie conclui a partir daí que o Bill vive numa cidade cujo nome foi dado em homenagem a um político famoso. A Marie não sabe que o Bill se mudou recentemente para Washington, D.C. Neste caso, a crença de Marie de que o Bill vive numa cidade cujo nome foi dado em homenagem a um político famoso é verdadeira e é também justificada, porque ela tem boas razões para acreditar que Bill ainda vive em Lincoln. Contudo, muitos filósofos analíticos (e muitos estudantes de licenciatura ocidentais) teriam a intuição de que a Marie não sabe que o Bill vive numa cidade cujo nome foi dado em homenagem a um político famoso [7,8,29]. Assim, conclui-se que o conceito de conhecimento não é adequadamente analisado enquanto ‘crença verdadeira justificada’.”

Será que existe uma coincidência entre as intuições dos filósofos e as intuições das pessoas comuns?

[iv] “Alguns filósofos têm-se perguntado o que é que, exactamente, é conseguido através desta abordagem que consiste em consultar as intuições acerca de casos particulares [9,10]. Está o filósofo que usa este método meramente vislumbrando a natureza dos seus próprios conceitos [11], ou, talvez mais amplamente, dos conceitos dos filósofos analíticos? Isto convidaria a uma preocupação óbvia, que seria a de incorrermos em alguma espécie de paroquialismo: se os filósofos analíticos estão meramente a elaborar análises das suas próprias intuições e conceitos, então não é seguro que o seu trabalho possa inspirar muito interesse na vasta maioria da população. Contudo, há uma forma natural de evitar esta preocupação. Uma pessoa pode defender que, apesar do método ser a priori, os resultados deste inquérito serão análises não só dos conceitos dos filósofos analíticos, mas também dos conceitos usados por leigos, por qualquer um de nós. Por isso, muitos filósofos analíticos vêem agora a análise conceptual como um projecto de descrição dos conceitos populares de crença,conhecimento, etc [3,4,12,13]. (…)

Contudo, esta abordagem também traz consigo a assunção importante de que as intuições dos filósofos analíticos serão representativas das intuições populares. À primeira vista, esta importante assunção carrega consigo um compromisso empírico. Quando um filósofo defende que a sua intuição acerca de um caso possível é representativa das intuições populares, isto normalmente deveria significar que, exceptuando erros de performance, as pessoas comuns teriam a mesma intuição quando deparadas com o mesmo caso. E, na realidade, o próprio método de recolher intuições acerca de casos possíveis pode ser estendido ao campo experimental. É exactamente isto que tem acontecido em trabalhos recentes feitos na intersecção da filosofia e das ciências sociais.”

Conceitos populares: metodologias científicas sociais

[v] “Os investigadores usaram várias abordagens diferentes para investigar conceitos populares. O foco aqui será nos trabalhos que se serviram de técnicas da psicologia social, da psicologia intercultural, e da psicologia do desenvolvimento.

Psicologia social e conceitos populares

Uma tendência tem sido a de explorar intuições populares usando inquéritos sócio-psicológicos em casos que são disputados dentro da filosofia [14-17]. Ajudará se considerarmos um caso em detalhe, por isso centro-me aqui em trabalho empírico recente sobre o conceito popular de acção intencional. Na literatura filosófica, a ‘visão simples’ de acção intencional é a seguinte: se S fez intencionalmente A, então S pretendia fazer A [18]. Filósofos têm discordado acerca de saber se isto é coerente com as nossas intuições – alguns filósofos rejeitam a visão simples [19,20] enquanto que outros a defendem [21,22]. Filósofos de ambos os lados têm trazido formas subtis e sofisticadas de abordar a questão. Mas, até recentemente, o que eles não têm feito é perguntar às pessoas. Num conjunto de experimentos, Joshua Knobe apresentou a adultos casos que são desenhados para discernir se as pessoas respondem de acordo com a visão simples ou não [23]. Knobe apresenta o seguinte cenário:

 ‘O vice-presidente de uma empresa foi ter com o presidente do quadro e disse, “Nós estamos a pensar em começar um novo programa. Vai ajudar-nos a aumentar os lucros, mas vai prejudicar o ambiente.” O presidente do quadro respondeu: “Não quero saber rigorosamente nada acerca de prejudicar o ambiente. Só quero fazer tanto lucro quanto possível. Vamos iniciar o novo programa.” Eles começaram o novo programa. Consequentemente, o ambiente foi prejudicado.’

Confrontados com este dilema, a maioria dos participantes disse que o agente prejudicou intencionalmente o ambiente, mas relativamente poucos disseram que foi intenção expressa do agente prejudicar o ambiente. [13,23,24]. Estes resultados sugerem que o conceito popular de acção intencional não está em conformidade com a visão simples.”

Psicologia intercultural e conceitos populares

[vi] “Os conceitos populares também têm sido investigados interculturalmente, novamente usando intuições comuns acerca de casos possíveis. Investigadores nesta área encontraram aquilo que parecem ser diferenças culturais gritantes entre intuições envolvendo conceitos populares como o conceito de moralmente errado, conhecimento e referência [28-31]. Algum deste trabalho é construído a partir de uma pesquisa anterior, realizada por Nisbett e colegas, que indica a presença de diferenças, de forma sitemática, entre Asiáticos e Ocidentais num grande número de dimensões. Por exemplo, os Asiáticos parecem mais inclinados a classificar objectos com base em semelhanças de família, enquanto que os Ocidentais aparentam estar mais dispostos a descrever o mundo e a classificar as coisas em função de relações de causalidade [32-34]. As diferenças Este/Oeste parecem também estar presentes nas intuições das pessoas acerca de conhecimento [29-30].

Uma tentativa recente de usar intuições acerca de casos específicos num cenário intercultural explora as intuições populares acerca da referência. Grosso modo, há duas formas de entender a referência. Segundo o ‘descritivismo’, um nome refere-se ao objecto que melhor se adapta à descrição associada ao nome. Na explicação ‘histórico-causal’, um nome é introduzido para referir um individuo, e esse nome continua a referir esse individuo enquanto o uso do nome estiver causalmente ligado à introdução do nome; o que é relevante é que, nesta definição, a descrição associada ao nome não desempenha um papel na fixação do referente. Os filósofos avaliam estas teorias pela forma como elas encaixam nas intuições acerca de casos particulares que envolvem a referência. Uma famosa experiência de pensamento elaborada por Kripke, o ‘caso Gödel’, gerou intuições entre os filósofos que não correspondiam à teoria descritivista, e isso levou a que muitos deles passassem a defender a perspectiva histórico-causal. Kripke apresenta o caso do modo seguinte:

Suponha que Gödel não era de facto o autor do teorema [de Gödel]. Um homem chamado ‘Schmidt’… na verdade fez o trabalho em questão. O seu amigo Gödel, de alguma forma, conseguiu a posse do manuscrito, e a partir daí foi atribuído a Gödel. Nesta perspectiva [a então popular teoria ‘descritivista’], quando o homem comum usa o nome ‘Gödel’, ele pretende realmente referir-se a Schmidt, porque Schmidt é a única pessoa que satisfaz a descrição ‘o homem que descobriu a incompletude da aritmética’[35].

A intuição de Kripke acerca deste caso é que, apesar de a descrição que está associada a ‘Gödel’ ser satisfeita unicamente por Schmidt, o nome ‘Gödel’ não se refere a Schmidt. Esta intuição é partilhada pela maioria dos comentadores subsequentes. Contudo, dadas as aparentemente diferentes tendências classificativas dos Asiáticos e dos Ocidentais notadas anteriormente, Machery e colegas previram que os Asiáticos teriam provavelmente intuições acerca de tais casos mais próximas do descritivismo do que os Ocidentais [31]. Foi apresentada a versão de Kripke do caso “Gödel” a participantes Este-Asiáticos e Ocidentais e perguntaram-lhes se, neste cenário, a pessoa que usa o nome ‘Gödel’ está a falar acerca (a) da pessoa que realmente descobriu a incompletude da aritmética ou (b) da pessoa que se apoderou do manuscrito e obteve o crédito pelo trabalho. Como previsto, Este-Asiáticos e Ocidentais responderam de forma diferente. Os Este-Asiáticos tenderam a dar a resposta (a), e os Ocidentais tenderam a dar a resposta (b), que vai de acordo com as teorias da referência histórico-causais.”

Psicologia do desenvolvimento e conceitos populares

[vii] “A psicologia do desenvolvimento oferece ainda outra via de investigação sobre conceitos populares. Psicólogos do desenvolvimento têm vindo a explorar, nas últimas duas décadas, a emergência dos conceitos populares nas crianças. Trabalho recente tem olhado mais de perto para a emergência de noções como livre-arbítrio e objectividade moral, que têm sido estudadas a fundo pelos filósofos.

Livre-arbítrio

Na literatura acerca do entendimento que as crianças têm da mente, há um trabalho extenso acerca dos conceitos das crianças de crença e desejo [36-40]. Contudo, a noção filosoficamente central de livre-arbítrio tem sido quase inteiramente negligenciada neste corpo de trabalho. Os filósofos há já muito que debatem acerca da própria caracterização da noção de livre-arbítrio [41,42]. Um ponto de vista historicamente proeminente é o de que o livre-arbítrio é incompatível com o determinismo, a tese de que todos os eventos são uma consequência inevitável das condições anteriores, e das leis da natureza. Sob esse ponto de vista, uma acção seria livre só se o agente pudesse ter agido de outra forma, mesmo que as condições anteriores fossem as mesmas. Experiências recentes investigaram se as crianças de facto pensam que os agentes poderiam ter agido de outra forma [43]. As crianças foram colocadas numa de duas situações: aqueles que estavam na “situação do agente” presenciavam um agente que exibia comportamento motor; aqueles que estavam na “situação do objecto” viam um objecto a mover-se. Às crianças na “situação do agente” era-lhes mostrada uma caixa fechada com tampa deslizante; o experimentador fazia a tampa deslizar para a abrir, e tocava no fundo da caixa. Às crianças na “situação do objecto” era-lhes mostrada a caixa fechada com uma bola pousada na tampa deslizante; o experimentador fazia deslizar a tampa para a abrir, e a bola caía para o fundo da caixa. Perguntava-se então à criança se o agente, no primeiro caso, e se o objecto, no segundo caso, tinham de se ter comportado daquela forma depois da tampa da caixa se abrir, ou se poderiam ter agido de outro modo. Os resultados foram muito claros –  as crianças tenderam a dizer que o agente poderia ter feito outra coisa qualquer, mas o objecto tinha que ter agido como agiu (Figura 1b). Num segundo estudo, fizeram-se perguntas a adultos e crianças acerca de eventos físicos (e.g. um fervedor com água a atingir o ponto de fervura) e de eventos que implicavam uma escolha moral (e.g. uma menina a roubar um chocolate). Perguntava-se aos participantes se, caso tudo no mundo fosse igual até o evento ocorrer, esse evento teria de ocorrer. Neste cenário, tanto os adultos como as crianças mostraram-se mais inclinados a responder que os eventos físicos tinham mesmo que ocorrer, ao contrário dos que implicavam uma escolha moral. Isto providencia provas preliminares de que as pessoas têm um conceito de livre-arbítrio no qual é característico dos agentes poderem agir de forma diferente.

Objectividade moral

O conceito de moralmente errado servirá como um exemplo final. Na filosofia moral, tem havido uma discussão prolongada acerca de saber se o conceito popular de moralmente errado é objectivo. Segundo uma concepção objectivista, se uma acção particular é moralmente errada, ela é errada absolutamente. Então, por exemplo, se for moralmente errado que o Bill pontapeie um cachorro, isto é simples e absolutamente errado, ponto final, e não errado meramente para alguns grupos e não para outros. Assim, uma noção objectivista de “ser moralmente errado” compromete-se com a visão de que (i) os juizos morais verdadeiros são verdadeiros de uma forma não relativista, e (ii) alguns juízos morais são verdadeiros.

Quando perguntamos se o conceito popular de ser errado moralmente é objectivo, os filósofos ficam divididos [4,44]. Investigações sobre as intuições dos adultos sugerem que há, de facto, variação na população adulta quanto a essa questão. Alguns adultos respondem como objectivistas e outros como não-objectivistas a respeito de violações morais canónicas, tal como a agressão sem provocação [15]. É menos claro, contudo, que essa variação esteja presente nas crianças. Aliás, as crianças tipicamente acreditam que uma violação moral como a agressão sem provocação é errada independentemente da autoridade, ou das regras existentes, ou da cultura [45-47]. Há provas da existência de uma larga consistência intercultural no que toca às características do conceito de moralmente errado entre as crianças [48-50]. Para além disso, pelo menos nos E.U.A., as crianças também acreditam que a violação moral é ‘mesmo’ má, e não apenas má ‘para algumas pessoas’; por contraste, as crianças acreditam que as cebolas são repulsivas para ‘algumas pessoas’ e não ‘absolutamente’ repulsivas [51]. Todas as provas disponíveis confirmam a afirmação de que, para as crianças, o conceito de moralmente errado é um conceito objectivo.

O trabalho em psicologia do desenvolvimento pode gerar uma forma mais elaborada de olhar para estas questões em torno dos conceitos populares, na medida em que pode permitir descobrir a existência de “posições por defeito” em alguns conceitos populares. Por exemplo, uma forma de interpretar os resultados no que respeita aos conceitos morais é considerar que o objectivismo é a posição inicial, que pode depois ser modificada ao longo do desenvolvimento da criança.”

Quais as vantagens de uma abordagem empírica?

[viii] “A pesquisa acerca de conceitos e intuições populares pode também servir para esclarecer as raízes psicológicas de alguns problemas filosóficos antigos, que parecem ser alimentados por conceitos populares antagónicos. Por exemplo, um modo de olhar para o problema do livre-arbítrio é considerar como este debate está a ser alimentado por intuições poderosas que puxam em direcções diferentes. Por um lado, temos a intuição de que um agente poderia ter agido de outra forma, mesmo se tudo o resto permanecesse exactamente  igual. O trabalho em psicologia do desenvolvimento exposto acima sugere que esta intuição está presente até em crianças. Por outro lado, alguns filósofos argumentam que as pessoas crêem que existe um determinismo causal que explica qualquer acção [41]. Se é possivel considerar que as pessoas têm ambas as intuições, uma explicação psicológica natural será a de que existem dois sistemas diferentes subjacentes às intuições opostas. Uma possibilidade é a de que a intuição determinista provém do sistema cognitivo dedicado à previsão e à explicação do comportamento, ao passo que a intuição de que os agentes poderiam ter agido de outra forma deriva do sistema cognitivo dedicado à avaliação moral [43]. Mas qualquer uma destas propostas parecerá ad hoc sem algum tipo de suporte que a fundamente. É aqui que a pesquisa empírica pode surgir como forma de fornecer uma nova abordagem empiricamente sustentada. Ao investigar empiricamente estas intuições, podemos perceber que sistemas cognitivos geram quais intuições, o que nos permitirá avaliar se as intuições antagónicas acerca do livre-arbítrio são geradas por sistemas cognitivos parcialmente independentes. Claro que para investigar estes assuntos adequadamente será preciso ter em conta os tempos de reacção, percentagens de erro, e outras técnicas de investigação experimentais, mais sensíveis e complexas do que as metodologias de inquérito e entrevista aqui apresentadas.

A intrusão das metodologias das ciências sociais no terreno filosófico não significa que abandonemos questões filosóficas tradicionais tais como “O que é a moralidade?” ou “O que é a referência?”. Pelo contrário, os métodos das ciências sociais podem ajudar a complementar os métodos tradicionais da filosofia de modo a caracterizar os conceitos populares de forma mais adequada. De facto, muito do trabalho recente apropria-se das mesmas experiências mentais que os filósofos tinham proposto. E a abordagem empírica poderá revelar que as noções populares de moralidade, por exemplo, têm uma grande consistência intercultural, e raízes culturais profundas. Contudo as metodologias das ciências sociais podem também levantar sérios problemas aos métodos filosóficos tradicionais. Se existe uma diversidade inter- e até intracultural significativa nos conceitos e intuições populares, isto pode querer dizer que o alcance dos métodos filosóficos tradicionais está comprometido. Mas o trabalho empírico acerca de conceitos e intuições populares só agora começou, e é impossível fazer prognósticos com confiança, excepto o de que existe uma grande variedade de questões que podem ser alvo de pesquisa no futuro.”

Referências:

 1 Mackie, J. (1977) Ethics: Inventing Right and Wrong, Penguin

2 Stich, S. (1983) From Folk Psychology to Cognitive Science, MIT Press

3 Smith, M. (1994) The Moral Problem, Blackwell

4 Jackson, F. (1998) From Metaphysics to Ethics, Oxford UniversityPress

5 Ayer, A. (1956) Problem of Knowledge, Macmillan

6 Chisholm, R. (1957) Perceiving: A Philosophical Study, Cornell University Press

7 Gettier, E. (1963) Is justified true beliefknowledge?Analysis 23, 121–123

8 Shope, R. (1983) The Analysis of Knowing, Princeton University Press

9 Stich, S. (1990) Fragmentation of Reason, MIT Press

10 Mele, A. (2003) Intentional action: controversies, data, and core hypotheses. Philos. Psychol. 16, 325–340

11 Grice, P. (1989) Studies in the Ways of Words, Harvard University Press

12 Lewis, D. (1972) Psychophysical and theoretical identifications. Australas. J. Philos. 50, 249–258

13 Goldman, A. (2001) Replies to the contributors. Philos. Topics 29, 461–511

14 Knobe, J. (2003) Intentional actions and side effects in ordinary language. Analysis 63, 190–193

15 Nichols, S. (2002) How psychopaths threaten moral rationalism. Monist 85, 285–304

16 Nichols, S. (2004) After objectivity. Philos. Psychol. 17, 5–28

17 Greene, J. et al. (2001) An fMRI investigation of emotional engagement in moral judgment. Science 293, 2105–2108

18 Bratman, M. (1984) Two faces of intention. Philos. Rev. 93, 375–405

19 Harman, G. (1976) Practical reasoning. Rev. Metaphysics 29, 431–463

20 Bratman, M. (1987) Intention, Plans, and Practical Reason, Harvard University Press

21 Adams, F. (1986) Intention and intentional action: the simple view. Mind Lang. 1, 281–301

22 McCann, H. (1986) Rationality and the range of intention. Midwest Studies in Philosophy 10, 191–211

23 Knobe, J. (2004) Intention, intentional action and moral considerations. Analysis 64, 181–187

24 Knobe, J. and Burra, A. What is the relation between intention and intentional action? J. Culture Cogn. (in press)

25 Adams, F. and Steadman, A. (2004) Intentional action in ordinary language: core concept or pragmatic understanding? Analysis 282, 173–181

26 Stanovich, K. (1999) Who is Rational? Studies of Individual Differences in Reasoning, Erlbaum

27 Novick, I.A. and Sperber, D. (2004) Experimental Pragmatics, Palgrave Macmillan

28 Haidt, J. et al. (1993) Affect, culture, and morality, or is it wrong to eat your dog? J. Pers. Soc. Psychol. 65, 613–628

29 Weinberg, J. et al. (2001) Normativity and epistemic intuitions. Philos. Topics 29, 429–460

30 Nichols, S. et al. (2003) Metaskepticism: meditations in ethno-epistemology. In The Skeptics (Luper, S. ed.), pp. 227–247, Ashgate Press

31 Machery, E. et al. (2004) Semantics, cross-cultural style. Cognition 92, B1–B12

32 Nisbett, R. (2003) The Geography of Thought, Simon & Schuster

33 Nisbett, R.E. et al. (2001) Culture and systems of thought: holistic vs. analytic cognition. Psychol. Rev. 108, 291–310

34 Norenzayan, A. et al. (2002) Cultural preferences for formal versus intuitive reasoning. Cogn. Sci. 26, 653–684

35 Kripke, S. (1980) Naming and Necessity, Harvard University Press

36 Wellman, H. (1990) The Child’s Theory of Mind, MIT Press

37 Perner, J. (1991) Understanding the Representational Mind, MIT Press

38 Leslie, A. (1995) A theory of agency. In Causal Cognition (Sperber, D., Premack, D. and Premack, A., eds), pp. 121–141, Oxford University Press

39 Gopnik, A. andMeltzoff, A. (1997)Words, Thoughts and Theories, MIT Press

40 Nichols, S. and Stich, S. (2003) Mindreading, Oxford University Press

41 Hume, D. (1743, reprinted 1975) An Enquiry concerning Human Understanding, Oxford University Press

42 Reid, T. (1788, reprinted 1969) Essays on the Active Powers of the Human Mind, MIT Press

43 Nichols, S. (2004) The folk psychology of free will: fits and starts. Mind Lang. 19, 473–502

44 Stich, S. and Weinberg, J. (2001) Jackson’s empirical assumptions. Philos. Phenomenol. Res. 62, 637–643

45 Turiel, E. (1983) The Development of Social Knowledge: Morality and Convention, Cambridge University Press

46 Smetana, J. (1993) Understanding of Social Rules. In The Development of Social Cognition (Bennett,M. ed.), pp. 111–141, Guilford Press

47 Nucci, L. (2001) Education in the Moral Domain, Cambridge University Press

48 Nucci, L. et al. (1983) Children’s social interactions and social concepts: analyses of morality and convention in the Virgin Islands. J. Cross Cult. Psychol. 14, 469–487

49 Hollos, M. et al. (1986) Social reasoning in Ijo children and adolescents in Nigerian communities. J. Cross Cult. Psychol. 17, 352–374

50 Song, M. et al. (1987) Korean children’s conceptions of moral and conventional transgressions. Dev. Psychol. 23, 577–582

51 Nichols, S. and Folds-Bennett, T. (2003) Are children moral objectivists? Children’s judgments about moral and response-dependent properties. Cognition 90, B23–B32

52 Fodor, J. (1981) The present status of the innateness controversy. In Representations (Fodor, J. ed.), pp. 257–316, MIT Press

53 Stich, S. (1992) What is a theory of mental representation? Mind 101, 243–261

2 comentários

  1. […] e é um texto claro. Os outros dois textos podem ser lidos na sequência – sugiro: primeiro o texto do Shaun Nichols e depois o […]

  2. Sílvia · · Responder

    Até parece que os filósofos não são pessoas comuns!? Os filósofos são pessoas comuns. Exercitam o seu raciocínio lógico, mas isso não os faz sair fora da norma. Exercem a sua vocação, como outras pessoas o fazem. As vocações podem ser é diferentes.

    Um abraço,

    Sílvia

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